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História

A matéria esvoaçante, a suavidade do caminho íngreme

História de: Jasmin de Britto Pinho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/03/2020

Sinopse

Jasmin Pinho nasceu em Salvador – 27 de agosto de 1975 – e passou a infância entre o morro do Pituaçu - numa casa redonda, com vista para o mar e o coqueiral - e a fazenda de sua avó. Foi para o Rio; Londres; de novo Rio; criou raízes em São Paulo. Produziu livros, filmes, exposições, mesclou a matéria intangível e a coisa prática. Sofreu por amor e, um dia, alguém lhe disse que o amor que doía era seu e ela poderia dá-lo a quem quisesse. Reflete a importância de  um tempo maior para o amor mais sublime: ser mãe, acompanhar os meninos, vê-los crescer. Faleceu em março de 2020.

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História completa

Nasci em Salvador, Bahia, em 1975. Filha de Gut e Eli, irmã de Minon e Aeon. Meu pai, Augusto José, era físico nuclear. Minha mãe, de família rica e influente – o tio dela era governador do estado – era muito hippie, verdadeira ovelha negra da família. Nasci numa casa redonda, em cima de um morro, em Pituaçu, Salvador. Uma casa toda branca, com portões de vidro… “E aí, você via o gramado, o coqueiral, o mar”. A memória que trago da infância – costumo dizer – é de algo “glorioso, livre, inteiro”. Fernando Pessoa escreveu assim: “Para ser grande, sê inteiro...”. Também lembro do cajueiro, do cheiro da folha do caju. Havia, nas duas famílias, uma coisa de estudo, de inteligência. E, no nosso núcleo familiar, sempre se lia, sempre alguém estava lendo alguma coisa. As Obras Completas, de Pessoa, hoje meu livro de cabeceira, era o livro da família. Mas eu era pequena – quatro anos – meus pais se separaram. Como sempre, motivos é o que não falta; ficam ali, à espreita, esperando o momento de se transformar no episódio detonador. Minha mãe, extremamente contestadora, rebelde. Meu pai, dotado até de certa genialidade, sempre estudando, envolvido com intelectualidades, “incapaz da Matemática afetiva diária”, no dizer de minha mãe. E como esta era oriunda de família de posses, tradicional, católica – embora minha avó fosse tudo: católica, budista, espírita, Rosa Cruz – nós fomos para a fazenda. As lembranças maiores de minha infância são dessa fazenda. De gado e cacau. E o convívio generoso, carinhoso, com minha avó, intensamente espiritualizada. Guardo, também, as visitas ao vô, no Rio, que eles foram, toda a vida, casados-separados. Ele com muito dinheiro, por muito tempo, mas não o tempo todo, boêmio, vivendo uma vida paralela.

Depois da fazenda, fomos para um prédio, também redondo, com vista para a Baía de Todos os Santos. Vivemos nesse apartamento, com luxo e conforto, por cinco anos. Lembro de que, aos 15 anos, eu já percebia que minha mãe não estava bem financeiramente. Como meu avô também não estava, acredito que há mais tempo, ela montou uma confecção infantil, deu certo, mas ela simplesmente largou. Foi ser taoísta. Com 16 anos, eu fui trabalhar. E em 1994, eu saí da Bahia. Queria ver e viver o mundo. O meu mundo de Comunicação e Jornalismo, no Rio. Passei na PUC em terceiro lugar, o que me garantiu bolsa o curso inteiro. Fui trabalhar com eventos, em seguida fui para a CNT – jornalismo diário. Um ano depois, fui para uma produtora e para Londres, por três meses, aprimorar meu Inglês. Voltei para o Rio, para a produtora e para Londres novamente, aí já vivendo com uma pessoa. Quando ele me pediu em casamento, o casamento já havia acabado. Durou dois anos. Certas coisas foram pesando, eu fui ficando triste, sentia um banzo se apoderando de mim, até do cheiro do meu cajueiro eu tinha saudades. Quando eu voltei lá para buscar minhas coisas, já estava apaixonada de novo. Deu em nada, a não ser em dores da paixão, um novo sofrer por amor. De que, no fundo, eu até gosto. Acho que é reflexo de muita poesia, muito romantismo, da minha natureza esvoaçante, sei lá. Aí nasceu a Casa Rosada, eu e Minon na mesma empreitada. Durou 15 anos e muitos filmes, muitos livros, muitas exposições. Não houve, nunca, um conflito, apenas setas indicando caminhos diferentes. Mas um período maravilhoso, com foco e dedicação, um verdadeiro encontro entre o que a gente não consegue pegar, mas está ali, e o pragmático, o mundo real.

(…) mas a sensação que eu tenho hoje, olhando para trás, é que eu mesma dei uma descompensada nos meus  equilíbrios naturais.

E, no lado amoroso, só posso dizer que, ao chegar em São Paulo, que foi o único lugar em que criei raízes, continuei sofrendo por amor. Até que encontrei o cara que me pareceu ser o predestinado. Sólido, ético, justo e verdadeiro. Trouxe três filhos com os quais fizemos uma bonita e divertida família; deu-me dois tesouros em forma de filhos; carregou comigo uma tenebrosa história de um câncer e, de repente, assim… Eu, recém-saída da quase morte e novamente grávida de cinco meses, o ouvi dizer mais ou menos o seguinte: “Vou embora porque reencontrei meu amor de juventude e preciso viver essa história”. Depois de nove anos, onde ficaram a generosidade, a humanidade, a segurança, o amor, a solidariedade, a ética, enfim? O segundo filho nasceu, a esperança de cura voltou, mas somente por cinco meses: quem voltou, de fato, foi o câncer. Hoje eu tenho oito tumores e o ‘status’ de desenganada. Aí, o Samuel, meu filho mais velho, criança de nove anos e meio, me diz assim: “Mãe, são muitos sentimentos, não é?” Sim, são, meu filho. E que, às vezes, nos esquecemos do cotidiano, do corriqueiro, e deixamos de viver, com grandeza, os mais belos momentos.

Eu estou no caminho do bardo… Estou me preparando para morrer… Mas a gente, pense bem, está aqui de passagem… Morte é curva na estrada, não é nada, é o que você deixa, é o que vai ficar com as pessoas que viveram com você. E você acaba ficando dentro do coração dessas pessoas.

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