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História

Páginas de um sobrevivente

História de: Luiz Alberto Mendes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 31/08/2009

Sinopse

Infância. Brigas na escola. Fugas. Instituição para menores. Penitenciária. Cela forte. Telefone. Paixão pela leitura. Professora de Literatura por correspondência. Vestibular PUC-SP. Faculdade de Direito. Casa de Detenção. Publicação do livro “Memórias do Sobrevivente”. Coluna na Revista Trip. Professor. Saída. Oficinas literárias nos presídios. Lar dos Pequeninos.

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História completa

Luiz Alberto Mendes Júnior. Nasci em 04 de Maio de 1952, em São Paulo.


Meu pai era alcoólatra, enchia a cara de pinga todo dia, chegava em casa batendo e brigando com minha mãe e comigo, até desmaiar de tão bêbado.

 

Minha mãe era bruta. Nunca fiz nela um carinho físico, nem ela em mim. Mas havia um carinho diferente, nos olhos, nas atitudes.

 

Aos sete anos, minha situação familiar vai repercutir na escola. Virei o diabo. Aquele tempo a gente apanhava da professora com tapa na cara. Tive várias brigas com professores. Fui expulso do colégio.

 

Voltei pra outro colégio, Barão de Mauá, e fiz o primeiro ano ginasial. Mas já estava muito envolvido com a cidade de São Paulo, as suas luzes, as suas cores. Fui estudar de noite, na Avenida Celso Garcia, no Brás, próximo do centro. Então vira e mexe cabulava aula e ia ver a noite. Via os moleques lá tudo solto na rua, à vontade. Achava que aquilo era liberdade.

 

Comecei a fugir de casa aos onze anos, daí o juizado me pegava e me mandava pro plantão. As crianças que ninguém queria e que o governo criava, colocavam ali. Só que esses caras não queriam cuidar da gente, eles queriam é comer a gente, tomar tudo que a gente tinha. A chave ali era fugir.

 

A primeira vez que fiquei ali, apanhei pra caramba da polícia, dos menores e tal. Na segunda, fugi com o moleques e aprendi a roubar. Com o tempo, já não pra sobreviver, mas pra se adiantar. A gente entrava nas casas pra vandalizar mesmo. Rasgava o estofado, cagava na geladeira, rebentava tudo, detonava. Já com certo ódio porque a gente era muito judiado no juizado. Então achava que alguém tinha que pagar por aquilo.

 

Quando vinha para casa da minha mãe, ficava uns dias, meu pai exigia, porque já não estudava mais, que fosse trabalhar. Arrumava emprego de office-boy. Passava um mês trabalhando, quando deixavam uma chance de depositar muito dinheiro no banco ou o cofre marcando, eu “vrupt” e linha na pipa. Ia pro Rio de Janeiro, pra Santos e ficava dois, três meses. Voltava na maior cara de pau, tirava outra carteira de identidade de menor, como se não tivesse acontecido nada, outro emprego.

 

Passei a ganhar muito como ladrão com treze, catorze, quinze anos, porque aprendi a bater carteira. Eu entrava pela Rua Direita dum lado e saia pelo outro com dez carteiras dentro dos bolsos. Saía roubando uma mulher atrás da outra. Entrava num ônibus pra um lado, do outro lado saía com quatro, cinco carteiras.

 

Com dezesseis anos me envolvi em situações mais sérias de arrombamento, homicídio. E aí eles mandaram pro juizado e tive que ficar até os dezoito. Fiquei dois anos e meio só crescendo em ódio e em cultura criminal.

 

Já saí bandido, assaltante. Não queria ser ladrão só, queria dominar, me criar, ser o bam bam bam mesmo. Queria poder, dinheiro, fama. Amava isso. Andava com uma arma de um lado da cinta, outra do outro e uma sacola cheia de bala. Armado 24 horas, até pra ir ao banheiro. Vivia trocando tiros com a polícia.

 

Num desses tiroteios, fui preso. Mandaram pra cadeia cheio de processo que arrumaram. Deu trinta anos, logo de cara, a primeira pena. Daí veio a tortura. Todo dia eles batiam.

 

Mas, mesmo no mundo do crime, eu excedia. Um criminoso não queria saber de nada, eu queria saber de tudo. Aí, de repente, chego lá na cela forte, condenado a tirar um ano “isoladão”.

 

Um dia, o cara da faxina passou e falou assim: “ô meu, liga o telefone”. “Telefone?”. O cara falou “é o boi”. O boi é a privada. Fui lá tirar a água da privada com a caneca e escutei o cara que morava no mesmo corredor que eu, do outro lado da cela. Pelo encanamento ele entrava em contato comigo.

 

Esse cara começou a falar de livro. Nunca tinha lido um livro na minha vida. Mal sabia ler e escrever.

 

Daqui a pouco ele começou a contar uma história que me interessou. Foi o “Les Miserables” do Victor Hugo. Ele me contou em episódios.

 

Quando saí, esse cara me mandou duas pilhas de livros.

 

Primeiro comecei a ler quinze minutos e doía a cabeça, doía tudo, os olhos e tal. Depois mais quinze, vinte, trinta, quarenta e pá, pá, pá, quando percebi já tava lendo doze horas por dia. Fiquei louco por livros.

 

Conheci uma professora de Letras que me mandava todo mês quatro, cinco livros que eu fichava. Ela foi sendo professora de literatura, me pondo contra a parede na questão dos valores. Na medida que eu tomei contato com as letras, com os códigos de comunicação, de relacionamento das pessoas, e comecei a dominar esses códigos, eu já não tive mais necessidade de agredir e nem de fazer mais nada contra ninguém. Na medida em que desenvolvia a capacidade de dialogar, de escrever, de ler, meus horizontes se expandiram. Tomo conhecimento da pequenez da minha vida até ali.

 

Então, sai a lei 1.819, que dava o direito ao presidiário de frequentar curso superior na rua. Quando li, falei: “Vou fazer faculdade”. Mas eu tava condenado a 132 anos de cadeia e não tinha diploma de curso nenhum.

 

Mandei uma carta pra reitoria da PUC, que me deu uma bolsa de estudo. No final de 1981, eliminei as matérias do segundo grau em supletivos. E em 1982 fiz vestibular. Consegui que os examinadores da PUC fossem na penitenciária.

 

Eram cinco mil candidatos para 450 vagas. Fui o primeiro colocado e matriculado pra Direito. Mesmo assim não deixaram ir pra faculdade.

 

No ano de 1984 mudou a política no Estado de São Paulo. Minha mãe chegou ao bispo Dom Paulo Evaristo Arns, ao José Carlos Dias, que era o presidente de um negócio chamado Direitos Humanos e ao juiz e conseguimos sair pra faculdade.

 

Virei estrela na universidade. De repente fui eleito o representante da minha classe, cotado para uma das chapas de vice-presidente do Centro Acadêmico de Direito, tinha me filiado ao PCdoB, os professores faziam a aula em cima de mim, discutindo comigo o assunto. Me criei na PUC de tal maneira que eu tava “até”. Foi por isso que me perdi.

 

Fiquei 46 dias na rua, foragido. Fui preso dentro de um banco em Santos, trocando tiro com a polícia. Flagrante de assalto. Fui viver em prisões coletivas. Fiquei quatro anos rodando no interior até que volto pra penitenciária de estado pra viver numa cela individual.

 

Nesse período, tentei fazer uma análise minha me observando, tentando recuperar a minha infância, entender o que aconteceu. Minha mãe vinha me visitar, eu fazia um questionário e ela respondia e eu ia construindo. Era um autodidata. De repente vi que aquilo que eu tinha escrito podia virar um livro.

 

Aí chega a atriz Sophia Bisilliat e entra na Casa de Detenção com o projeto “Talentos aprisionados”, que consistia em fornecer material pra pessoas que tivessem algum talento artístico desenvolver sua arte. E da parte da literatura quem vai fazer oficina é o Fernando Bonassi. Conversando, eu e ele montamos um concurso literário. Eu tinha esse livro, falei pro Fernando que leu e falou: “faz uma revisão, vou digitar e vamos levar pras editoras”.

 

Ele levou à Companhia das Letras e os caras já chamaram pra negociar. Publicaram “Memórias do Sobrevivente” que é meu o primeiro livro.

 

Passado algum tempo, recebi a visita lá do Juliano Cedae, diretor de redação da revista Trip. O patrão dele tinha uma ideia, ele tinha um amigo cineasta em Londres, faríamos uma coluna juntos, ele escreveria do mundo aberto e eu do mundo fechado. Aí começa a minha vida de escrever.

 

Dois anos e pouco depois eu tava numa penitenciária lá de Ribeirão Preto e os caras me botaram na rua. Nem acreditei.

 

Depois lancei outro livro: “Tesão e prazer” já na Bienal do Livro em São Paulo.

 

Hoje já não é mais um ex-presidiário que escreve e sim um autor. Não me considero um escritor, só um autor. Escritor é um cara consagrado. Mas eu vou chegar lá. O único momento que me sinto realmente livre é quando tô escrevendo, criando, fazendo alguma coisa me sinto feliz.

 

Eu pensava: vou voltar aqui pra dentro da cadeia, mas com uns empreendimentos educacionais, culturais. Eu vou ter que mostrar pro mundo o que é o barato aqui. Esses caras aqui são tudo uns ignorantes, só falta conhecimento, cultura, carinho, compreensão e esses caras vão pra frente.

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