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História

A arte de vencer

História de: Livaldo Lopes da Cruz
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/06/2016

Sinopse

Livaldo conta sobre a sua infância na cidade de Jaboatão dos Guararapes e a sua convivência com seu pai alcóolatra. Por ser de uma família simples, teve que começar a trabalhar antes de ir para a escola. Relembra que ajudava sua mãe lavadeira a entregar as roupas e do seu primeiro trabalho como entregador de pão. Relembra que mais velho conseguiu estudar e entrou no curso de Contabilidade, mas não conseguiu terminar. Relembra dos meses que passou no exército, seu trabalho na Rede Ferroviária, na Usina de açúcar e de todas as suas conquistas: construir sua casa e a da sua mãe, casar com 35 anos, o que era difícil na época, se recuperar de um problema renal, trabalhar e cuidar dos seus três filhos.

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História completa

P/1 – Senhor Livaldo, boa tarde.

 

R – Boa tarde.

 

P/1 – Muito obrigada por ter vindo. Eu quero começar a entrevista com o senhor dizendo o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R – Olha, o meu nome é Livaldo Lopes da Cruz, nasci em vinte do junho de 1935, em Jaboatão dos Guararapes.

 

P/1 – E o nome do seu pai?

 

R – Raimundo Pedro da Cruz.

 

P/1 – E sua mãe?

 

R – Marina Xavier Lopes.

 

P/1 – O que é que fazia o senhor Raimundo?

 

R – Meu pai era pintor na antiga Great Western of Brazil Railway e a minha mãe era doméstica, lavava roupa.

 

P/1 – Lavava roupa para fora?

 

R – Lavava roupa para fora para sustentar a família.

 

P/1 – E o senhor Raimundo foi funcionário da Great Western por muito tempo?

 

R – Muito tempo. Aposentou-se lá na Rede Ferroviária.

 

P/1 – E ele pintava o que?

 

R – Olha, carros, vagões...

 

P/1 – Por dentro e por fora?

 

R – Por dentro e por fora, porque tinha um período que os carros entravam para reparos. Reparava tudo quanto tinha que se reparar, era caldeiraria, a parte da caldeiraria, a parte das ferragens, tudo. Então vinha pintura e ele tinha que pintar.

 

P/1 – Ele passava aquele verniz também nos bancos ou não? Isso era outra pessoa?

 

R – Eram outros pintores, cada pintor na sua função.

 

P/1 – Havia bastantes pintores?

 

R – Havia muito, muito mesmo.

 

P/1 – Muitos? Cada um fazia uma partezinha.

 

R – É.

 

P/1 – Sua mãe, o senhor estava dizendo que ela lavava roupa para fora...

 

R – Lavava roupa como ganho.

 

P/1 – Mas o senhor se lembra se ela lavava só para os operários, ou para o pessoal mais da elite, como é que era isso?

 

R – Não, ela lavava mais para o pessoal da elite.

 

P/1 – Era uma boa lavadeira de roupa?

 

R – Era, muito procurada.

 

P/1 – Para médicos, é?

 

R – Era isso mesmo, para médicos, para esse pessoal de usina, dono de usina, ela era bem solicitada.

 

P/1 – Tinha bastante gente assim, rica em Jaboatão, senhor Livaldo?

 

R – Na época, eram poucos.

 

P/1 – Ela lavava toda roupa?

 

R – Lavava toda roupa, porque naquela época era roupa passada a ferro, engomada a ferro. E não era ferro elétrico, era ferro a brasa, a carvão.

 

P/1 – O senhor chegou a ver a sua mãe passando roupa?

R – Eu carregava roupa, eu ia buscar roupa na casa da pessoa para ela lavar e passava, eu ia levar.

 

P/1 – Que idade o senhor tinha?

 

R – Eu tinha meus oito, nove, dez anos.

 

P/1 – E o senhor ia a pé?

 

R – A pé, porque naquela época não existia... Hoje o que nós temos? Hoje é moto, kombi, é tanta coisa. Mas era a pé.

 

P/1 – A pé, pegava a trouxinha de roupa...

 

R – Colocava na cabeça para trazer para cá, para lavar e entregava.

 

P/1 – Andava muito, senhor Livaldo?

 

R – Um bocado. Tinha aqueles cabides porque antigamente era aquela roupa de linho. Uma roupa que era bem passada e tal, com o maior cuidado.

 

P/1 – Ficava bonita, não é?

 

R – Ela era muito solicitada.

 

P/1 – Que bom. Senhor Livaldo, o senhor tem outros irmãos ou só o senhor?

 

R – É, eu tenho mais seis irmãos.

 

P/1 – Todos do seu pai, do senhor Raimundo, ou do segundo casamento da sua mãe?

 

R – Já foi do segundo, é.

 

P/1 – A gente pode contar um pouquinho? Porque a sua mãe se separou, é isso?

 

R – Foi, é. Porque meu pai era alcoólatra. Minha mãe não suportou, se separou. Na separação, como ela não podia nos sustentar, ela nos entregou na mão dele.

 

P/1 – O senhor cresceu com seu pai?

 

R – Cresci com meu pai até uma certa idade, porque quando a gente foi entendendo e vendo o sofrimento na mão dele, porque filhos criados sem mãe, só com pai, têm aquela maior dificuldade. Nós estávamos sentindo também pelo mau trato, porque ele só queria saber da bebida, quando chegava em casa metia... (risos) Porque a gente com a idade de cinco, seis anos, só quer o quê?

 

P/1 – Brincar...

 

R – Aí não tinha quem cuidasse da cozinha. Quando ele chegava para almoçar, o feijão estava cru (risos), aqueles problemas. Então quando era de noite que ele chegava do trabalho, chegava bicado, como se diz, né? A história, metia o pau.

 

P/1 – Nessa época era então o senhor...

 

R – Minhas irmãs.

 

P/1 – Suas irmãs. Elas são mais velhas que o senhor?

 

R – São. Foram fugindo, vendo os maus tratos dele e foram fugindo, fugindo, e minha mãe já morava com esse José Sabino Pinto Martins. E ele dizia assim, eu me lembro muito bem: “Aonde come um, comem dois. Aonde comem dois, comem três...” E foi chegando, foi chegando, eu sei que fugiram tudo da mão dele.

 

P/1 – E foram todos morar com a mãe?

 

R – Foi.

 

P/1 – Quer dizer que o senhor Sabino cuidou de vocês?

 

R – Aí é quando eu digo que o senhor Sabino foi mais do que meu pai, entendeu? Porque o senhor Sabino foi nos preparando para estudar, foi daí que eu comecei a carregar a roupinha para ajudar, para sobreviver.

 

P/1 – E o senhor Sabino trabalhava no quê?

 

R – Na Rede Ferroviária.

 

P/1 – Também na Rede?

 

R – Na Great Western, é.

 

P/1 – É? O que ele fazia?

 

R – Torneiro.

 

P/1 – Torneiro? Puxa, era uma profissão importante, né?

 

R – Importantíssima!

 

P/1 – E ele contava as histórias para vocês?

 

R – Contava. Ele era da primeira classe. Ele relatava tudo, o sofrimento dele. Nós fomos vivendo... “Vamos estudar, vamos estudar, porque estudando vai para a frente, vai ter crescimento”. Mas com dez anos eu já fui trabalhar. Já fui trabalhar em padaria, carregando pães nas casas, porque naquela época ninguém queria saber o pão que ia comer. Tinha umas mochilas de tecido, aí aqueles pães ali, pão francês, pão doce, pão crioulo, os fregueses todos não queriam que ninguém visse o pão que ia...

 

P/1 – Ah, o que um comia do outro.

 

R – É. Hoje em dia nós estamos indiferentes.

 

P/1 – Quer dizer que para o vizinho não saber, colocava numa mochilinha de tecido.

 

R – Era um negócio bem bolado mesmo. Depois eu ainda trabalhava em padaria, já não fez mais o saco de tecido, já foi papel.

 

P/1 – Sei.

 

R – Depois era embrulhado no papel, saco de papel, agora hoje é saco plástico, todo mundo vê o pão que a gente vai... (risos). “Meu Jesus, como é uma coisa dessas. Antigamente, há cinquenta, sessenta anos ninguém queria saber o pão que o outro ia comer, hoje não” (risos).

 

P/1 – O senhor falou um pão crioulo. Eu não conheço esse pão crioulo, do que é que era jeito, senhor Livaldo?

 

R – O pão crioulo é uma massa, é que é a mesma, sendo que no pão francês só dá aquele cortezinho em cima. Já o pão crioulo não bota o cheirinho, ele mesmo corta no meio, um corte já prolongado, eu acho: “Um pão crioulo de antigamente era mais gostoso do que o de hoje” (risos).

 

P/1 – É mesmo? Ele ficava então mais escurinho?

 

R – Era.

 

P/1 – Então o senhor com dez anos fazia essa entrega. Como é que era: a pé ou tinha alguma carrocinha?

 

R – Não, a pé com balaio. Pegava aquelas mochilas de tecido, com os pães já, as freguesias lá dentro do balaio. Cobria com a lona e eu já sabia as casas que ia entregar aquele pão, aquele saquinho. Saia entregando e quando voltava era sem nada.

 

P/1 – Ah, saia então com ele segurando nas costas?

 

R – É, na cabeça.

 

P/1 – Na cabeça?

 

R – É.

 

P/1 – Era bastante gente que o senhor entregava?

 

R – Era.

 

P/1 – Que horas o senhor fazia isso? Bem cedinho?

 

R – Olha, eu chegava na padaria, cinco e meia para às seis horas.

 

P/1 – Da manhã.

 

R – Exatamente. Aí tinha outras coisas para fazer e cortar, e depois começava. Porque, naquela época, o pão tinha que ser feito na noite anterior, já colocava dentro dos lençóis, digamos assim. Preparava-o todinho para fermentar, quando eram quatro horas da manhã tinha que acender o forno a lenha, aí seis e meia já tinha pão.

 

P/1 – E o senhor ajudava tudo isso?

 

R – Já, tinha que ajudar a minha mãe.

 

P/1 – Que padaria era essa. Tinha algum nome, o senhor se lembra?

 

R – Panificadora... Agora me pegou.

 

P/1 – Não, mas tudo bem, não tem problema. Aí é curiosidade minha.

 

R – Me pegou (risos).

 

P/1 – Não tem problema. Ela ficava no centro?

 

R – No centro. Hoje é um Eletro Shopping, fica junto do Serviço Social da Indústria (Sesi), e na frente dessa padaria tinha outra padaria que eu me lembro do nome, era Padaria Continente, olha. Mas a que me favorecia, eu não me lembro o nome agora.

 

P/1 – Não tem importância.

 

R – Eu sei que o proprietário era Manuel Madruga e o gerente era o Pereira.

 

P/1 – Certo. E o senhor aprendeu a fazer pão de tanto olhar?

 

R – Bem, mas eu não tinha oportunidade de fazer o pão porque tinha já aquela pessoa de carteira assinada, tudo, era ele. Mas mesmo assim, de vez em quando (risos), para aprender, porque eu via, né?

 

P/1 – Garoto.

 

R – Garoto e queria também aprender, porque de vez em quando eu trazia um pedaço de carne de charque para comer assada no forno com pão e eles também, e tinha um cafezinho. Aí eu começava a...

 

P/1 – Mexer na massa.

 

R – Na massa.

 

P/1 – E essa carne de charque devia de ser boa, não?

 

R – Ô, gostosa!

 

P/1 – Naquele forno... Então o senhor entregava, saia seis horas para entregar...

 

R – Sete horas para sete e meia.

 

P/1 – Sete horas.

 

R – Quando eram dez horas, ajeitava por ali e onze horas eu ia para casa almoçar. Chegava meio dia e meia para uma hora, aí começava a luta.

 

P/1 – Ia para a escola? Ajudava sua mãe?

 

R – Nessas alturas ainda não estudava, com dez anos. Quando deu dez anos, quase onze anos, aí vamos estudar.

 

P/1 – Quer dizer que o senhor sempre foi trabalhando, trabalhando, não tinha tempo de brincar?

 

R – Não.

 

P/1 – Nem com seus irmãos?

 

R – Não.

 

P/1 – Só trabalhando.

 

R – Só trabalhando.

 

P/1 – Seus irmãos também trabalhavam? Cada um fazia uma coisinha?

 

R – Trabalhavam, faziam. Tinha um irmão que trabalhava na Auto Viação União Ltda, ele já é falecido. Ele aprendeu também ali na Auto Viação União.

 

P/1 – Sei. As meninas ajudavam a mãe?

 

R – Negócio de bordado, naquele tempo era bordado, fazia ponto ajour, não é? Aqueles negócios que, eu não sei qual é o nome daquele negócio que o tecido, e ali amarra e começa a...

 

P/1 – Sei, o bastidor.

 

R – Pronto. Hoje em dia não se vê mais isso.

 

P/1 – Não se vê mais, é verdade.

 

R – Hoje é televisão.

 

P/1 – É verdade. Então as suas irmãs também bordavam, quer dizer que no fim todo mundo trabalhava, né?

 

R – É.

 

P/1 – E o senhor foi estudar com dez para onze anos?

 

R – Foi.

 

P/1 – Lá mesmo em Jaboatão?

 

R – Lá mesmo. Aí nessas alturas já me tiraram da padaria porque aí não dava. O meu padrasto, o senhor Sabino, tinha muita amizade, conhecimento, aí ele procurava aqueles professores e me mandava para casa deles, aí fui estudando, estudando, porque o pensamento de minha mãe e do senhor Sabino era que eu ingressasse na escola profissional, no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai).

 

P/1 – Ah, mas então o senhor não ia para a escola, ia para a casa dos professores, é isso?

 

R – À noite. Estudava durante o dia nas escolas das professoras, né? Nas casas, porque naquela época tinham as professoras que lecionavam em casa.

 

P/1 – Em casa, não tinha uma escola, então. Ah, muito bom.

 

R – Daí a gente foi estudando, estudando, estudando...

 

P/1 – Estudava na casa da professora à tarde e à noite também nos outros professores.

 

R – À noite...

 

P/1 – Dos conhecidos do senhor Sabino.

 

R – É. Na casa do seu Honório Firmino. Seu Honório foi um professor da escola profissional.

 

P/1 – O que é que o senhor aprendeu? Aprendeu a ler?

 

R – Aprendi. Só não aprendi as línguas. Inglês, Francês, isso aí não.

 

P/1 – O resto aprendeu tudo. História, geografia, tudo.

 

R – Tudo, foi.

 

P/1 – E foi bom? O senhor gostava de estudar?

 

R – (suspiro)

 

P/1 – Não?

 

R – Na minha infância eu não brinquei, não é? Mas tinha que aprender, porque a minha mãe tinham uma tal de tabica cipopal.

 

P/1 – Tabica cipopal, o que era isso?

 

R – Não sei se a senhora conhece, porque antigamente não tinha aquele pessoal de engenho que era no cavalo? Não era? Aquele pessoal que tinha possibilidade tinha aqueles cavalos bonitos. Então eles usavam uma tabica que a gente chamava de cipopal, porque era justamente aqui e aqui a tabica prolongada. E essa tabica... A enrolava todinha se quisesse e ela não se quebrava.

 

P/1 – De madeira, né?

 

R – É, de madeira, do mato. E não se quebrava...

 

P/1 – Sua mãe tinha uma?

 

R – Ôxe!

 

P/1 – Ai de quem não estudasse?

 

R – É, apanhava mesmo e ela dizia mais assim, olha: “Eu tendo cem anos e você noventa, você tem que me obedecer porque se não me obedecer vai apanhar”.

 

P/1 – Danada ela, né?

 

R – É.

 

P/1 – Mas ela precisou ser firme também, né?

 

R – E como foi.

 

P/1 – Já pensou? Se não ficava uma bagunça, né?

 

R – É. Era uma senhora que não sabia ler, ignorante que conhecia um homem por causa da xícara, com vinte anos depois que eu tinha estudado com essa professora, ela disse para mim assim: “Meu filho, eu vou estudar com dona Rute porque eu tenho que aprender a assinar meu nome”.

 

P/1 – Ah, que bonito. E aprendeu?

 

R – Ela foi, toda noite ela pegava um lapisinho, um caderno, ia pra casa de dona Rute Mendonça. E dona Rute Mendonça que ensinou à ela. Eu fico olha...

 

P/1 – Ela ficou feliz, né?

 

R – E como ficou.

 

P/1 – Que bom senhor Livaldo, que bom. E aí na escola profissional?

 

R – Ah, na escola profissional, a primeira vez eu não passei.

 

P/1 – Já estava com quatorze anos?

 

R – Estava com treze. Já decepcionei minha mãe, não passei. Ela também não ameaçou a tabica, ela disse: “Meu filho, olha, você não passou esse ano, mas se Deus quiser, o ano que vem você passa”. Ela me deu essa força, foi. E graças a Deus, eu me esforcei, quando chegou no ano seguinte eu passei. Aí foi uma alegria.

 

P/1 – Uma alegria. Todo mundo comemorou?

 

R – Foi. Daí a gente foi estudar, primeiro, segundo fazendo tudo para não ser reprovado.

 

P/1 – E tinha que estudar muito, né?

 

R – Tinha, porque quando chegava esses meses de maio e junho, tinha que fazer a prova semestral e tinha que tirar uma boa nota para justamente ganhar o salário do Senai, entendeu? Tinha que ganhar uma boa nota nos estudos e na oficina.

 

P/1 – O senhor já estava começando a estudar melhor, já estava estudando mais?

 

R – Já, já. Porque na escola profissional tinha a parte de educação física das sete às oito, com meia hora tinha a bolinha. Quando tinha uma aula vaga, porque o professor adoece, aí: “Opa! Vamos para o voleibol”.

 

P/1 – Ah, sempre dava para jogar um pouquinho.

 

R – Dava, é.

 

P/1 – E era bom porque brincava, né?

 

R – Ótimo, ótimo mesmo. Divertia-se porque é um lazer.

 

P/1 – Como é que era, tinha aula pela manhã...

 

R – Agora, era de manhã, das sete às onze. Das doze à uma hora ia para a oficina aprender a arte: carpintaria, serralharia, forja, tinha tudo ali para aprender, parte elétrica.

 

P/1 – Todo mundo aprendia tudo.

 

R – Parte de torno, todos. E nós passávamos ali por tudo.

 

P/1 – Por todas as bancadas.

 

R – Para, no final, ver no que a gente ia ingressar.

 

P/1 – Sei. Tinha um horário de almoço?

 

R – Tinha. A gente almoçava em casa.

 

P/1 – Ia para casa almoçar?

 

R – Mas para quem morava distante, porque vinha muita gente de fora estudar no Senai e tinha um tal de loré. Era uma coisa louca, muito gostosa.

 

P/1 – É? O que era isso? Era uma comida?

 

R – Era o nome que a gente deu, a gente chamava loré.

 

P/1 – Vocês que deram o nome.

 

R – Mas era feijão com tudo, era um feijão gostoso.

 

P/1 – Feijão com o que? Com carne, com charque...

 

R – Com charque, com tudo. Com verdura, tudo, bastante verdura.

 

P/1 – Tudo misturado?

 

R – Tudo ali.

 

P/1 – Bom isso, hein?

 

R – Ótimo!

 

P/1 – A sua casa era perto da escola?

 

R – Era perto, aí eu ia almoçar em casa.

 

P/1 – Mas de vez em quando ficava para comer o loré?

 

R – Não porque meu padrasto, senhor Sabino, levava. Era um loré gostoso. Olha, e grosso, a gente botava água fervendo para aumentar ele todinho.

 

P/1 – Para toda família comer. E essa sua casa era uma casa pequena, como é que ela era?

 

R – Essa casa era de taipa.

 

P/1 – De taipa?

 

R – É. Quando chegava nesse período que nós estamos, ela começava a fazer: “Cri-cri-cri...” Para querer cair. A minha mãe, coitada, corria, chamava um pedreiro, a escorava e nós andávamos por dentro dela assim, ó.

 

P/1 – Por entre as escoras.

 

R – As escoras, né? Até passar maio, junho, julho, agosto, setembro, quando chegava o verão ela mandava ajeitar, ripar. Ajeitava-a todinha, rebocar, cortar e ficar linda.

 

P/1 – Mas ela era uma casa gostosa apesar disso?

 

R – Era gostosa.

 

P/1 – Como é que é, tinha um quarto, dois quartos?

 

R – Tinha dois quartos. As meninas num quarto e a gente na sala.

 

P/1 – Os meninos na sala e o outro quarto era a sua mãe e o senhor Sabino, né?

 

R – Cama de lona.

 

P/1 – Cama de lona? Era bom, não?

 

R – Ôxe, não fazia calor de jeito nenhum.

 

P/1 – Pois é.

 

R – Olha uma coisa...

 

P/1 – E o banheiro era fora? Não tinha banheiro em casa?

 

R – Menina (risos), a gente morava aqui e o banheiro ficava lá em baixo, nisso no período de inverno, chovendo, meu Jesus, que sofrimento. Olhe...

 

P/1 – Mas para criança era uma farra?

 

R – (risos) Hoje é diferente. Tudo dentro de casa, tudo ali.

 

P/1 – E o senhor foi indo na escola, fez o primeiro ano, o segundo ano?

 

R – Terceiro.

 

P/1 – E o que é que o senhor começou a gostar mais de fazer dentro dos ofícios que eram ensinados?

 

R – Olha, serralharia.

 

P/1 – Já gostou assim, logo?

 

R – Foi, logo. Aí daí...

 

P/1 – Quer dizer que os dois últimos anos já fez o serviço de serralheiro, não é isso?

 

R – É isso. Serralheiro, é.

 

P/1 – Tinha um uniforme, alguma farda para ir para a escola? Ou podia ir...

 

R – Tinha um macacão. Quer dizer, a farda, a nossa roupa era comum, agora quando fosse para a oficina, tinha um macacão.

 

P/1 – Era a Rede que dava esse macacão? Ou era...

 

R – Era a Rede, era. A Rede todo ano ia tirar a medida e...

 

P/1 – E o senhor devia ser limpinho, porque sua mãe devia caprichar.

 

R – Meu Jesus, só a senhora vendo!

 

P/1 – Todo engomado...

 

R – Caprichava, ela. Ela dizia assim: “É para meu filho”.

 

P/1 – Ah, ela estava orgulhosa.

 

R – É uma mãe que eu digo assim, ela gostava mais de mim (risos).

 

P/1 – No meio dos irmãos todos?

 

R – É, porque tem uma história que só eu contando, não vai acreditar não.

 

P/1 – Ah, a gente pode saber?

 

R – Eu vou contar.

 

P/1 – Então, por favor.

 

R – Sempre a gente, como pobre, morava em casa de taipa. Hoje em dia, graças a Deus, já é uma casa melhorada, alvenaria, não é isso? No interior, ainda tem aqueles pobres coitados em casa de taipa. E minha mãe era uma mulher pobre - como eu já citei - e ela era muito apegada nas coisas espirituais. Ela sempre gostava. Teve uma época, dos ciganos, e ela contava para mim, sempre, todo sábado, a gente se juntava, eu e ela, e a gente conversava muito e terminava com a gente chorando, eu e ela. Eram umas dez e meia para onze horas do dia, aí disseram assim: “Lá vêm as ciganas! Lá vêm as ciganas!” E ela já tinha vindo do rio, já tinha ajeitado todo o almoço. E nós estávamos todos brincando, no canto na sala e: “Lá vêm as ciganas, lá vêm as ciganas...” Ela: “Pow!” Ficou na porta. Elas vieram, passou a primeira cigana, passou a outra, e com uma mão ela disse: “Não quero, não!” “Vamos ler a mão?” “Não quero, não!” Aí veio a última, essa última parou, olhou assim para ela, ela contando, aí disse assim: “Vamos ler a mão?” “Eu não tenho nada para te dar”. Ela disse: “Realmente, tu não tem nada pra me dar, tu estas numa situação mesmo. Tu não tem nada para me dar mesmo, mas mesmo assim, me dá tua mão”. Ela estendeu a mão, assim, do lado de fora, ela não abriu a porta para cigana não entrar, porque dizem que cigana é muito ladra, é o que dizem. Aí ela estendeu a mão e a cigana lendo a mão dela e olhando para nós, os filhos e ela dizendo as coisas à ela, mas isso ela não me disse. Ela não disse o que a cigana dizia, ela só disse assim: “Olha, todos aqueles meninos ali são teus filhos, mas ali naquele meio só tem um que vai ficar até o fim da tua vida”. Ela olhou assim e disse: “Ôxe, qual deles?” “Aquele mais brancoso ali”. “Ela apontou para você meu filho”. “Foi mesmo, minha mãe?” Pronto. Passou. E no final de tudo mesmo, aconteceu. Porque nós morávamos... Nessa época nós saímos dessa casa e fomos para outra casa de barro, taipa, e nessa casa que caía e ela escorava, foi que ela dizia para mim: “Meu filho, se o dono desse terreno lotear isso aqui...” Eu ficava olhando para ela. Ela tinha aquela fé, aquela força em Deus. “Se Deus quiser, eu compro esse terreno aqui com esse mocambo e, aí na frente, você compra esse terreno aí”. “Mas minha mãe...” E tudo o que ela me pedia...

 

P/1 – O senhor fazia.

 

R – Eu fazia. Se ela dissesse que isso aqui era preto, eu tinha que dizer que era preto.

 

P/1 – Mesmo sendo branco?

 

R – Mesmo sendo branco, para não contrariá-la: “Está certo, eu, se Deus quiser, você ajuda a pagar isso aqui e compra o seu. Quando você terminar de pagar, você vai e constrói. Se Deus quiser, você vai e constrói a sua casa. Quando você levantar, que cobrir, eu vou morar dentro dela”. “E como?” “Sem porta, sem nada. Sem parte, sem nada, se Deus quiser. Daí, você...” Ela dizia “Seu amarelo, você vai ajudar a construir a minha”.

 

P/1 – E foi assim?

 

R – E foi assim. Quando eu terminei de cobrir a casa ela foi morar dentro, colocou as portas que eram de zinco, a janela, não era janela, era pano, tecido. Naquela época não tinha ladrão, não tinha nada disso e, graças a Deus foi assim. E ela disse assim: “Eu tenho fé em Deus de ter a minha casa de alvenaria”. Aí o que eu comprava para a minha casa, comprava para a dela. O piso, tudo, era azul mosaico, tudo o que eu comprava para mim já comprava na quantidade certa para mim e pra ela. Aí terminei ajudando, graças a Deus.

 

P/1 – Com que idade ela faleceu, senhor Livaldo?

 

R – Eu tenho para mim que foi com uns 61 anos, é. Mas a morte dela foi uma morte assim, colapso fulminante que me abalou. Eu me casei. Ela disse assim: “Ah, você não vai casar não?” porque eu gostava muito de carnaval, era... Casei-me com 35 anos, me casei. Mas graças a Deus...

 

P/1 – Deu tudo certo?

 

R – Deu tudo certo.

 

P/1 – Eu queria que o senhor me contasse como é que era Jaboatão nessa época que o senhor tinha os seus quinze anos?

 

R – É, Jaboatão era atrasada, né?

 

P/1 – Era?

 

R – Era, tudo era no barro. As estradas eram de barro, depois que foi melhorando, os prefeitos foram mais... Mas antes tinha as ruas principais, tudo, a calçada, mas demais, tudo era no barro.

 

P/1 – E morava muito ferroviário lá?

 

R – Morava, mas muito ferroviário mesmo em Jaboatão.

 

P/1 – Por causa da oficina, né?

 

R – Por causa da oficina.

 

P/1 – E o senhor tava falando que a sua mãe lavava roupa no rio, é isso?

 

R – No rio. Naquela época não existia a Companhia de Água e Saneamento de Pernambuco (Copesa). Água de cacimba para beber, para lavar, para tomar banho, aí tinha um rio.

 

P/1 – Então ela levava aquelas trouxas até o rio?

 

R – Eu levava, ajudava e trazia.

 

P/1 – O rio era longe da casa de vocês?

 

R – Perto.

 

P/1 – Que bom, aí não andava muito.

 

R – Não, não, não.

 

P/1 – Aí o senhor foi indo e foi aprender a ser serralheiro. Quem é que lhe ajudou muito nessa época? Tem alguém que o senhor encara como um professor, um mestre que acompanhou mais o senhor?

 

R - Eu tenho vários, porque é ajuda, não é? Eu queria uma coisa mas me disseram: “Rapaz, isso não dá, não vai por aí”. “Mas eu quero ir para a base aérea”. “Não rapaz, não dá para você”. “Por quê?” “Porque a Rede só espera um ano e na base são dois. Se você fizer carreira, tudo bem, se não fizer, vai perder oportunidade da Rede. É bom você ir para o exército”.

 

P/1 – Isso quando o senhor fez dezoito anos?

 

R – É. Não, quando já estava próximo a terminar a escola.

 

P/1 – Porque na escola eram quatro anos?

 

R – Três.

 

P/1 – Três anos. O senhor entrou com...

 

R – Eu entrei em 1951, com quatorze anos. Com dezessete já tinha que ir para o Exército para me inscrever. Eu queria ir para a base e teve um professor que disse: “Não, não vá para a base, porque vai acontecer isso e isso. Vai para o exército, porque o exército são dez meses e a Rede lhe espera e ela não vai esperar dois anos”. Aí eu fui para o exército.

 

P/1 – Por que naquela época quem saia da escola praticamente já entrava na Rede?

 

R – Já entrava na Rede.

 

P/1 –O senhor lembra o nome desse professor?

 

R – Eu me lembro de grande recordação. Professor Jeferson de Freitas.

 

P/1 – Ah, professor Jeferson.

 

R – É. Professor Honório, vários, vários. Professor Alcides, Bráulio, são muitos. Naquela época, a gente não tinha aquela mente, aquela visão. Aí pensava que eles eram carrascos, mas depois que o tempo vai passando é que a gente vai vendo o quanto eles foram...

 

P/1 – O senhor estava contando, quer dizer, tinha a parte física e tal. Tinha algum momento que cantava o hino nacional, por exemplo? Ou só nas festas comemorativas? Isso na escola.

 

R – Olhe, naquela época se cantava o hino nacional: “Ouviram do Ipiranga...”

 

P/1 – Quando tinha alguma data, por exemplo, sete de setembro, a escola se apresentava? Ou não, só fazia alguma...

 

R – Não desfilava. Até houve uma época que o professor Jeferson... Que ele gostava, ele gostava de tudo, ele estava no meio de tudo, futebol, voleibol, basquete, tudo era ele. Ele gostava mesmo. Ele pegava a gente e levava para o campo, ele era juiz. Ele gostava, animava. Tudo o que se fazia dentro de Jaboatão chamavam ele. Jogar bola e tudo, às vezes ele jogava e às vezes não jogava. Mas era muito respeitado, era muito, fazia muita coisa boa lá em Jaboatão.

 

P/1 – Gostava de animar nas comemorações?

 

R – Por isso que na própria escola profissional ele inventou um clube, o Grêmio Paulo Belense e, quando chegava o carnaval, a gente fazia carnaval.

 

P/1 – Na escola, com essa turminha do Grêmio?

 

R – Do Grêmio, era. No carnaval ele colocou o Grêmio Paulo Belense na Rua de São João e a escola profissional era bem procurada. O pessoal da elite deixava o Clube Jaboatonense e ia para a escola profissional, dançar, brincar e era muito bom, respeitado mesmo.

 

P/1 – Fazia baile dentro da escola?

 

R – Dentro do salão, tinha um salão.

 

P/1 – O que, no final de semana? Ou só no carnaval?

 

R – Mais no carnaval, São João e na formatura. Quando se formava fazia festa lá.

 

P/1 – Ah, e tinha baile na formatura?

 

R – Tinha.

 

P/1 – Olha, me conta desse baile.

 

R – Era muito bom.

 

P/1 – Era bonito?

 

R – Era bonito, era.

 

P/1 – Como é que os homens se vestiam?

 

R – Ah, naquela época era tudo paletó e gravata.

 

P/1 – Usava chapéu ainda?

 

R – Naquela época já não usava, era somente paletó e gravata.

 

P/1 – E as moças? Aqueles vestidos bonitos?

 

R – Bonitos.

 

P/1 – E a sociedade toda ia para lá.

 

R – Ia, tudo convidado. E a orquestra era ao vivo?

 

R – Ao vivo, era. Agora, no carnaval não era orquestra ao vivo, era disco. E o pessoal do clube deixava a orquestra e ia para lá (risos).

 

P/1 – E o senhor disse que gostava bastante de carnaval, é isso?

 

R – Isso aí quase que nem se fala. Carnaval, chegava na sexta-feira da semana pré, eu acabava com meu namoro (risos) para brincar o carnaval sozinho. Agora, a única moça que eu não acabei o namoro é essa que eu sou casado.

 

P/1 – Viu só?

 

R – Tem uma coisa, chegava no dia de domingo eu não ia falar com ela, no dia seguinte ela estava na porta da minha mãe: “Livaldo não foi...” Sabe como é que a minha mãe fazia? “Minha filha, assim que ele chegar aqui, hoje, ele vai para sua casa”. “É, dona Marina?” “Vai. Ele não vai deixar de ir hoje na sua casa”.

 

P/1 – Então, a dona Marina gostava dela, né?

 

R – Porque dona Marina era...

 

P/1 – Danada, né?

 

R – Era. Eu não acabei o namoro, fiquei casado com ela.

 

P/1 – Então o senhor gostava de brincar carnaval mas a essa altura já tinha decidido servir o Exército, era melhor, não é?

 

R – Servi o exército dez meses.

 

P/1 – Em Recife?

 

R – Jaboatão no 14º Regimento de Infantaria. Eu tinha que servir o exército. Porque era um compromisso mesmo, daí eu não segui em carreira, não. Mesmo sendo para o bem, me colocaram no curso de cabo, eu não dei a mínima. Muitos deles, antes de sair do exército, muitos com quem eu fiz o curso, já foram terceiro sargento, hoje já são o segundo sargento, mas eu nunca gostei da farda não, porque eu gostava mais da liberdade, porque, naquela época, o exército era rígido, hoje não. Antigamente, era continência, mas hoje não tem nada disso.

 

P/1 – O senhor tinha começado a trabalhar na Rede antes do exército ou só depois?

 

R – Quando eu terminei o curso me formei na escola profissional, no dia primeiro de fevereiro de 1954 eu ingressei na Rede, numa segunda-feira. Trabalhei uma semana, ainda trabalhei no sábado até onze e meia da manhã. Na segunda-feira seguinte, eu já fui para o exército, entendeu?

 

P/1 – Ah, então por isso é que não esperava porque o senhor já estava empregado.

 

R – Já estava empregado. Aí fui para o exército, não recebi dinheiro pelo exército.

 

P/1 – Ficou pela Rede?

 

R – Fiquei pela Rede.

 

P/1 – Quer dizer que pelo menos isso não faltou, né?

 

R – Não, não.

 

P/1 – Por que se não ia ser ruim, né?

 

R – É, ruim.

 

P/1 – O senhor entrou como serralheiro?

 

R – Não, porque aí quando chegou na hora “H”, o professor Jeferson de Freitas chamou a mim e mais três, foram quatro. Dois eu me lembro: Ivaldo Barbosa, José Marques de Lemos. Aí disse assim: “Olha, Livaldo, para serralheiro não tem vaga, nem para a função de José Marques de Lemos. Vocês querem ser eletricistas, com os outros dois?” Eles disseram: “Não quero”. O professor Jeferson virou para mim e para Ivaldo Barbosa: “Vocês?” “Aceito. Vou trabalhar na parte elétrica”. Aí nós fomos e os outros dois foram para outra função.

 

P/1 – O senhor estava me contando que dava, porque o senhor sabia um pouquinho.

 

R – É, porque tem a parte teórica, vinha o professor que era um engenheiro e dava aula para nós da parte elétrica.

 

P/1 – Que era engenheiro da Rede também?

 

R – Engenheiro da Rede também, porque todos os professores eram da Rede. Todos.

 

P/1 – O senhor ingressou como eletricista?

 

R – Como eletricista.

 

P/1 – Serviu o exército e, quando terminou, voltou para a Rede?

 

R – Voltei para a Rede.

 

P/1 – Sempre na oficina de Jaboatão?

 

R – Sempre não, teve um período que me transferiram para Cinco Pontas. De Cinco Pontas, me mandaram para Jaboatão; depois, me transferiram para Recife. Nessa época, eu adoeci, problema renal. Começaram a colocar na minha cabeça para eu estudar, porque eu era errado. Com todo medo da minha mãe, mas os conselhos eram grandes: “Estuda, estuda”. Porque eu tinha estudado em escola profissional mas não tinha feito o ginásio. Foi somente ali. “Rapaz, vão inaugurar o Colégio Ferroviário do Recife e se inscreve”. “Você vai fazer o ginásio? Deixa essa vida rapaz. Deixa essa vida de estar tomando essas biritas...”

 

P/1 – O senhor gostava do que? Uma cervejinha, uma caninha?

 

R – Cana (risos), copo cheio. Meu Jesus, só uma coisa...

 

P/1 – Mas os colegas também bebiam?

 

R – Bebiam.

 

P/1 – Então lá na oficina muita gente bebia, não era senhor Livaldo?

 

R – Chegava dia de sábado, todo mundo largava, como ainda é hoje, o pessoal que sai do trabalho e toma uma cervejinha e fica ali até. Mas é...

 

P/1 – Vocês trabalhavam sábado até onze e meia?

 

R – Até onze e meia, quem fosse escalado para trabalhar, para fazer hora extra, ficava, voltava para o trabalho e aí trabalhava até cinco horas da tarde, seis e meia.

 

P/1 – E abriu um colégio chamado Colégio...

 

R – Ferroviário do Recife em Ipiranga.

 

P/1 – Era mantido também pela Rede?

 

R – Pela Rede Ferroviária e os professores todos era da Rede. Eu fui, quando eu cheguei lá, fui para estudar o admissão. Tinham pessoas que: “Não, rapaz, não é assim”. E me orientavam. Então eu fui falar com o professor Marcial, que eu vinha estudar o admissão e disse: “Mas rapaz, estudar admissão no meio de meninos?” “Mas agora eu quero estudar mesmo”. “É mesmo?” “É”. “Então, vamos fazer o seguinte: tu estudaste onde?” “Eu estudei na escola profissional”. “Então, a escola profissional, rapaz, é uma coisa, já é um estudo já para frente. Vamos fazer o seguinte...” Ele me deu um livro de admissão, ele, o professor Marcial que era o diretor do Colégio Ferroviário do Recife, era justamente o que ia ser a primeira turma.

 

P/1 – Que ano mais ou menos isso, o senhor se lembra? Que idade o senhor tinha?

 

R – Eu tinha 26 anos, né? Na época, o Presidente da República era João Goulart.

 

P/1 – Então foi em 1961.

 

R – É, esse período, ele disse: “Rapaz, as provas são eliminatórias. Matemática, português... Matemática é somente pegar o livro de admissão e estudar. Português também você estudou na escola profissional”. Ele foi me orientando, sabe como é? Deu a mim o livro de admissão, aí eu caprichei.

 

P/1 – Foi estudar sozinho?

 

R – Eu tinha medo de matemática, eu tinha o maior medo. Quem não tem? No tal dia era a prova e foi. Encarei, falei com ele: “Tudo bem?” “Tudo bem. Estudou mesmo?” “Estudei”. Aí eu fiz a minha prova, correu tudo direitinho. Ele disse: “Amanhã você vai saber: se passou, passou. Se não passou...” Quando cheguei lá no dia seguinte, já não foi ele que deu o resultado, foi a secretária: “O senhor passou”. Graças a Deus, agora estudar para português, geografia, tudo. Graças a Deus, passei em tudo. Daí trabalhar, estudar; trabalhar, estudar. Solteiro, né? Trabalhava durante o dia, à noite ia para o Colégio Ferroviário.

 

P/1 – E como é que o senhor vinha de Jaboatão pra Recife, de trem?

 

R – De trem, é. O último trem era dez e quinze, passava dez e meia em Ipiranga. Aí chegava em Jaboatão às onze horas.

 

P/1 – Dava tempo de pegar?

 

R – Dava tempo. Aí ficava estudando até uma hora, uma e meia da manhã. Incentivado pelos outros.

 

P/1 – Nessa época, na sua casa era o senhor, sua mãe, senhor Sabino e ainda os irmãos estavam?

 

R – Minhas irmãs, tinha umas que já tinha casado.

 

P/1 – Foi levando a vida de solteiro?

 

R – Às vezes, eu colocava os pés dentro da bacia com água para não dormir, quando chegava a prova de meio de junho, pegar umas notas boas, não é?

 

P/1 – E punha o pé na bacia por quê?

 

R – Para não dormir, para o sono não chegar, já pensou?

 

P/1 – Eu queria que o senhor contasse para mim: a oficina de Jaboatão era grande?

 

R – Muito grande. Dois mil e tantos funcionários.

 

P/1 – E a de Cinco Pontas, era menorzinha?

 

R – Era restrita, era negócio de cinquenta, porque era uma repartição de atendimento às demais repartições dentro do Recife. No Alfredo Lisboa tinha um elevador que dava um trabalho. De vez em quando a gente tinha que ir a pé, distante.

 

P/1 – É uma estação Alfredo?

 

R – Não, não. Alfredo Lisboa é um prédio, justamente é onde era o prédio onde trabalhavam os funcionários, os burocratas. Esse elevador para subir e descer dava problema...

 

P/1 – Ah, vocês cuidavam lá em Cinco Pontas dos prédios também...

 

R – Era, era. Não tinha nada de carros, eram somente os prédios.

 

P/1 – E o senhor ainda, na parte elétrica?

 

R – Na parte elétrica.

 

P/1 – O senhor foi fazer mais algum outro curso que a Rede pediu para o senhor fazer?

 

R – Foi quando eu fui operado, fiz uma operação renal, quase que perco o meu rim e fiquei licenciado. O médico que me operou, doutor major da aeronáutica, José Mendes de Souza, e a junta médica diziam assim: “Olha, vai fazer dois anos que você está de licença, fala lá com o médico que te operou, que dê uma licença para você trabalhar em serviço de natureza leve, que você não pode mais trabalhar em serviço pesado”. Nessas alturas, eu já estava em Jaboatão, já tinha voltado de Cinco Pontas.

 

P/1 – O senhor ficou em Cinco Pontas quanto tempo mais ou menos?

 

R – Uns oito meses.

 

P/1 – Ah, pouquinho, né?

 

R – É. Porque eles já viram que não dava para mim, entendeu? “Voltamos a colocar você em Jaboatão”. “Muito obrigado”. Eu agradeci muito. Cheguei em Jaboatão já doente, eu pedi muito, implorei muito, porque eu tinha um medo de escrita, eu tinha medo de trabalhar em escritório. Isso eu tinha medo, receio. A junta médica em cima de mim por que: “Dois anos, então vai ter que aposentar, inválido, tu é jovem”. Solteiro ainda nessa época e esse médico me deu serviço de natureza leve por tantos meses: “Mas doutor, é definitivo?” “Não, você está moço, rapaz”. O doutor José de Souza Mendes, o que me operou. Aí eu fui para a junta médica e a junta médica me disse: “Olha, tu vais trabalhar em serviço de natureza leve”. Deram-me uma carta e fui embora para a parte elétrica, em Jaboatão. Quando eu cheguei lá, porque as pessoas já tinham dito para mim que tinha muita gente trabalhando como contínuo. E sempre diziam que contínuo vai ser para tirar dali e colocar em outro canto. Mas eu não me intimidei, porque todos eram contínuos porque eram doentes. Não ligava, não. Quando a junta médica me deu, fui para sessão elétrica. Quando eu cheguei lá, aquela alegria: “Opa, vai trabalhar aqui com a gente de novo, de tarde, que bom!” Fui encontrando um... “Rapaz, não posso mais ficar trabalhando nesse negócio não por causa de doença...” “É mesmo?” Eu apresentei a carta ao encarregado, o encarregado olhou para mim: “Rapaz, eu não tenho serviço aqui de natureza leve, não.” Nessas alturas, eu já tinha terminado o ginásio: “Eu vou me casar”. 35 anos. Casei-me e foi quando eu fiz o terceiro ano de Contabilidade, não conclui.

 

P/1 – Quer dizer que o senhor terminou a escola?

 

R – Terminei. No Ferroviário fiz o ginásio e o terceiro, cheguei até o terceiro ano...

 

P/1 – Entrou no curso de Contabilidade?

 

R – No curso de Contabilidade.

 

P/1 – Sempre estudando à noite?

 

R – Estudando à noite e trabalhando. O encarregado disse: “Não tem serviço aqui de natureza leve para você não, fique por aí”. Nessas alturas, chegou o engenheiro responsável pela oficina, aí eles conversaram. O encarregado me chamou: “Doutor, esse rapaz aqui...” Mostrou a carta. “Está com uma carta aqui da junta médica, dizendo que quer serviço de natureza leve e por aqui, o senhor sabe que parte elétrica não tem, tudo é serviço pesado”. O engenheiro olhou para mim e disse: “Manda ele lá para cima trabalhar de contínuo”. “Que bom! Trabalhar de contínuo, muito bem!” E ele saiu. Aí o encarregado disse “Doutor...” O encarregado com o engenheiro disse: “Então, Livaldo, tu não estudaste?” “Eu estudei”. O engenheiro perguntou: “Estudou o quê?” “Eu estudei Contabilidade”. “Não vai ser contínuo”. “Por que doutor?” “Não vai ser contínuo, vai até Osvaldo Medina e se apresenta a ele que quando eu subir eu telefono para ele, eu já sei o que vai acontecer com você”. “Muito obrigado”. Fui me despedir de um e de outro, aquela alegria: “Que bom rapaz, então você vai trabalhar na sessão de custos”. Apresentei-me para o Osvaldo Medina, com um minuto o telefone tocou: “Osvaldo Medina, esse rapaz aí tem o terceiro ano de Contabilidade, não concluiu mas aproveita ele aí”. “Tudo bem”. Aí me mandaram lá para o último bureau (risos)...

 

P/1 – Lá mesmo no prédio da oficina...

 

R – Lá mesmo dentro da oficina. O último bureau. Arrumaram uma mesa lá e começaram a me dar serviço e eu com o maior medo, eu tinha o maior medo de escrita. Daí comecei...

 

P/1 – Que tipo de serviço que era? Era de custo?

 

R – Era de custo, sessão de custo.

 

P/1 – O que é que o senhor fazia? Custo do quê?

 

R – Olha, digamos, essa cadeira vai para conserto e tem uma apropriação. Se essa cadeira é um conserto, se vai mudar peça, se vai para o reparo. E tem esse copo. Então, a conta daquela cadeira tem que ser dela, não tem que ter desse copo, porque a despesa desse copo é uma coisa e a da cadeira é outra.

 

P/1 – Nossa, isso era só da oficina?

 

R – É, de tudo. Carro, de tudo.

 

P/1 – Então era um monte de coisa.

 

R – Lá todo mundo fazia, né? Mas colocavam para mim.

 

P/1 – O senhor que fazia o final.

 

R – Eu queria e eu gostava. Olha, eu fiquei gostando da burocracia, da escrita.

 

P/1 – Olha, para quem tinha medo...

 

R – Mas eu tinha um medo, meu Deus do céu. E eu gostava e eu fazia tudo para terminar logo: “Não rapaz, não é assim, não”. “Eu quero aprender”. Aí fui, fui, fui... Começaram a fazer perguntas: “Olhe, está faltando meia hora aqui. O que é que você vai fazer dessa meia hora?” Eu digo: “Rapaz, eu vou procurar se está em outra conta, se está na 45 mil e quinhentos, na 45 mil e 501, onde é que está essa meia hora”. “Mas por quê? Pra quê?” “Para essa conta, o conserto dessa cadeira sair a hora exata que foi gasta nela. Se não tiver nessa, vem para o copo...”

 

P/1 – Porque é uma conta de hora de reparo, é isso?

 

R – É.

 

P/1 – Então essas horas eram usadas pelos funcionários da oficina...

 

R – Funcionários da oficina.

 

P/1 – Interessante. Difícil isso.

 

R – Foi difícil mesmo e eu fui em cima, aprendendo, fazendo e aprendendo. Eu sei que, nessas alturas, foi se aposentando um, se aposentando outro e lá vai, lá vai, lá vai... Foram me levando e eu não queria chegar lá.

 

P/1 – Do último bureau até a frente.

 

R – Não queria. Eu, com o maior receio e eu terminei chegando lá. Aí mudou de escritório, ia mudar de escritório para o primeiro andar onde eu tinha o maior medo (risos). O Osvaldo Medina tinha se aposentando, e lá vai aquela coisa toda, quando o João Virgínio disse assim: “Olha, do jeito que está aqui, a formação que está sendo aqui, eu quero que faça lá no primeiro andar, no outro escritório”. Quando eu fiz lá um negocinho, eu já fiquei, ele primeiro, o segundo, eu já fui o terceiro. Digo: “Meu Deus, onde é que eu estou?” Comecei trabalhando, a me interessar, a aprender e fui tirando férias de um e de outro, só sei que o João Virgílio se aposentou. Aí o segundo...

 

P/1 – Foi para lá e o senhor?

 

R – Ele veio falar comigo: “Esse rapaz lá atrás, tem Fulano, Fulano e Fulano...” Dizendo para o segundo. Aí, o segundo disse para mim: “Não, eu já falei com todos eles”. “O que rapaz?” “Eu já falei com todos eles e todos eles apontaram você”. Aí eu cheguei lá, fui encarregado da sessão de custo, graças a Deus, mas também era muito solicitado porque tinha esse negócio das continhas. Eu parava o meu e vinha...

 

P/1 – Ajudar os outros. Então, senhor Livaldo, quer dizer, o último era a função mais baixa, digamos assim?

 

R – É.

 

P/1 – O fato de ir andando para frente era que ia ser promovido.

 

R – Foi.

 

P/1 – Tinha muita gente na sessão de custo?

 

R – Tinha, mas por quê? Porque foram se aposentando.

 

P/1 – Sei. Mas tinha bastante gente?

 

R – Tinha.

 

P/1 – Tinha o que, umas vinte pessoas?

 

R – Tinha muito mais.

 

P/1 – Cada coisinha tinha então o seu centro de custo.

 

R – É.

 

P/1 – E se pegasse uma máquina...

 

R – Uma máquina de escrever, um carro vagão, o vagão, a locomotiva, porque os funcionários faziam, tinha os escriturários, os escreventes da oficina, então apanhavam os dados de todos aqueles funcionários da oficina e enviava toda semana para sessão de custo e lá fazia o custeio de tudo. Quando terminasse de fechar todinho, aí enviava para a regional.

 

P/1 – Só o que gastava ou também o que comprava?

 

R – O que comprava, tudo.

 

P/1 – Também fazia parte daquilo?

 

R – Tudo.

 

P/1 – Então digamos, para consertar a cadeira, a gente precisava comprar um parafuso, aquilo entrava também no custo?

 

R – No custo.

 

P/1 – Que dizer, era a hora do funcionário mais...

 

R – Mais o dinheiro.

 

P/1 – E ferramentas que precisavam?

 

R – Tudo, tudo passava por ali.

 

P/1 – Então, o senhor foi indo até chegar a encarregado?

 

R – Foi. Chegar lá foi o maior trabalho, eu não queria de jeito nenhum.

 

P/1 – Pois é, mas não teve jeito.

 

R – Mas não teve jeito, não. Todos eles diziam: “Eu só quero você mesmo”.

 

P/1 – O senhor foi para essa sessão de custo no ano em que o senhor se casou, porque o senhor disse que se casou com 35 anos.

 

R – Foi, foi.

 

P/1 – Foi em 1970.

 

R – Foi. Não, 1968 foi quando eu me casei. Em 1970 nasceu meu primeiro filho.

 

P/1 – Quer dizer que então, até 1968, o senhor tinha ficado dois anos parado. Então, o senhor parou em 1966, mais ou menos? Quando o senhor saiu de licença?

 

R – Ah, isso aí foi muito antes.

 

P/1 – Muito antes?

 

R – Muito antes. Porque eu passei muito tempo licenciado. Problema renal.

 

P/1 – E por que a oficina de Jaboatão era chamada de moscouzinha?

 

R – Olha, porque é o seguinte: eu entendi assim, digamos, a senhora reivindica um aumento pra mim. Aí eu não chego com esse aumento para a senhora: É de se revoltar. “O rapaz me prometeu”, mas sendo que eu não pude fazer nada. Aí vem a revolta que é uma melhora e acontece o quê? A revolta. Esse negócio de moscouzinho eu não entendo, não. A revolta do trabalhador: prometeu, não cumpriu, ele se revolta.

 

P/1 – Aí fazia o quê? Entra em greve?

 

R – É.

 

P/1 – Parava, né?

 

R – Parava. Paralisava, era um desastre.

 

P/1 – O pessoal da Rede ficava bravo?

 

R – É, porque justamente queriam um aumento. Aí não saia, vamos para a força e foi assim.

 

P/1 – Parou muitas vezes?

 

R – Parou.

 

P/1 – E era uma força?

 

R – Era uma força.

 

P/1 – O senhor era de sindicato, alguma coisa lá?

 

R – Nunca fui de sindicato, nunca gostei de política, eu nunca gostei.

 

P/1 – Mas o senhor era solidário?

 

R – Era solidário, eu vivia no meio de todos eles ali.

 

P/1 – Se parava, o senhor parava também?

 

R – Eu tenho que parar, eu tinha que ficar na minha casa, eu não ia para a rua. Quer dizer, eu não ia agitar. “Está parado?” “Está”. “Então, lá eu não vou”. Eu ficava na minha casa, eu não ia nem pra rua.

 

P/1 – Teve alguma vez que parou muito tempo?

 

R – Olha, teve uma parada que parou até o trem. Vinha a locomotiva e foi todo mundo para a frente e parou tudo. A questão era aumento.

 

P/1 – E era uma força, né?

 

R – Era uma força.

 

P/1 – Era um jeito de conseguir.

 

R – Conseguir.

 

P/1 – No final conseguia?

 

R – Às vezes, conseguia, às vezes, não. Aí é esperar.

 

P/1 – Então, em 1968, que o senhor se casou?

 

R – É.

 

P/1 – E aí foi também quando o senhor entrou lá na sessão de custo...

 

R – Foi antes.

 

P/1 – Antes. Na sessão de custo, o senhor entrou antes de casar?

 

R – Foi, antes de casar. Quando eu me casei, o pessoal da sessão de custo foi todo no meu casamento.

 

P/1 – E foi bom o casamento?

 

R – Foi ótimo!

 

P/1 – Foi bonito?

 

R – Foi.

 

P/1 – Então vamos falar dessa sua namorada que lhe conquistou. Como ela se chama?

 

R – Ana Maria Neto da Cruz.

 

P/1 – E o senhor está casado com a Ana Maria?

 

R – Estou.

 

P/1 – Até hoje?

 

R – Quarenta anos.

 

P/1 – Quarenta anos, que beleza. E como o senhor conheceu a Ana Maria, onde?

 

R – (risos) Essa Ana Maria, justamente, no trem.

 

P/1 – No trem?

 

R – É. Eu vinha para o trabalho no trem e tinham os dias que ela pegava esse trem, porque o pai dela tinha um estabelecimento comercial na Encruzilhada e ela tinha os dias de ir para a Encruzilhada, lá no pai dela. Nisso foi que veio o nosso namoro.

 

P/1 – Vocês se olhavam, conversavam?

 

R – É.

 

P/1 – E ela era bonita?

 

R – (risos) Cabelo grande...

 

P/1 – Aí começaram a namorar?

 

R – Começamos a namorar e passamos quase onze anos, ou oito anos, entre namoro e noivado, porque (risos)...

 

P/1 – E a dona Marina enchendo, porque o senhor tinha que casar?

 

R – A minha mãe: “Meu filho, por que é que você não se casa? Já nessa idade...” Nessa história que dá vontade de chorar. Quando ela perguntou à mim: “Meu filho, por que é que você não se casa?” Repare bem, eu disse: “Minha mãe, eu não me caso porque a senhora não é casada com senhor Sabino”. Ela olhou assim para mim: “Como é meu filho?” “Eu não me caso porque a senhora não é casada com o senhor Sabino”. Porque, naquela época, se ele a deixasse, ela não tinha direito a nada, não era? Hoje está um negócio muito diferente. Separa-se, divide, não é? Foi um choro e ela disse assim para mim: “Eu vou providenciar o meu casamento”. Naquela época, ela tinha lavado roupa, meu pai não queria assinar registro de casamento nem nada disso da gente, mas minha mãe tinha lavado roupa para esse povo, muitas amizades. Minha mãe tinha muita amizade boa, pobre, mas ela conservava as amizades. Aí ela disse: “Vou casar com o senhor Sabino”.

 

P/1 – E se casou?

 

R – Oxente, foi um casamento... Quando ela casou, ela veio a mim de novo: “E agora?” “Agora, eu vou me casar”.

 

P/1 – E o senhor também se casou?

 

R – Casei-me. Aí fui me aprontar. A casa já estava... Aí pronto, me casei. Fiquei tranquilo porque ela ficou amparada, aí me casei.

 

P/1 – E o casamento do senhor foi bonito?

 

R – Foi.

 

P/1 – Onde foi? Lá mesmo em Jaboatão?

 

R – Não, o meu casamento foi em Tejipió, por causa da minha esposa. Não tem esse negócio, quem mora num lugar tem que casar ali (risos). Não sei se ainda hoje...

 

P/1 – Na paróquia?

 

R – É, não sei se hoje é assim ainda, mas foi isso.

 

P/1 – E teve festa?

 

R – Teve.

 

P/1 – Seus colegas foram?

 

R – Então, foi um festão, foi muito bom.

 

P/1 – Ganhou bastante presente?

 

R – Ganhei, muito.

 

P/1 – E o senhor foi viajar de lua de mel, não?

 

R – Não, porque não dava. Não dava não, para casar e viajar. Hoje não, quem tem possibilidade vai para os Estados Unidos, vai para a Argentina, fazer a lua de mel lá. Não, eu fiquei em Jaboatão mesmo.

 

P/1 – Mas a casinha estava montada?

 

R – Tava, tudo direitinho.

 

P/1 – Continuou até chegar a encarregado do centro de custo?

 

R – Foi, no centro de custo.

 

P/1 – E o senhor foi assim nessa função até se aposentar?

 

R – Não, porque daí veio a disponibilidade da opção, não é? Nessas alturas eu, como chefe de escritório, vinha aquele pessoal pedir aquela orientação, se faz a opção ou não, eu dizia assim: “Olha, eu não vou orientar vocês em nada. É ter fé em Deus porque eu mesmo já decidi e se Deus quiser eu não vou fazer a minha opção, porque o meu pensamento é ficar com o governo.”

 

P/1 – Por que a opção era o que, senhor Livaldo?

 

R – Tinha uma renúncia, né?

 

P/1 – Renunciava a ser funcionário federal...

 

R – Federal para ser regido pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), pelo Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Veio aquele negócio de eu entrar na Rede para ser funcionário público federal. Então, eu não vi por onde fazer a minha opção e, outra coisa, eu também fiquei naquele pensamento, aposentadoria dupla. “Na aposentadoria dupla, eu não faço minha opção e se Deus quiser, eu vou arrumar um emprego fora”. Aí com o tempo de fora eu junto com o da Rede e me aposento, aí fico com as duas aposentadorias. E graças a Deus deu tudo certo.

 

P/1 – Então, o senhor ficou um período em disponibilidade?

 

R – Fiquei, isso desde 1976, aí eu recorri a outra firma, e me pegaram, eu com aquele currículo, naquele tempo não existia currículo...

 

P/1 – Experiência, né?

 

R – Deus me deu essa intuição e eu peguei as minhas papeladas que eu recebia e guardava. Quando cheguei na hora, fui falar com o gerente do campo da Usina Bulhões, na pessoa do senhor Brandão. Aí quando eu mostrei à ele, ele disse “Oxente, tu não vai sair daqui mais não, tu vai ficar aqui”, aí fiquei.

 

P/1 – E era uma usina, é isso?

 

R – Usina de açúcar.

 

P/1 – E o senhor foi fazer a mesma coisa? Também de custo ou outra coisa?

 

R – Foi muito diferente, porque na Rede eu tinha tudo, eu tinha funcionário, eu dizia: “Bate isso aqui, faz isso aqui”. Quando eu cheguei lá que eu procurei, não vi ninguém (risos).

 

P/1 – Tinha que fazer tudo sozinho?

 

R – Sozinho.

 

P/1 – Começou de novo?

 

R – De novo e foi uma bênção.

 

P/1 – O senhor ficou na usina quanto tempo?

 

R – Olha... Vinte anos. Trabalhei três anos avulso, sem carteira assinada. Contei a minha situação à ele, que eu podia ser redistribuído a qualquer instante, ele disse: “Não tem nada não, eu te seguro aqui. Se tu for disponível, se for redistribuído, tchau, até logo, foi um prazer te conhecer. Mas se não, a gente fica por aqui”. Aí ele me prometeu logo um aumento, foi interessante. Isso no dia treze de maio de 1976. Ele disse: “Eu vendo o teu serviço, eu te dou um aumento”. Eu fiquei calado, ele me colocou para trabalhar no meio de muitos administradores já de idade, uma mesa grande, e o jovem ali no meio deles. Eu levei tudo na brincadeira, brincando com um, com outro e sendo olhado, sem saber. E trabalhando, sábado, domingo, sabe como é? Trabalhar até oito horas da noite, porque eu tinha que dar conta, não tinha ninguém para me ajudar. Com quinze dias que eu estava trabalhando: “Olha, quarta-feira, eu tenho que apresentar o relatório de tudo, do campo, aqui na reunião com o dono da usina”. Aí foi que eu me desdobrei. Eram umas três e meia da tarde, ainda não estava pronto. Então, lá pras cinco horas, tudo certo. Como eu tive uma conversa com ele e eu disse: “Olha, o senhor me dá o serviço agora, o primeiro sai errado”. Ele ficou olhando assim pra mim: “O segundo, mais ou menos. Do terceiro em diante fez tudo certo”. Quando chegou na quarta-feira, às cinco horas da tarde, ele subiu, aí eu entreguei um mapa, era um mapa grande que a máquina era um carro grande, escutou?

 

P/1 – O senhor estava contando da usina, cinco horas o senhor entregou o relatório grandão...

 

R – Entreguei, ele desceu, o senhor Brandão desceu com aquele mapa na maior euforia, né?

 

P/1 – E tinha todos os custos do campo?

 

R – Do campo, tudo, tudo. Aí ele disse “Rapaz, que coisa rapaz, todo mundo lá embaixo, os donos todos gostaram”. Continuamos no trabalho e ele me dando mais serviço, me dando mais serviço e eu calado, fazendo... Tudo ele: “Isso aqui é pá, isso aqui é pá, lá vai. Tu agora vai tirar férias”. “Eu tirar férias de pessoal aqui? Meu Jesus!” Aí fui tirar férias de uma menina, depois ia tirar férias de seu fulano: “Pelo amor de Deus!”.

 

P/1 – E tudo coisa diferente.

 

R – Diferente.

 

P/1 – É, porque tirar férias acaba...

 

R – Coisa de engenho que eu nunca trabalhei em usina, mas Deus sempre me abençoou. Quando chegou o mês junho, ele me chamou, o senhor Brandão, e disse “Rapaz, o teu serviço é uma maravilha. Agora eu estou sabendo de tudo de tu”. “Está sabendo tudo de mim, senhor?” “Tu é um funcionário, rapaz, calado, não sei como é que a Rede te soltou, mas uma opção não é? Botar-te em disponibilidade. Eu te prometi um aumento e tu não me cobrou, nem disseste para ninguém porque aqui quando a gente promete um aumento...” Repare bem, o caso passado da revolta, né?

 

P/1 – Do pessoal da Rede, né?

 

R – “Eu te prometi um aumento. Nem tu disseste para ninguém e nem me procuraste, ficaste somente no aguardo”. Eu digo “Sim, porque o senhor me prometeu e quem promete, às vezes, cumpre”. E ele disse: “Eu vou cumprir”.

 

P/1 – E cumpriu?

 

R – Cumpriu, ele disse assim: “Eu vou te dar um serviço”. “Qual?” “Tu vais ser balanceiro”. “Senhor Brandão, para que balanceiro?”, “Rapaz, isso é um cargo de confiança e tu merece mais do que um cargo desses, porque balanceiro é um trabalho mesmo que requer muita coisa do funcionário e tu és um desses”. Eu disse: “Seu Brandão, não dá não”. “Por que rapaz?” “Não dá. O senhor disse que soube da minha vida todinha, mas tem uma que o senhor não soube...”

 

P/1 – Que o senhor não podia assinar, não é?

 

R – Por quê? “Porque senhor Brandão, balanceiro tem que pegar das seis horas da manhã às seis da tarde e, na outra semana, tem que pegar das seis da tarde às seis da manhã, trabalhar a noite toda. E eu tenho um filho especial, senhor Brandão, esse filho me dá muito trabalho”. “Mas rapaz, tu tens um filho especial?” “Tenho e se eu for trabalhar como balanceiro eu não vou dar conta do recado, porque quando eu chego em casa eu tenho que dormir. Trabalhando à noite e ele não vai me deixar dormir”. “Tu estás com medo?” “Senhor Brandão, de serviço eu não tenho medo, não, o senhor pode me pregar um serviço, me dar agora que eu nunca fiz.” Nas fazendas dele tinha um alto assim e me mandar lá pra aquele alto, lá em cima, e botava a mesinha ali e me entregava o serviço. Ele disse: “Já sei, o primeiro sai errado, o segundo mais ou menos e o terceiro de dentro sai.”

 

P/1 – Mas senhor Livaldo, o senhor ficou lá uns vinte anos e eu queria voltar para história da Rede. Nunca veio a sua remoção para outro lugar?

 

R – Não, não. Chegou minha aposentadoria pelo Ministério, em 1981. “Quer saber de uma coisa? Eu já estou aqui na usina, eu vou me aposentar”. Agora sendo que a minha aposentadoria pelo Ministério, eu sai perdendo. Mas eu queria segurar a outra aposentadoria, foi quando eu dei entrada na minha aposentadoria pelo Ministério, agora sendo que trinta anos, trinta dias, não foi integral, porque integral eram os 35 anos. Eu optei pela minha aposentadoria pelo Ministério para ficar com o governo e continuei trabalhando, carteira assinada, foi quando assinou minha carteira, tudo bem.

 

P/1 – Qual foi a última função que o senhor teve na usina? Foi balanceiro mesmo?

 

R – Quando eu disse que meu filho era um excepcional, ele disse assim: “Não tem problema, eu prometi um aumento à você e vou dar o meu aumento à você”. Eu digo: “Pelo amor de Deus, eu vou sair da sua mão, oxente!” Porque eu não queria sair da mão dele, porque eu indo para outro canto, ele não ia ser mais meu...

 

P/1 – O senhor queria ficar só naquela função?

 

R – Com ele.

 

P/1 – O senhor ficou?

 

R – Não.

 

P/1 – Não ficou?

 

R – Ele chamou um rapaz do almoxarifado e eu fui ser almoxarife.

 

P/1 – E ficou lá até se aposentar?

 

R – Foi.

 

P/1 – Mas, na Rede, o que significou para o senhor ter trabalhado na Rede?

 

R – Na Rede, significou para mim muita coisa mesmo.

 

P/1 – Essa parte que eu fiquei pensando, o senhor era um homem da oficina e passou para o escritório. Isso acontecia? Ou eles iam como contínuo mas não como o senhor para uma função já específica?

 

R – Sim porque o contínuo, não é menosprezando não, porque não tinha...

 

P/1 – Mas não tinha uma função determinada?

 

R – Não tinha.

 

P/1 – Então isso que aconteceu com o senhor não era um...

 

R – Quer dizer, esse contínuo é o seguinte: ele adoecia, trabalhava normal, serralheiro, torneiro, mas adoeceu, não tinha mais oportunidade de trabalhar naquela função, passava para o serviço de natureza leve. Então para não mandar ele para casa...

 

P/1 – Entendi. Mas assim, do jeito que o senhor passou, não era comum então?

 

R – Não, porque foi quando o encarregado da sessão elétrica chamou o engenheiro que já tinha saído me dado a função de contínuo: “Não doutor, venha cá. Livaldo vem cá. Livaldo, tu não estudaste? O que foi que tu estudou, Livaldo?”

 

P/1 – Que bom que lembrou então, né?

 

R – Aí, o engenheiro perguntou: “Você estudou o quê?” “Eu cheguei até terceiro ano de Contabilidade”. Ele disse: “Pronto, não vai ser mais contínuo, vai trabalhar com Osvaldo Medina”. E eu fui para a sessão de custo.

 

P/1 – Então foi bom ter trabalhado na Rede.

 

R – Foi ótimo.

 

P/1 – E o que é que o senhor acha dessa ideia do projeto de fazer essas entrevistas como a gente está fazendo?

 

R – Ótimo! Era bom que fosse com todos os ferroviários, contando cada um a sua história, foi muito bom.

 

P/1 – É muita gente para contar história, né?

 

R – É, tem muita gente ainda.

 

P/1 – E o senhor, gostou de dar a entrevista?

 

R – Eu adorei.

 

P/1 – É mesmo?

 

R – Adorei porque chegou numa parte que foi da minha mãe.

 

P/1 – Que bom, né? Poder eternizar dona Marina.

 

R – É.

 

P/1 – Deixa eu só perguntar: o senhor tem quantos filhos?

 

R – Olha, eu tenho três.

 

P/1 – Três filhos.

 

R - O meu primeiro filho que é doente mental, quarenta anos ele tem.

 

P/1 – Depois dele...

 

R – Tem o Fábio, depois Livânia. Porque eu queria uma menina. Quando eu noivei, quando comecei a namorar, a Ana Maria da Cruz, logo dei o nome da minha primeira filha que eu queria ter. “Eu quero uma menina”. Eu tinha que dizer isso eu quero, porque nós temos que ser criador, né? Aí o primeiro filho foi Livaldo Muniz, doente mental, depois eu digo: “Eu quero é Livânia”. Aí veio Fábio. E minha mãe sabia de tudo. A experiência dela, ela não me dizia, dizia à uma irmã minha: “Ele quer uma menina, mas vem um menino”. Depois, uma menina. Livânia chegou. Aí minha esposa fez a ligadura das trompas por causa do primeiro, que podia vir mais outro...

 

P/1 – Então o senhor tem a sua menina?

 

R –E u tenho Livânia e de Livânia mesmo que veio Rebeca, a minha neta.

 

P/1 – Obrigada, senhor Livaldo, pela sua entrevista...

 

R – Eu é que agradeço...

 

P/1 – Foi muito bacana...

 

R – Eu é que agradeço a rica oportunidade que a senhora me deu. Essa equipe sua, muito obrigado.

 

P/1 – Obrigada o senhor.


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