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História

A heroína de fora das telas

História de: Maria da Penha Brito
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/11/2003

Sinopse

Maria da Penha, relembra fatos desde a sua infância na cidade de Mari, Paraíba, onde nasceu, o árduo trabalho na lavoura e de como decidiu vir para o Rio de Janeiro sem contar para os pais, em busca de uma vida melhor. Conta também como foi a sua luta para conseguir emprego em uma cidade desconhecida, onde, cheia de determinação, trabalhou por anos como empregada doméstica e criou sua filha sozinha, até que conseguiu um emprego nos cinemas do Grupo Severiano Ribeiro, passou pelos mais tradicionais cinemas cariocas, recolhendo bilhetes e sempre distribuindo sua simpatia e alegria aos espectadores.

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História completa

P/1 – Para começar, nós queríamos que a senhora falasse seu nome completo.

 

R – Maria da Penha Brito

 

P/1 – Qual o local e data de nascimento?

 

R – 17/09/1954.

 

P/1 – E a senhora nasceu aonde?

 

R – Na Paraíba.

 

P/1 – Qual a cidade?

 

R – Mari.

 

P/1 – Mari.

 

R – É.

 

P/1 – O nome dos seus pais?

 

R – Severino Andrade da Silva

 

P/1 – E o da sua mãe?

 

R – (Glaucina?) Gomes da Silva

 

P/1 – E os seus avós? (risos)

 

R – É... Severino Gomes da Silva

 

P/1 – Qual é a atividade lá do seu pai?

 

R – Do meu pai era trabalhar na lavoura

 

P/1 – E o seu avô?

 

R – Também.

 

P/1 – Também.

 

R – É.

 

P/1 – E as terras? Também eram de vocês? A roça?

 

R – Logo assim não! Quando meu pai casou com a minha mãe, minha mãe e meu pai não tinha nada. Depois a gente foi crescendo aí a gente conseguiu juntar o dinheiro e comprar essa... esse terreno que ele tem lá hoje.

 

P/2 – E que tipo de coisas vocês plantavam?

 

R- A gente plantava aipim, mandioca, é, abacaxi, pé de laranja, bananeira, coco, caju, muita coisa! Jaca, manga. Tudo a gente plantava no sítio. E tinha gado também... é... ovelha, cabrito, peru, galinha. Tudo a gente tinha. Porco...

 

P/1 – Era (risos)

 

R – Era tipo uma fazendinha...

 

P/1 – Era uma fazendinha. E como é que era a casa?

 

R – E tinha cavalo.

 

P/1 – E a casa onde vocês moravam?

 

R – A casa onde a gente morava... a primeira casa que a gente fez a casa era de taipa, que chama lá, né? Aí depois a gente construiu uma casa de tijolo.

 

P/1 – E como é que era essa casa de taipa? Eram... quantos quartos tinham. Assim, descreve esta casa.

 

R – Essa casa... deixa eu descrever... eu gostava desta casa! Tu não imaginas como eu gostava da de taipa, mais do que da de tijolo.

 

P/1 – Por que você gostava mais?

 

R – Porque tem coisa que você se amarra a ela. Tem a janela. Ela tinha assim um pé de... que chama aqui no Rio... chama belota. Aí eu para ter este pé de belota, aí ele ficou lindo! Aí eu olhava assim da janela e minha mãe falava assim: “Poxa, este pé de árvore, como ele ficou bonito!” Aí eu molhava todo dia cedo. Às vezes me levantava cedo e molhava ele. Aí ele ficou lindo! Aí começou a botar aquelas rosas bonita... aquela flor bonita... muito linda. Aí minha mãe: “Por isso eu agora vou fazer um jardim aqui do lado”. Aí ela fez um jardim... aí aquelas flores tudo bonita... aí de manhã ela molhava também. Era muito linda! Aí eu gostava desta casa. Às vezes a gente arrumava namorado, eu e minha irmã que era mais sapeca... aí o seguinte: aí a gente namorava da janela, que o meu pai era muito rigoroso. Aí ele agora não, ele não é tão rigoroso porque depois a gente foi crescendo e foi saindo e por aí começou... mas...

 

P/1 – Mas esse namoro na janela já era com a casa nova?

 

R – Não. Era na casa velha de taipa. É por isto que te digo que eu gostava mais desta casa.

 

P/2 – Mas como é que era? A senhora ficava dentro e ele do lado de fora?

 

R – Do lado de fora. E o meu pai de vez em quando passava com a lamparina. Não era fácil o meu pai... De noite, aí chegava assim, aí falava assim: “Olha aqui tá na hora de todo o mundo dormir, tá? E todo mundo ir para as suas casas”. Aí meu namorado ia embora. Pegava uma bicicleta que ele tinha e se mandava... ia embora.

 

P/2 – Como é que é? Dava para beijar assim?

 

R – Não. Lá ninguém nesta época ninguém beijava. Aí depois foi que começaram a maioria dos rapazes vir aqui para o Rio, aí chegava lá com esta história de beijar.

 

P/1 – A senhora tinha mais ou menos que idade nesta época?

 

R – Nesta época eu ia fazer quinze.

 

P/1 – E na cidade lá?

 

R – Na cidade tinha festa.

 

P/1 – Tinha festa?

 

R – Tinha.

 

P/1 – Como é que era esta festa?

 

R – A festa de São Sebastião, tinha a procissão que a gente ia para lá também. Às vezes minha mãe ia. A minha mãe era muito, assim, rigorosa nas coisas, com a gente. Às vezes eu queria ir passear na roda gigante e ela não deixava. Aí ela ficava ali do lado para a gente não ir para a roda gigante. Aí era o seguinte: minha irmã era teimosa: “Não, a gente vai na mais alta que tem! Ela está na baixinha porque ela está pensando que a gente vai para a baixinha... a gente vai na mais alta que tem”. Aí quando ela deu por ela, eu ia com meu namorado para a roda gigante e a minha irmã. Aí quando ela deu a volta eu estava lá em cima. Aí quando eu desci ela já estava lá embaixo. Aí quando terminou ela foi e disse assim: “Eu mandei você ir para a roda gigante? Eu não mandei!”. Aí eu não sei quê, aí eu disse: “Não mãe, já aconteceu, agora não tem mais jeito”. Aí ela foi e disse assim: “Aqui não, mas quando chegar em casa a gente vai conversar!”. A minha mãe era muito rigorosa nestas coisas. Aí vem a parte dela dizer assim: “Quando chegar em casa você vai apanhar toda, as duas, que eu não mandei vocês ir para a roda gigante”. Aí o seguinte: daqui a pouco minha irmã diz assim: “Eu estou querendo sabe o quê? Passear na canoa... E eu só saio desta festa... enquanto eu não passear na canoa eu não vou...”

 

P/1 – Mas que canoa é essa? Assim... de que...

 

R – A canoa é assim um tipo assim, de barquinho de tábua.

 

P/1 – Mas ele ficava aonde? Tinha um rio assim próximo?

 

R – Não. A canoa é assim um balanço que você balança, fica uma de um lado outra de outro e a corda. Aí eu puxava a corda aí ela descia, aí quando ela puxava eu subia, é assim... Aí só que as mãos da gente chega a ficar vermelha, chega a ficar com calo nas mão.

 

P/2 – Quer dizer então, como é que foi a história da sua irmã na canoa?

 

R – Ah, eu não... a história da minha irmã na canoa... aí vem lá a minha mãe de novo: “Eu mandei você estar aí nesta canoa? De repente se cair se arrebenta aí, vai cair todo mundo!”. Aí ela começou a falar e chegou ela e uma tia dela e começaram a falar... aí aquela coisa toda... aí eu fui e falei assim: “Mãe, calma que já tá quase terminando no final”. Aí ela disse: “Quando chegar em casa você vai ver o que vai acontecer outra festa...vai vir a Festa de ___________[1], e vocês não vão para a festa! Vai ser o castigo de vocês duas! Que vocês duas é muito teimosa!”.

 

P/1 – Mas você acabou que não foi na festa mesmo?

 

R – Não. Na outra festa a gente não foi não!

 

P/1 – Ela não cedeu o castigo não.

 

R – Não, ela não cedeu!

 

P/1 – E a escola? Como é que era a escola?

 

R – A escola a gente não tinha escola lá. Aí depois foi que ela arrumou assim... é... tinha o Mobral [Movimento Brasileiro de Alfabetização]... Aí é o seguinte: veio a escola do Mobral... aí tinha uma moça com o nome de Dalvina. Aí é o seguinte, eu disse assim: “Olha, hoje eu vou arrumar uma matrícula na escola”. Aí ela fez assim: “Eu tenho filha...” – meu eu pai falou assim para ela: “Eu tenho é filha para trabalhar! Porque é depois vai... nós estamos criando... vai ser inútil.” Porque o seguinte: “Do genro meu vai tomar conta! E o seguinte, eu não tenho lucro nenhum nesta participação”. Aí o seguinte: “Se quer entrar quando ficarem maior aí vão pagar o estudo delas, mas enquanto isso não!” Aí é o seguinte, eu digo: “Só que eu já me matriculei e vou estudar à noite”. Aí ele disse assim: “Passou pela minha ordem”. Aí eu fui e falei assim: “Agora o senhor dá um jeito que agora não tem jeito mais. O senhor só pode ir lá assinar porque a gente é de menor”. Aí fui eu e minha irmã estudar à noite.

 

P/2: Nessa época a senhora tinha quantos anos?

 

R – Nessa época quando houve isso eu tinha assim uns onze anos. Aí começamos a estudar à noite. Aí tinha dia que a professora às vezes não queria dar aula, às vezes era o marido dela que dava... Aí foi na época assim que a gente chegava com uma coragem de estudar, mas não tinha quem ensinasse... que era o Mobral.

 

P/1 – E esse... era onde esse local onde vocês...?

 

R – Era lá na Paraíba mesmo, no estado de Mari.

 

P/1 – Mas era no que? Numa escola, numa casa?

 

R – Numa casa.

 

P/1 – Numa casa.

 

R – Numa casa. Mas só que ela dava aula, as criança, por exemplo, assim do tamanho do Victor, de manhã cedo e de noite foi que ela resolveu... como é que se diz? O Prefeito de lá, que tinha ganhado, aí foi e falou que queria um professor no sítio. Aí o seguinte: aí ela chegou e segurou esta boca. Mas acontece que ela não dava aula direito! Quem dava mais a aula era o marido dela. Aí ele vinha, passava o trabalho no quadro... aí a gente retirava o caderno...Aí o seguinte: até quando foi o dia que ele entregou e disse que não ia mais dar aula porque a mulher dele não estava a fim de dar aula, que tinha mais uns outros problema... que tinha ficado grávida...aquelas coisa toda... Aí parou a escola lá no sítio... que foi uma pena!

 

P/1 – A senhora tinha quantos anos, assim?

 

R – Nessa quando eu parei... quando eu entrei tinha onze... ia fazer treze.

 

P/2 – E assim... nesta época da infância até esta idade, a senhora além do parque lá e da roda gigante... da canoa... do que é que a senhora gostava de brincar?

 

R – O que eu gostava de brincar era de boneca.

 

P/2 – De boneca.

 

R – É. Brincava muito de boneca.

 

P/2 – E como é que era o seu brinquedo?

 

R – Fazia o vestidinho da boneca. Aí pedia à minha mãe para fazer as boneca... aí vinha outra coleguinha de lá... aí por nome de Rita... aí ela chegava... aí brincava com a gente... aí pegava, às vezes, eu ficava chateada com ela e falava assim: “É, você chega aqui e pega molha as boneca da gente e as boneca não pode ser molhada que a boneca é de pano”... e eu tenho aquela lembrança dela...demais! Foi uma amiga que sempre me marcou. Aí ela falava assim: “É, eu molhei a tua boneca, mas depois você coloca no sol, tá?”

 

P/2 – E hoje? A senhora ainda entra em contato com essa amiga?

 

R – Tenho não! Ela vem para aqui para o Rio. Ela... primeiro ela houve um casamento lá. Aí não deu certo, ela veio-se embora aqui para o Rio. Aí depois arranjou outra pessoa aqui no Rio e foi... aí ele não gostou mais daqui do Rio, foi embora e eu acho que tá morando lá para o Rio Grande do Norte... levou ela para lá. Mas se encontraram aqui eles dois. Aí de lá para cá eu não encontrei mais. Aí quando... não vi ela mais. Aí quando eu fui lá na Paraíba aí minha mãe falou assim: “Você não sabe o que aconteceu! A tua amiga que você... eu sei que vocês se gostavam muito...ela casou mas o casamento dela não deu certo”. Mas eu digo: “Não deu certo?”. E ela disse: “Não. Agora ela arranjou uma pessoa... ela estava no Rio, arrumou uma pessoa e agora tá aqui. Ela voltou para cá. Mas ela ainda tem lembrança do Rio. E sabe o que é que ela queria? Queria muito te encontrar”. Aí eu digo: “Só que zona que eu morava era muito distante dela.” Que ela morava lá para Jardim Botânico e eu morava na Tijuca na época. Trabalhava e morava.

 

P/1 – É... voltando assim para Mari... Assim na época da adolescência tinha algum point, um lugar assim onde vocês faziam a paquera? Tinha uma lanchonete, uma sorveteria?

 

R – Lá não tinha nada disso!

 

P/1 – Mas o pessoal se vestia... como assim? Como é que as pessoas se vestiam?

 

R – A minha mãe é que fazia roupa para gente... vestido... Não era calça comprida não!

 

P/1 – Vestido? Como é que era? Compridão?

 

R – Compridão... Agora, só que minha mãe fazia bermuda para gente usar por dentro da roupa. Por exemplo, eu que plantava fumo, plantava abacaxi nas terra de alguém... às vezes alguém quando me contratava para ir trabalhar... às vezes se tinha almoço por nome de  (Deca?)[2] da padaria. Às vezes eu vinha à partir de sábado. Às vezes ele queria retirar o fumo do varal... aí ele ia lá em casa me mandar chamar... aí eu ia trabalhar com ele. Aí quando eu chegava em casa... eu chegava e recebia aquele dinheiro por fora aí eu entregava prá minha mãe.

 

P/2 – Então a senhora usava bermuda para...

 

R – Era... até aqui!

 

P/2 – Para abaixar...

 

R – Era, para ninguém ver nada! Que era ela assim muito rigorosa... a minha mãe...aí assim o seguinte: às vezes eu chegava em casa e eu estava até querendo ir para a feira, que tinha uma feira e ele tinha uma padaria. Aí é o seguinte: às vezes eu estava até querendo ir, mas às vezes ela dizia assim: “Qual que você acha, chegou um aviso aí, você vai trabalhar ou você quer ir à feira?”. “Não”, eu digo, “eu acho melhor a senhora, vai, leva o dinheiro, compra as coisa que a senhora tem que comprar, porque o importante é a gente viver bem”. Aí eu ia-me embora com ele e uma colega, uma tal de Maria, o nome da mulher era Maria Santana. Aí ela vinha e ele apanhava ela e eu e a gente ia lá para o campo de fumo. Aí quando chegava lá, ele fazia aquelas trouxas assim e jogava na caminhonete. Ela pegava numa ponta, e às vezes ele chegava e dizia assim: “Isso aí está muito pesado para você!”. Aí vinha, dava uma mão e jogava na caminhonete... era muito manera... Mas foi uma coisa assim que eu sempre fui dedicada, eu gostava de trabalhar! Igual eu me dedico no cinema. Que às vezes assim eu estou lá trabalhando e daqui a pouco eu vejo aquele chefe de lado, ou do DP [Departamento de Pessoal] ou Supervisor... às vezes eu estou  com o espectador, vou para lá vou para cá, quando eu dou por ela eu estou em cima.

 

P/1 – Voltando ainda à cidade de Mari, você falou que plantou abacaxi... fumo...

 

R – Plantei...

 

P/1 – Várias coisas... o que você mais gostava de plantar e o que era mais chato assim de plantar... não? De colher, né?

 

R – É.

 

P/1 – O que era mais chato de plantar ou de colher, assim?

 

R – Vou te falar...

 

P/1 – O que era mais fácil, o que você gostava mais?

 

R – O abacaxi é mais ruim, porque você é abaixada. Aí o fumo você tem que sentar e fazer aquele (lerãozinho?)[3] como se você está semeando coentro... plantação de fumo... Aí depois você vem e cobre com aquelas folhas de coco, cobre por cima. Aí depois vai saindo aquele fuminho tudo novinho! Aquela coisa linda! Aí você vem com o chafariz e vai aguando toda pela manhã. Uma coisa linda! Para depois você fazer a muda por lerão. Aí depois na barriga daqueles lerão você planta feijão. Quando não é feijão, é amendoim... é uma coisa muito linda! E às vezes na cabeça do lerão você planta macaxeira... aí vai fazendo aquele serviço todo. Aí aquela pessoa olha assim para você, quando você às vezes você está trabalhando, aí daqui a pouco eles vem e coloca a mão assim por trás e fica olhando assim... Te observando... E sempre tem um observador. Aí é o seguinte: nestes lados aí eu ficava assim: “Poxa vida... eu trabalho tanto... e não tenho uma mudança...”. Aí teve um dia assim aí ele foi e disse assim: “Hoje, esta semana eu vou levar vocês para Mari, para vocês costelar fumo nas costelações de fumo”. Porque o fumo não parece nada... as pessoas fumam, gostam muito de fumar, mas o fumo é muito seboso.

 

P/1 – Como assim, muito seboso?

 

R – Que as pessoas faz muita coisa no fumo... urina... tudo... E cospe... as pessoas que estão trabalhando naquele fumo que ali não parece nada, mas te dá um enjôo... o fumo... Que você tem chegar aquelas folhas você abrir aquelas folhas assim na água, abre bem abertinha e vai costelando ela, colocando ali e tirando aquele fio que tem na folha para poder enrolar. É uma coisa linda o trabalho de fumo, mas é muito sujo! A roupa da gente chega a sair amarela!

 

P/1 – Isso é porque saiotão...

 

R – Com aquela saia (risos). Aí às vezes minha mãe fazia umas sainhas rodada também... Franzia assim... toda plissadinha. Aí vinha e aquela saia bem rodada assim, quase assim... a base da saia levava quase dois metro de pano... ela cortava e fazia plissadinha.

 

P/2 – Então eram suas roupas de festa?

 

R – Era, era. Aí é o seguinte: ela fazia assim de manguinha de bafo aquelas roupinha que já aqui no Rio você quase não usa mais. Realmente tem lugar aqui no Rio que tem! Em São Cristóvão, na feira.

 

P/2 – E a senhora frequenta a feira de São Cristóvão?

 

R – Frequento de vez em quando. Que eu acho aquilo ali uma loucura! As feira dos paraíba! Que às vezes você quer encontrar com alguém que quer ver que você já não a via mais, aí você vai lá e a vê. Porque a maioria gosta de ver os nordestino ali... naquela feira... É outra coisa que eu acho que não deve acabar! Deve existir aquela feira.

 

P/1 – É... a sua mãe... qual é a atividade dela? Você falou que ela costura...

 

R – É, costura.

 

P/1 – Mas ela só costurava?

 

R – Fazia roupa para a gente, para o pessoal de lá... às vezes alguma moça que ia casar e ela pegava o enxoval para fazer lençol, é... paninho de prato, essas coisas toda! O enxoval todo! Ela fazia toalha de mesa, tudo aquelas coisinha!

 

P/1 – Ela fazia renda?

 

R – Fazia.

 

P/1 – Aquelas rendas...

 

R – É.

 

P/1 – E vendia bem?

 

R – Não, ela contratava aquelas coisas que alguém ia casar, aí ela fazia aquele enxoval. Aí ela não saía para vender não! Ia então as coisas dela de casa, que ela gostava muito. Aí que ela ainda falava assim para a gente: “Poxa vida, eu gostaria tanto de ser mais nova! Que eu ia ganhar um dinheirão no Rio. Porque eu ia vender. Ia fazer um banquinho aqui na feira de São Cristóvão e ia vender as minhas coisa que eu ia fazer... as minha costura”.

 

P/1 – A senhora mudou de cidade, não é? Veio aqui para o Rio...

 

R – É. Isso.

 

P/1 – A senhora mudou por que, assim? Qual foi... tinha família aqui?

 

R – Tinha duas tia. Mas elas quando eu cheguei aqui no Rio, elas não foram muito à favor de eu ter chegado. Eu tinha uma tia que...

 

P/1 – Você veio para cá por quê? Foi para trabalho?

 

R – Eu vim para cá pelo seguinte: porque a vida de cá do Rio realmente era melhor de que lá. Porque lá era muito sol... sol muito quente e outras coisa.

 

P/2 – Tinha seca?

 

R – Tinha... e as coisas era totalmente difícil. Mais difícil do que daqui. Aí você tinha que trabalhar na lavoura... aquela vida assim... meia amarga. Você tinha que sair cedo pela manhã, aí tinha que às vezes plantar cana... pôr adubo na cana. Isto eu trabalhei muito também. E adubar abacaxi. Aí tinha que botar, como é que se diz? Uma luva nas mão... para o abacaxi não cortar... aduba o abacaxi. E aí você se cortava toda as perna se você não tivesse cuidado, tinha que botar um pano assim de frente nas pernas para não se cortar. Aí a vida era totalmente difícil. Aí as coisas foi assim passando assim pela minha cabeça e eu digo: “Um dia eu vou sair daqui!”. E botava sempre na minha cabeça: “As pessoas que chegam de lá chega bonita, uma pele linda!”. Eu pensava, né? Só não falava nada para a minha mãe, nem para as minhas irmã. Eu falava assim: “Um dia eu vou sair deste lugar. Não sei como, mas eu vou sair!”. Aí chegou a oportunidade que eu vim para aqui para o Rio, junto com a minha irmã, que minha irmã casou e teve um casamento fracassado e veio prá aqui pro Rio. Mas quando ela chegou aqui no Rio nada dava certo para ela. Ela trabalhava em casa de família, alguém não pagava ela...  Ela trabalhou lá em Jardim Botânico. Aí trabalhava, mas ninguém pagava, aí quando foi no final do ano ela foi. Aí quando ela chegou lá, ela falou assim: “É o seguinte: que eu pudesse que a coisa não fosse tão difícil aqui eu ia ficar aqui para sempre”. Bem assim... a minha irmã. Aí ela disse assim: “Penha, você tem coragem de ir para o Rio?”. Aí eu falei assim: “Por que não, que eu não tinha coragem?”. Eu disse assim: “É... mais você... o pai falou que você, que você não falou nada para mim... nada, mas pai falou que tu não vai”. Aí eu falei assim: “Eu sei que ele falou, mas eu posso ir até escondido, porque eu sou teimosa”. Bem assim... E ela disse assim: “Você teria coragem?”. E eu disse: “Teria. Pode comprar a minha passagem que eu vou! Que eu vou convencer o velho e vou”.

 

P/1 – A senhora conseguiu convencer ou foi escondida?

 

R – Não, aí ele foi que falou que eu não ia e aquela coisa toda, aí no dia que ela já tinha comprado a passagem aí ele não se despediu da gente nem nada, e disse que eu não ia. Aí eu inventei que eu ia para Mari, para a casa de uma tia minha e de lá a gente foi embora.

 

P/1 – E qual foi sua impressão quando chegou aqui na cidade?

 

R – A minha impressão quando eu cheguei aqui na cidade, eu cheguei era... assim... dia de segunda-feira de madrugada. Aí eu olhei assim: “Ih! O lugar é tão difícil! Mas para os olhos de Deus não é difícil: Eu vou me dar bem aqui! Seja lá o que Deus quiser!”. Ainda falei esta palavra. E ela pegou e falou assim: “O que é que tu está falando?”. Aí eu disse... “Tu ainda nem desceu do táxi!”. Aí ela disse assim: “Mas eu estou aqui e agora eu estou distante da minha família, da minha mãe, do meu pai”. E ela foi e disse assim: “Não chora não!”. Aí eu disse: “Não, não vou chorar não, mas eu espero que a nossa vida vai mudar!”. Falei bem assim. Aí quando eu disse isso, aí que ela disse: “Já está perto da gente chegar na casa da nossa tia. Vai ver a mudança que nossa tia vai fazer”. Aí eu disse: “Mas tu não vai chorar não! Tu procura ser forte”. Eu digo: “Eu vou procurar neste momento ser forte”. Aí quando eu cheguei lá e minha irmã bateu na porta, aí ela foi... a gente entrou...aí ela saiu e começou a falar. Mas ela falou, falou... Falou: “Eu vou escrever uma carta para a tua mãe, para o teu pai... pensa mais um pouco, porque o Rio de Janeiro não é fácil não! Mas não é fácil não!”. Aí começou a xingar, as coisas que não devia. Aí eu disse: “Ah! Tia, o seguinte: eu tenho fé em Deus que vai dar tudo certo e eu vou conseguir logo um emprego”.

 

P/1 – Essa tia morava aonde?

 

R – Morava lá em Realengo.

 

P/1 – Realengo...

 

R – Só que ela morava num quartinho... ela não tinha casa!

 

P/1 – Quer dizer então que a senhora chegou no Rio e foi morar em Realengo...

 

R – Foi.

 

P/1 – E está em Realengo até hoje? A senhora chegou a sair de Realengo?

 

R – Cheguei.

 

P/1 – Mas foi só quando foi trabalhar em casa, antes não?

 

R – Não, aí a minha vida... deixa eu te falar...tem assim uma história forte. Aí naquilo assim aí foi no lado que ela foi e disse assim... aí eu fui e tomei um banho... aí fui cuidar do cabelo, essa coisa mas mesmo assim com ela falando... não quis nem dar muito ouvido no que ela estava falando muito. A minha irmã que ficou dando ouvido e começou a chorar, porque tinha se arrependido depois que tinha me trazido e aquela coisa toda... Aí eu sei que eu tomei um banho, depois olhei para a cara dela, dei um beijo na minha tia, dei um beijo na minha irmã, aí fui e falei assim: “Eu vou trocar de roupa”. E naquilo ela vai e chama a Bira: “Bira, vai comprar um pão para mim”.

 

P/1 – Quem é Bira?

 

R – Bira era um garoto que fazia as coisa para ela. Aí o seguinte: eu disse assim: “eu vou com Bira... eu vou com Bira”. Aí quando eu cheguei na padaria aí a mulher... fomo comprar o pão... aí a mulher foi: “Psiu, ei psiu!”. Aí eu parei: “É comigo que a senhora está falando?”. Aí ela disse: “É com você mesmo! Você não é daqui do Rio não, né?”. Eu disse: “Não, eu sou da Paraíba e cheguei hoje!”. Ela foi e disse assim: “Você não quer trabalhar aqui no Rio não?”. Eu fiz assim: “Queria. Gostaria! Só que eu não conheço ninguém aqui”. Aí ela disse assim: “Não, por isso não, que eu vou dar o endereço da mulher e posso até levar você lá. Você está na casa de quem?”. Aí eu fui e falei. Aí ela falou assim: “Então você vem aqui com a sua tia que eu vou dar o endereço da casa onde você vai trabalhar”. Quando eu cheguei em casa com o pão na mão... eu e o Bira. Aí o Bira foi e falou assim, rindo, porque o Bira era bem pretinho: “Ih! Ela já arrumou emprego!”. O Bira falou: “Ela já arrumou emprego!”. Aí foi assim: “Emprego aonde? Esse pessoal do estado do Rio”... aí disse um bocado de coisa lá. Aí eu disse: “Não, para começar tia, para eu pegar assim uma prática já é legal... isto aí para mim é um destaque, tia...” Aí ela... ”Eu só quero só que a senhora me leve lá para a senhora poder dar uma referência de mim porque eu não tenho”. Aí ela falou: “Está bem”. Aí ela disse: “Não! Eu não vou não!”. O Marcelo era pequenininho, menor do que o Bira: “Não, mãe, não custa nada a senhora dar uma força para ela que chegou do norte... a minha prima que chegou do norte”. Aí ele foi... ele foi com ela no... mais eu lá. Aí ela foi e disse assim: “Olha, eu vim aqui porque mandaram a minha sobrinha vir aqui...” essa coisa toda... Aí ela foi e disse assim: “Não, sabe que eu me amarrei na tua sobrinha e outra coisa, eu tenho uma neném e a minha filha trabalha numa lanchonete e para mim a tua sobrinha vai dar tudo certo aqui.” Aí eu disse assim: “Ô, meu Deus, que luz!”. “Ela pode até passar a dormir aqui”. Aí a minha tia disse assim: “Não, que a irmã dela vai trabalhar na Tijuca, porque não sei quê... e vai ficar lá prá Tijuca e ela fica aqui no estado do Rio”. Aí eu fui e disse assim: “Tudo bem, mas já que a senhora não quer que eu durma aqui, eu não vou desobedecer”. Aí eu trabalhava e vinha de noite para casa. Aí quando foi um dia...

 

P/1 – É muito longe da tua casa?

 

R – Não, era perto. Da minha casa não! Da casa da minha tia... do quartinho da minha tia. E ela foi falou assim... a dona Sinhá falou assim: “Olha, eu queria que você dormisse aqui porque aqui ficava melhor, porque a do Carmo quando chega, chega tarde, e você estando aqui é melhor porque toma conta da Andréa e que eu vou dormir um pouco... me descansa um pouco”. Eu digo: “Tá legal!”. Eu sei que eu fiquei lá trabalhando. Aí conheci uma vizinha do lado. A vizinha... o quintal dela estava cheio de mato, aí eu peguei uma enxada e limpei aquilo tudo, deixei tudo limpinho e fui covar, queimei aquilo tudo. Aí ela foi e disse assim: “Puxa, eu adorei você! Você é tão limpinha! Joga com água nas planta... faz tudo, deixa tudo limpinho! O seguinte: eu tenho uma amiga na Tijuca e que está precisando de alguém e tu vai ganhar mais”. Na época eu... ela tinha contratado eu para ganhar 100 Cruzeiro... na época era Cruzeiro, não era Real. Aí ela foi e disse assim: “Você tem coragem de ir? Porque lá você vai ganhar 200 Cruzeiro”. Aí eu cheguei em casa e contei... falei prá a minha tia, aí a minha tia disse assim: “O que? Você vai logo dar um jeito e vai logo!”. Aí eu fui e disse: “Mas eu não posso largar a mulher agora na mão, para isso eu não tenho quase despesa aqui com a senhora. Não é alembrando, eu como lá tudo porque eu sei que as coisa aqui no Rio é difícil, não é que nem na Paraíba...Então o seguinte: eu não vou deixar a mulher assim. Primeiro eu vou lá na casa dessa mulher um dia de folga minha, faço uma visita com alguém”. Aí ela foi e disse assim: “É, mas só que eu não sei ir na Tijuca com você não!”. Aí eu fui e disse: “Eu vou encontrar alguém que possa me levar na Tijuca porque eu não conheço a Tijuca”. Aí ela disse assim: “Inclusive você nem sabe prá onde é que fica a Tijuca”. Eu digo: “Realmente eu não sei para onde é que fica a Tijuca, mas pela noção que eu conversei com a vizinha, o marido dela... até o marido dela e ela pode me levar e me dar a noção que eu quero”. Aí ela...

 

P/1 – Nessa época vocês iam como, assim... era ônibus mesmo?

 

R – Era... Não! Pegava o trem e ia ficar na Central. Aí o seguinte: a minha irmã chega de folga, e quando eu contei para minha irmã isso, aí minha irmã disse: “Ué, você vai se despedir dessa casa que você tá agora! E você vai para a Tijuca trabalhar, porque eu trabalho na Rua Uruguai e você vai trabalhar na Praça Saenz Peña”. Aí eu fui e fiz assim: “Não, mas eu não sei se vai dar certo porque o seguinte, a mulher é uma mulher sozinha e ela tá precisando de alguém e ela até falou que tem que viajar... viagem assim para fora... vou ficar, por exemplo, um mês fora, alguma coisa assim... que ela viaja muito para fora. Viaja muito para Paquetá, com os parentes dela... sai festa, tudo o que tem e ela vai para lá. O que é que você me diz?”. Aí ela foi e disse assim: “Agora... porque, poxa você vai ganhar mais! Põe na tua cabeça”. Eu digo: “Não, não é o mais... aqui é a maneira da mulher me tratar! Ela me trata bem e estas coisas toda...”. “Mais você precisa conhecer mais”.

 

P/1 – Isso foi em que ano?

 

R – Eu... nessa época... Era 1970... 1972 por aí.

 

P/1 – E você acabou indo para a Tijuca?

 

R – Fui para a Tijuca.

 

P/1 – E como era ali o comércio da Praça Saenz Peña? Você lembra de alguma coisa?

 

R – Não... O comércio da Praça Saenz Peña... era...

 

P/1 – Tinha alguma loja que chamava atenção... alguma...

 

R – Tinha a C&A na época... ainda tem ainda! Tinha a Americana. Tinha o Disco, que eu fazia compra lá... mais ela, mais essa patroa minha, que ela falava assim: “Você uma criolinha bonitinha hein, não é para olhar muito para estes caras que trabalham aí no Disco não! Que eles não ganham muito não, tá?”. Falava isso comigo e quando eu me arrumava para sair com ela, porque ela saía comigo pros canto. Que eu conheci mais o Rio foi com ela. Aí a gente viajava e eu ia para... é... Copacabana... Aí ela chegava assim dentro do táxi e ela me mostrava mais ou menos os lugares... ela... a Central do Brasil, Praça XV, aqueles lugares assim... Rua do Acre... tudo me...

 

P/1 – Qual passeio assim que você mais gostou com ela?

 

R – Com ela, Copacabana e ali na... como é que se chama?... na Catumbi. Que os parentes dela era muito legal comigo. Inclusive foi aonde eu cheguei gostar muito das pessoas gay. Porque ela em Copacabana ela tinha... nessa casa que a gente foi, nessa festa, uma festa que a gente foi com ela... tinha... era casa de almirante. Aí o cara que trabalhava lá era gay. Aí quando ele chegava e dizia assim: “Ih! Eu gostei tanto dela!”. Aquela coisa sabe, você se empolgar... aí ele vinha com aquele pratinho de salgadinho, aí me escolhia logo... aí vinha, me chamava lá para cozinha, conversava... E eu sabe, aquela pessoa assim aquela carisma da primeira vista? Aquela coisa boa... Eu me senti muito bem. E ela na hora da gente vir embora ela me chamou e foi e disse assim: “Eu tou vendo que você se sentiu muito bem aí”. Era um escurinho que trabalhava lá. Era muito legal ele! Aí quando chegou em casa, aí ela falou assim: “Eu sei que você não tem muita experiência com dessas coisas não, mas eu vou te falar, ele não é homem totalmente não! Ele é gay”. Aí eu disse: “Não, o que importa é que ele é amigo!”

 

P/2 – E dona Maria da Penha, a gente vai retomar um pouquinho... voltando agora a falar de comércio, a senhora já falou como era o comércio da Tijuca, e em Realengo? Logo que a senhora chegou?

 

R – Realengo...

 

P/2 – Explica para a gente como é que era o bairro, como era o comércio um pouquinho, como a senhora lembra?

 

R – O bairro de lá do Realengo aonde eu moro não tem esses movimento não! Mas na Avenida Santa Cruz já tem. Uma base assim: tem banco... Banco do Brasil, Banco Bradesco, tem Caixa Econômica...

 

P/1 – Mas na época que a senhora se mudou?

 

R – Não, não tinha nada.

 

P/1 – Não tinha nada.

 

P/2 – Vocês faziam compra aonde? Em que bairro?

 

R – A gente fazia no mercadinho que tinha lá e a Sendas. Era o mercado que ainda existe até hoje que chama (Damor?)[4]

 

P/2 – E roupa, sapato? Essa coisas...

 

R – Sapato a gente vinha comprar na cidade. Às vezes eu vinha com a minha tia, e às vezes era com essa patroa que eu comprava roupa na Tijuca e já trabalhava com ela. Aí era o seguinte: no dia da folga era que eu ia. Às vezes vinha para cá na sexta-feira, que às vezes ela me liberava na sexta-feira e eu vinha... Aí quando era no Domingo à tarde eu descia para a Tijuca. Aí eu sabia daquele itinerário certinho. Aí quando chegava lá era só entrar no elevador de serviço, que a gente viajava com o elevador de serviço. Aí às vezes o porteiro falava assim: “Ah! Ih! Esse negócio de empregadinha... tu tem é que entrar é pelo elevador social!”. Falava mesmo assim! Aí ela foi e falou assim um dia para mim: “Eu não quero te encontrar no elevador social! Só é para ir nele quando for comigo!” Aí eu obedecia... Porque de repente eu podia dar de cara com ela dentro do elevador social.

 

P/2 – E a senhora...

 

R – Ela era muito rigorosa essa patroa minha.

 

P/2 – E a senhora quando veio aqui para o Rio, foi de Realengo para Tijuca, a senhora usava ainda vestido, ou começou a usar...

 

R – Usava vestido. Depois aí que eu recebi o meu salário com ela, aí ela foi e disse assim: “Vamos numa loja na Tijuca para você comprar calça comprida pra você.“

 

P/2 – A senhora lembra qual loja?

 

R – Não tenho lembrança não! Mas ela ia muito na Americana... aí comprei um tamanquinho, é...comprei uma bolsa.

 

P/1 – Tinha alguma loja...

 

R – Na Americana...

 

P/1 - ... na Praça  Saenz Peña que não existe mais ou mais alguma coisa que a senhora se lembre?

 

R – Não, assim eu não tenho lembrança não!

 

P/1 – A senhora lembra ali da Sloper?

 

R – A Sloper eu lembro! Que uma vez ela até comprou um relógio para mim, e esse relógio eu cheguei e mandei para a minha irmã depois que eu saí de lá.

 

P/1 – Como é que era a Sloper?

 

R – A Sloper era uma loja assim simplesinha, porque ultimamente eu não tenho ido para a Tijuca. Na época ela era uma loja simplesinha. Agora de Copacabana quando ela ia lá mais eu, eu achei mais bonita a de Copacabana. Era mais uma loja assim que tinha mais vista ao público. Era... tinha mais movimento do público do que mais na Tijuca... Aí ela ia comigo... Foi uns passeio que eu ia... e às vezes no cinema, no América, na Tijuca, ela frequentava comigo.

 

P/1 – A senhora lembra qual filme assim...

 

R – Não, nessa época eu não me lembro não! Mas ela falava assim: “Eu vou assistir uma comédia!”. Aí a gente saía. Aí às vezes, pelo Natal ela falava assim: “Eu tenho que dar um café para o pessoal da portaria, que trabalha na portaria”.

 

P/2 – E depois que a senhora... é... quantos anos a senhora ficou trabalhando nessa casa?

 

R – Nessa casa eu acho que eu fiquei um ano e três meses com ela.

 

P/2 – E depois qual outro emprego que a senhora...

 

R – Aí depois aí eu fui trabalhar na casa... duma... o porteiro arrumou para mim... é... na Tijuca também, só que não era na Conde de Bonfim, era na Mariz e Barros. O nome dela era Nilza e Michel... seu Michel. Aí essa casa já eu ganhava mais! Aí o seguinte: ela tinha dois filho: o Michel e Sérgio. Também era uma casa também que me tratava... a casa deles era um luxo! Muito bonita. Aí depois que eu às vezes chegava de folga na segunda-feira, aí às vezes ela ficava assim... ela era uma criatura, assim, quando estava tudo arrumado, ela era assim muito rigorosa com as coisa, né? Mas ela gostava de tudo limpinho... Aí quando chegava na segunda-feira estava aquela bagunça. Aí foi um dia ela virou para mim: “Ah! É o seguinte: está tudo bagunçado e você devia ter chegado aqui no domingo de tarde... à noite”. Aí começou a falar comigo... Aí eu... na época assim eu não tinha muita paciência não. Aí eu cheguei assim: “Ó, já que a senhora não está aceitando o meu trabalho eu estou indo embora! Eu estou chateada, já chorei... tudo isto porque a senhora queria que eu fizesse as coisas muito rápido e eu não tou... cheguei agora e estou cansada. Porque enfrentar aquele trem e depois vir para cá para a Tijuca não é fácil não!” Ela disse então: “Quer dizer que você veio da Paraíba e agora tá vendo que as coisas aqui tão difíceis aqui no Rio?”. “Difícil é, mas com força de vontade a pessoa chega lá”. Aí o seguinte: ela começou a falar... Eu digo: “Dê bai...”, a minha carteira era assinada, aí fui e falei assim: “Já que a senhora está reclamando muito, dê baixa na minha carteira que eu vou embora!”. Aí eu sei, aí depois eu saí, arrumei minhas coisas, fui embora. Aí vim-me embora, aí eu cheguei na casa da minha tia meio chateada, aí fui lá pegar o dinheiro. Quando cheguei lá na outra semana, ela disse: “Vem cá pegar o seu dinheiro”.  Aí eu fui, quando eu cheguei lá ela foi e disse assim: “O Michel quer falar com você para você ficar”. Eu digo: “Não. Aqui eu não fico mais não, porque a senhora tem um sistema nervoso muito abalado... eu sei que tem coisa que não dá para a gente ficar”. Aí é o seguinte: ela foi e disse assim: “Fica, fica, que o Michel, o Sérgio gosta muito de você”. Eu digo: “Não, só que eu aqui não vou ficar mais! É uma coisa minha e eu não vou ficar mais”. Aí o seguinte: aí saí. Aí a minha tia quando eu cheguei em casa, aí a minha tia falou assim: “E aí como é que ficou? Você vai voltar a trabalhar na dona?” Eu digo: “Ela me pediu mas eu não volto mais atrás não! Vou batalhar e vou arranjar outra casa para mim trabalhar. E praticamente eu já arrumei. Eu amanhã já tou de volta para a Tijuca de novo”. “Mas na Tijuca de novo?” Eu digo: “Na Tijuca de novo! Vou trabalhar na Conde Bonfim. Eu já arrumei, já fui ver a casa, só que eu estava muito cansada, não fiquei, vim para casa”. Aí ela foi e disse assim para  mim : “Mas tu nem descansou e já vai embora trabalhar?” Eu digo: “Já, já arrumei o trabalho, já vou-me embora trabalhar”. Aí ela disse assim: “E como é que fica a situação aí? Porque em breve eu vou sair daqui, vou embora com o Sebastião e vocês não vão me ver mais”. Aí eu disse: “Olha tia, a senhora fica calma que para a semana eu volto aí. Eu vou trabalhar, mas para a semana eu volto aí e vejo o que pode acontecer, porque eu vou falar com a minha tia e vou falar com a minha irmã. Se elas tiver de acordo a gente arruma aí um lugar para a senhora ficar, entregar este quarto desse apartamento que a senhora mora, que eu sei que não está mais dando certo, que praticamente a gente estamo aqui e está crescendo e eu vou arranjar dinheiro para a gente comprar este apartamento”. Aí ela virou para mim assim: “Dinheiro você tem! Que você recebe de dois empregos”. Bem assim para mim. Aí eu fui e disse assim: “Calma tia, paciência! Paciência que vai dar tudo certo! Com calma se resolve. Só basta a minha irmã e a minha tia ceder, aí a gente faz negócio nesse apartamento... a senhora procura aí. Eu só vou lhe pedir uma coisa: a senhora tenha paciência e arruma o apartamento. Porque qualquer coisa a gente dá um jeito e bota a senhora lá”. Ela disse assim: “Você está vendo que a Renata já nasceu dentro desse apartamento”. Eu digo: “É tia...o seguinte: ela não pediu para vir ao mundo. Ela nasceu... então ela está aí... ótimo! Então é o seguinte: eu estou indo trabalhar!”. Aí quando cheguei lá comecei a trabalhar...

 

P/1 – Quem é Renata?

 

R – Renata é uma filha da minha tia... Aí eu sei que ela falou... falou. Aí foi e falou: “E não chega uma decisão de vocês!”. Eu digo: “A minha decisão já está decidida, que é fazer... fechar negócio nesse apartamento! Por mim já está decidido”. Aí ela disse assim... ela falou uma palavra assim: “O seguinte: eu sei que você é uma criatura que você prende o dinheiro”. Eu digo: “Eu quero ver as pessoas viver... as felicidade das pessoas. É isto que eu quero! Então eu vou para a Tijuca e vou trabalhar e espero que tudo dê certo para mim”. Aí fui embora, né? Quando cheguei lá a madame me aceitou e eu fiquei trabalhando na casa dessa madame. Só que essa madame era mais simplesinha não era que nem esta outra que eu trabalhei na Mariz e Barros.

 

P/2 – Dona Maria da Penha, depois que a senhora... a senhora passou vários anos da sua vida trabalhando em casa de família... tudo...

 

R – Isso!

 

P/2 - ... e quando a senhora resolveu parar de trabalhar em casa de família ou... qual foi o motivo?

 

R – O motivo foi que eu comecei...

 

P/2 - ... que a senhora mudou de emprego?

 

R – O motivo foi que eu parei com esta madame, foi isso. Aí o seguinte: nessa... que eu estava trabalhando na Conde de Bonfim, aí eu arranjei um namorado. Aí este namorado me levou à loucura, e foi uma loucura realmente boa que eu fiquei grávida da minha filha. Aí o seguinte: eu passei muito com ele... aquela coisa toda... a gente ia muito no Rincão Gaúcho, aquelas coisas... aquelas festa toda... passeava... Às vezes, a minha patroa falava assim: “Olha, você quando se arruma você fica tão linda!”. Mas só que eu fiquei grávida dela, né, mas eu não tive coragem de chegar perto da minha patroa e revelar. Aí eu fui e disse para ela: “Olha, eu estou indo embora para a Paraíba”. É o seguinte: que a minha filha já ia fazer seis meses de gravidez e a barriga não... eu tinha medo dela não descobrir e mandar eu... mandar eu ir embora, né? Aí eu digo: sabe, entre dela descobrir e mandar eu ir embora eu vou virar para ela e vou dizer que vou para a Paraíba. Aí ela tem uma loja lá na cidade, aí na Rua da Alfândega... aí ela vinha prá a loja. Aí é o seguinte: de noite quando ela chegava, eu punha a mesa, arrumava tudinho, deixava arrumado, aí às vezes quando meu namorado ligava eu ia encontrar com ele. Aí ele era loirinho, quase que nem este menino que tá aí. Aí é o seguinte, aí eu olhava, aí às vezes ele ligava, eu ia encontrar ele na praça... na época... Aí o seguinte: aconteceu que eu fui num hotel com ele... e aí o seguinte: fiquei grávida da minha filha. Aí depois eu fiquei pensando assim... virei para ele e falei: “Ó...”. O nome dele era Cosme, mas ele não gostava que chamasse ele de Cosme, gostava que chamasse de Mário. Aí eu virei para ele assim: “Mário, eu tou grávida”. Aí ele foi e virou assim... Eu vi logo a mudança dele... Aí quando ele mudou, ele foi e disse assim: “É o seguinte: você está grávida, mas o filho não é meu!”. Aí eu não sei que eu era, sei lá, muito radical, eu não sei o que é que era que eu sei que eu enfrentava alguma coisa na vida. Aí eu falei assim para ele: “É o seguinte: você nega que o filho não é seu... então você segue o seu caminho que eu vou seguir o meu, porque coragem eu tenho! Agora só que tem um detalhe, você não vai ver a cara do meu filho quando nascer!”. E foi o que aconteceu... Eu cheguei, nem falei para minha patroa nem nada, eu saí e depois eu parei assim quando eu cheguei em casa, quando eu tive a conversa de noite com ele... Aí eu cheguei em casa, parecia que eu estava arrebentada... Aí depois eu disse assim... tomei um banho... ”Dá a volta por cima! Um filho não é doença! Um filho é coragem! E outra coisa: o filho tá na tua barriga, o filho é teu! É mais teu do que dele!”. Isto é o que passava na minha cabeça. E outra coisa: “Não tira! Não tira!”. Aí o seguinte, aí eu digo: “O que é que eu faço?”. Juntei as tralha todinha da casa da madame. Quando a madame chegou, eu digo: “Dona Paula, eu preciso muito falar com a senhora”. Ela disse assim: “O que é que foi?”. “Eu estou indo embora!”. Aí ela disse: “Para onde? Assim...”. Eu digo: “Estou indo embora da sua casa! A senhora arranja outra empregada para a sua casa que eu estou indo embora...”. Só que é aquele negócio, ela disse assim: “Pôxa, você vai embora?”. Eu digo: “Vou embora! Estou indo embora, estou decidida!”. Aí ela foi e falou assim: “A Teca gosta muito de você, não vai embora não!”. Eu digo: “Eu vou embora, que houve uns problemas lá na Paraíba com meu pai”. Falei assim... mas deixa aqui não! Era ela que estava na minha barriga. Eu disse assim: “Não, eu vou ter que fazer um pré-natal... como é que esta garota vai nascer sem ter um pré-natal sem ter nada! Eu tenho que arrumar alguma coisa para esta garota! Dinheiro eu tenho... dinheiro aí... Então dá para eu comprar um enxoval dela, as coisinhas para ela... e aquele apartamento que já foi comprado eu vou lá para a casa da minha tia. Se não der certo, quando eu ganhar ela eu arrumo outro rumo!”. Parecia uma coisa! Tudo aquilo que eu planejei deu certo! Aí quando eu cheguei em casa, aí apareceu a minha tia que trabalhava no Leblon. Aí foi e virou-se assim: “Não, você vai tirar!”. Eu digo: “Não! Não vou tirar... não vou tirar!”. Aí ela foi e disse assim: “Eu vou te levar numa clínica lá na Melhoral e você vai tirar!”. Quando a mulher olhou para mim, aí foi e disse assim: “E você que vai fazer o aborto?”. Aí eu... Aí ela botou a mão na minha mão e eu estava toda fria... “Você tem consciência do que vai fazer?”. Aí eu disse assim: “Não, eu estou sendo franca... eu tou aqui por conta da minha tia!”. “Você quer deixar o seu filho nascer?”. Aí eu fui e falei assim para a mulher: “Quero! Eu quero ver meu filho nascer!”. “E você tem coragem de criar?”. Eu digo: “Tenho! Eu tenho coragem de criar”. Aí o seguinte, ela foi e disse assim: “Então vai embora para casa e seja lá...” Eu disse assim para ela: “Seja lá o que Deus quiser! Deus está comigo e ele não vai deixar eu jogar minha filha fora!”. Aí o seguinte: aí de manhã cedo me levantei, tomei meu banho, aí eu digo: “Hoje eu vou descobrir onde é o Carlos Chagas”. Aí a minha tia disse: “Uma palavra com você eu não dou mais! Que você é cabeça dura! Você é cabeça dura! Você não toma conselho! Você que botar um filho no mundo para depois vim a sofrer!”. Eu digo: “Sofrer vai que eu tivesse feito esta loucura, mas eu não fiz essa loucura, eu não tenha nada de chegar e parar com a minha cabeça e pensar”. Aí ela foi e falou assim: “O quê? Então não vou dar nem uma passada, só ainda...” Aí minha outra tia foi e falou assim: “Eu vou dar uma ideia de dizer para onde é o Carlos Chagas”. Aí eu digo: “Isto eu já sei, que eu já vi!” Aí eu fui de manhã cedo, aí fiz o... lá tudinho... Aí eu comecei fazer o pré-natal. Aí um dia que estava marcado de, eu ia cedo, às vezes eu ia fazer faxina de barriga... depois o marido da minha tia arrumou uma casa para eu ir trabalhar. Aí eu fui lá ver lá em Laranjeiras. Aí depois... eu di... eu comecei a trabalhar, aí fazia faxina e vinha embora para casa segurando o dinheiro. Aí até no dia que eu passei mal e minha tia foi e disse assim: “Eu vou te levar no hospital”. Aí eu cheguei lá, fiquei uma semana internada para ganhar minha filha. Aí o seguinte: na hora de ganhar aí... quando veio, a minha filha nasceu, aí ele ia fazer cesariana, aí depois foi parto normal. A hora que eu olhei para a carinha da minha filha, eu disse assim: “Ai, que coisa linda! Ai, por esta daí é a minha vida! Isto aí é um pedacinho de mim, é tudo para mim!”. Aí fiquei, lutava, batalhava... aí foi o tempo que ela fez um aninho... aí aquela coisa linda... Eu sei que com assim... três meses eu arrumei uma casa, aí fui lá ver. Aí a madame disse que não ia aceitar...

 

P/1 – Dona Maria, aí você foi... retomando aqui a pergunta da Louise... aí a senhora teve seu filho e continuou em casa de família?

 

R – Continuei.

 

P/1 – Quando é que você saiu das casas de família e começou a trabalhar no cinema?

 

R – Aí comecei a trabalhar no cinema...

 

P/1 – Como é que foi... esta história de você entrar no cinema?

 

R – Eu me cansei de casa de família... assim de fazer faxina!

 

P/1 – Mais ou menos que ano assim...?

 

R – Não, o ano eu não tenho lembrança! Eu sei que na época, ela ia fazer assim uns sete... ela, ela na época ela ia fazer uns nove anos já. Às vezes eu levava ela para casa de família para fazer faxina... aí ela ficava lá brincando... Aí eu ia, parava o serviço e dava uma olhadinha nela e voltava a trabalhar de novo. Eu sei que eu fazia aquela limpeza, às vezes pegava uma roupa para lavar... levava para casa. E eu sei que daí eu fui levando minha vida e ganhava meu dinheiro como diarista... e aquela coisa toda...Aí eu só sei que naquele momento... aí surgiu esse emprego... que ela já... eu já tinha botado ela no colégio, essa coisa... já estudava... já ia fazer nove ano. Falei assim: “É, eu ando muito cansada de trabalhar em casa de família já. Eu tenho que arranjar um serviço de carteira assinada! Mas eu não posso perder as esperança... Enquanto a Adriana está pequeninha eu vou tocando minha vida para frente, com fé em Deus e vou em frente!”. Aí o seguinte: eu não parei... eu não parava! Aí o seguinte: às vezes, eu pegava roupa para lavar, roupa para passar, passava, ganhava o meu dinheiro e tou tocando a minha vida para a frente! Aí o seguinte: eu... ela estudando, comprava os livros, os cadernos, as coisinha, aí ela começou a crescer, aquela coisa... Aí eu digo: “Mas eu tenho que arrumar um serviço de carteira assinada! Eu vou pôr na cabeça!”. Aí foi o tempo que eu vim ali para a Senador Dantas ver numa agência de emprego para o serviço de diarista. Aí quando cheguei lá, aí a moça foi, disse assim: “Olha, eu tenho um serviço na Ladeira dos Tabajaras para você fazer faxina lá”. Eu digo: “Tudo bem! Eu vou para lá, eu vou trabalhar”. Aí peguei o endereço tudinho direitinho, aí nesse dia foi que encontrei essa amiga, que eu fui falar com o porteiro para entrar para ver minha amiga. Aí ela foi... ele foi e disse assim: “Você não vai ver amiga nenhuma!”. Eu disse: “Eu vou ver minha amiga!”. Aí fui pela escada. Aí quando chego pela escada, o elevador estava pegando fogo. Aí o seguinte, aí eu comecei a gritar: “Acode gente, acode... Socorro! Socorro que o elevador tá pegando fogo!”. Aí ele sem conta que ele tinha me barrado, disse que eu não ia pelo elevador, só que eu fosse de escada para falar com ela, aí ele... aí ela...

 

P/1 – Que sorte, hein? Se pegasse o elevador...

 

R – Foi... Ele disse assim... Não, mas esse que ela estava pegando fogo era o elevador de serviço, não era o social. Aí ele foi e disse assim: “Ué, ela é amiga dela mesmo?”. Quando eu puxei a porta assim com ele mesmo para tirar ela de dentro com o latão que estava lá pegando fogo e o faxineiro, aí ela se agarrou-se comigo se abraçou comigo: “Ai, que bom que você está aqui!”. Aquela festa toda... O faxineiro também se abraçou-se comigo, aí fomos lá para cima tomar leite. Aí ele disse assim: “Agora eu vi que ela é amiga mesmo!”.

 

P/1 – Essa sua amiga foi a que te arrumou emprego no...

 

R – Foi. Aí ela foi e disse assim... aí eu digo assim: “Oi (Andressa?)[5] eu estou indo embora”. Aí ela foi e disse: “Você vai levar meu telefone e liga para mim, que o teu negócio eu vou falar com um amigo meu e vou... depois eu entro em contato que eu vou falar com um amigo meu, porque eu tenho certeza que o teu emprego já está arrumado!”. Bem assim...

 

P/2 – Aí arrumou o emprego?

 

R – Aí o seguinte: não... aí eu liguei para ela. Aí ela foi e me mandou eu ir falar com o amigo dela. Quando cheguei lá o amigo dela foi e disse assim: “Ih! Maria, mandado pela Eunice você já está praticamente empregada!”. Aí me levou no escritório do Luiz Severiano Ribeiro, do Severiano Ribeiro que já faleceu... Aí quando eu cheguei lá aí... tinha três candidata, quatro comigo! Aí eu disse: “Ih, caramba! Para disputar uma vaga!”. Aí eu sei que ele deu uma rodada assim que eu terminei a prova de fazer, aquela coisa... quando ele deu uma rodada assim na cadeira e olhou para as quatro, aí foi e disse assim: “Vai ser esta daqui ó”. E fez bem assim com o dedo. Eu lembro como se fosse hoje. Ele olhou assim ó: “Vai ser essa daqui! A escolhida vai ser essa!”. Aí eu olhei assim e dei um sorriso para ele... Aí ele foi assim e virou a cadeira de novo e entrou... saio destas cadeiras que roda e vai embora! Aí é o seguinte: eu... “Que é que eu faço?”. Aquilo assim na minha cabeça... ”O que é que eu faço?”. Aí o rapaz foi e disse assim: “Você leva um telefone daqui e depois você liga os dia... que vai te encaminhar para tu tirar os documento”. Aí eu digo assim: “Pôxa...” Eu cá comigo falando sozinha: “Será que eu não estou dando uma de maluca? Eu não passei na prova? O __________[6] não me escolheu? Porque esse pé frio? Porque esse pé frio no meu caminho? Não pode ser! (Risos) Bem assim... sozinha falando isso. Aí desci a escada do prédio... na Mahatma Gandhi... desci... Sabe de uma coisa? Eu vou lá no meu colega que mandou eu aqui! Quando eu cheguei lá eu fui e disse assim... bati na porta do Vitória... que ele trabalhava no cinema Vitória, aí eu disse: “Olha, seu Juarez, eu vim falar com você”. “O que é que houve, Maria?” Disse: “Olha, eu passei na prova, ele me deu este telefone para eu ligar”. Aí ele disse: “O quê? Tu passou na prova?”. Eu disse: “Passei”. “O seu negócio é para já! Vamos lá! Vamos lá!”. Aí eu disse assim: “Claro! É para agora mesmo!” (Risos). Quando eu disse é para agora mesmo, ele disse assim: “Tá  disposta a ir?”. Eu disse: “Claro que estou! Que eu passei!”. Quando cheguei lá ele foi e disse assim: “A menina que eu mandei aqui passou?”. Eu deixei ele falar... “Passou?”. Aí o rapaz falou assim: “Passou! Tudo certinho nas conta, nas coisa que tinha que fazer aí, ela passou em tudo! Agora só estava faltando um telefone de residência dela e alguma coisa assim...”. Aí ele disse assim: “Isto é moleza! Eu vou botar o meu telefone aí!”. Aí ele disse: “Não, não serve o seu”. Aí ele foi e disse assim: “Maria, você... eu vou dar um telefone aí você liga para mim que eu pego o número com você e venho aqui e dou”. Eu disse assim: “Não, não precisa o senhor se preocupar com isso! Quem tá interessada sou eu, não é o senhor! Amanhã cedo eu estou aí. Eu estou aqui no DP”. Disse assim: “Você vem mesmo, Maria?”. Eu digo: “Venho!”

 

P/1 – Assim... de qual cinema? Onde é que é?

 

R – Desse cinema que eu estou trabalhando...

 

P/1 – Do Palácio...

 

R – Do Luiz Severiano Ribeiro... Aí é o seguinte, ele foi, aí quando eu cheguei de manhã ele foi e disse assim: “Essa relação... Taí Maria, essa relação de documento que você vai tirar. Vai no Catete, tira aí que já é pago pela nossa firma.” Aí eu fui lá e tirei tudo. Aí trouxe os papeis aí ele fez assim: “Olha, sabe onde é que você vai trabalhar?”. Aí eu disse: “Não, não faço a menor ideia!”. Ele disse assim: “Você vai trabalhar no Cine Copacabana”. Aí eu disse assim: “Não, eu vou dar um pulo lá no meu colega”. Quando cheguei lá, ele estava de folga. Aí eu digo: “Caramba! Eu agora perdi o meu colega!” Aí é o seguinte... falando sozinha... Aí quando eu dei fé, foi aquela mão bater assim no meu ombro. Quando bate assim no meu ombro, eu digo assim: “Ué, não conheço ninguém praticamente aqui na cidade, sou uma mulher desconhecida, quem bateu no meu ombro?”. Aí que eu olhei era ele! Aí eu disse assim: “E eu agora estava pensando em você, e fui te procurar!”. Aí ele disse assim: “Mas o quê que houve Maria? O que é que você está mandando?” “Até agora eu não estou mandando em nada! Eu tou aqui dentro da cidade me achando um lixo!” Aí ele disse assim: “O que é que aconteceu?”. Aí eu disse assim: “O que é que aconteceu? E que eu tenho que ir para Copacabana. E outra coisa: me mandaram eu ir para Copacabana, e o que é que você me diz?” Aí ele diz assim: “O que eu te digo é que você vai trabalhar... a tua gerente é a Maria Lúcia e o gerente folguista é o Wilson. E hoje não parece nada, mas eu acho que você vai trabalhar com o Wilson”. Aí é o seguinte: “Você tem ideia de ir para Copacabana? Tem algum receio?”. Eu digo: “Não”. Aí ele disse assim: “É o seguinte, eu vou te botar no ponto aí vou te dizer...”. Aí eu digo: “Não, isso aí eu já sei! Posso pegar o 126, o 128 e eu vou embora para Copacabana.”

 

P/1 – E qual é o nome deste cinema? Desculpa...

 

R – Ó, na Nossa Senhora de Copacabana.

 

P/1 – Mas qual...

 

P/2 – A senhora lembra o nome?

 

R – Na Dias da Rocha.

 

P/2 – Não! O nome do cinema...

 

P/1 – O nome do cinema...

 

R – Não, o número eu não peguei...

 

P/1 – Não, o nome?

 

P/2 – Severiano Ribeiro.

 

R – Dele! Aí quando eu cheguei lá no cinema aí eu desci na Barata Ribeiro, aí peguei a Dias da Rocha. Aí quando eu chego lá, aí que me apresentei para o gerente com o envelope na mão... aí me apresentei, aí ele fez assim: “É você que vai trabalhar aqui?”. Eu disse: “É, mandaram eu para cá”. Aí ele começou a mostrar o cinema para mim e o que é que eu ia fazer, essa coisa... Aí ele foi e falou: “Olha, você pegou o gerente folguista, não é o fixo”.

 

P/1 – O que é gerente folguista?

 

R – É aquele que faz a folga no dia da folga do gerente fixo.

 

P/1 – Ah! Tá! Entendi...

 

P/2 – Que substitui, né?

 

R – É. Aí ele vem e faz a folga. Agora só que o seguinte: “Eu gostei muito de você”. Eu digo: “Eu também gostei muito de você, seu Wilson”. Aí ele disse assim: “Espero que você seja aprovada, passe nessa ficha aqui no cinema”.

 

P/1 – E como é que era esse cinema? Assim: qual a impressão que você teve quando chegou naquele cinema?

 

R – Não... a impressão que eu achei foi que, eu ali em Copacabana eu já passava às vezes em faxina que eu fazia trabalhando...

 

P/1 – Mas assim o cinema? A sala? Como é que ela era? Descreve ela assim para a gente...

 

R – A sala era assim embaixo e em cima tinha duas escadas. Uma de uma lado e outra do outro.

 

P/1 – E ela era de...

 

(Pausa)

 

P/1 – Bem, a gente parou... a senhora estava no cinema, não é? No Copacabana... Era... qual era o nome do cinema?

 

R – O Copacabana.

 

P/1 – É, o Copacabana?

 

R – O Cine Copacabana.

 

P/1 – Como é que ele era por dentro assim?

 

R – O... Ele por dentro eu achei ele muito lindo! Coisa muito linda! Muito bonitinho... os espaços assim muito legalzinho... a ser um cinema de rua, amplo. Aí aquele negócio, quando aqueles espectadores do bairro de Copacabana frequentavam...

 

P/1 – Quem eram estes que frequentavam? Geralmente era o que? Era família?

 

R – Não... Era com família. Aquelas madame que vinha muito cherosinha...

 

P/1 – Eles vinham bem arrumados?

 

R – Ia bem vestido... Relógio de ouro... eu acho que ele foi mais fechado por conta de assalto que às vezes alguém assaltava na porta do cinema, quando a pessoa se dirigia para entrar no cinema. Aí vinha os pivete e levava relógio...

 

P/1 – Isto mais ou menos em que época?

 

R – Nessa época quando começou este negócio de pivete de rua... tudo bem que eles nunca deixaram de atacar, mas ali em Copacabana eles atacavam bastante na época. Aí é o seguinte: eu acho que era assim... nessa época eu ia fazer um ano de cinema... que trabalhava em cinema ainda.

 

P/1 – Aí você ficou lá até fechar?

 

R – Não, aí depois a gerente foi transferida para o Ópera, aí de lá ela ficou uma semana e eu lá no Copacabana. Depois veio um envelope do Departamento Pessoal me transferindo para o Ópera, que a gerente pedia para eu ir trabalhar com ela no Ópera.

 

P/2 – O Ópera ficava em que bairro?

 

R – Botafogo.

 

P/2 – Botafogo.

 

R – É. Onde tinha dois restaurantes. Um de um lado outro de outro... Aí eu fiquei trabalhando na praia de Botafogo, no Cinema Ópera. Também era um cinema que era dois cinema. Aí é, ele era do senhor Roberto Valancini, mas só que era alugado pelo senhor Ribeiro.

 

P/1 – E qual os filmes que passavam nesse cinema, assim geralmente?

 

R – Por exemplo, lá eu assisti nessa época é... Uma Linda Mulher, que eu gostava de assistir... era a Vivian com aquele o Richard Gere. Era... eu gostava muito! Todo o dia eu assistia o filme dele com a linda mulher, com a Julia Roberts. Então... foi dos filme que eu me amarrei muito. Ele e o Romance da Empregada.

 

P/1 – Isso... A senhora costuma ver filme?

 

R – Quando o filme me interessa eu gosto de dar uma fugidinha... Inclusive na hora de lanche. Aí eu vou lá, mas nunca deixo passar da hora, porque eu sei que eu tenho aquela responsabilidade... aquele perfil de assumir as coisas na frente... olhar lá por dentro... dar uma olhada assim se tem alguém fumando... aquela coisa toda... se tem alguém com o pé na cadeira... Aí pede para mandar tirar... essas coisa... Tem muito cuidado com as coisas, com o patrimônio do cinema.

 

P/1 – Quais as infrações assim... quais as infrações que as pessoas cometem assim lá dentro, de você ter que chamar à atenção? Quais são as mais...

 

R – Não, isso seria...

 

P/1 – Pé...

 

R – Pé. Às vezes, a outra infração quando às vezes a pessoa chega e fala assim: “Olha eu vou assistir o filme no Palácio 2, só que não tá na hora ainda, eu posso ir no banheiro?“ Aí o seguinte: é uma hora que em mim eu sou mais rígida nesse lado, porque...

 

P/1 – Mas lá no Ópera?

 

R – No Ópera também. “Eu vou para o cinema 2, será que eu posso ir no banheiro do cinema um?”. Aí quando depois, em vez de ir no banheiro, ia lá para o cinema assistir o filme. Só que eu tenho um jeito assim... eu sei que às vezes eu me pergunto, eu tenho que mudar este jeito, aí de gravar as pessoa. Eu gravo muito isso! Aí o seguinte, aí eu disse dentro de mim aquilo passa assim: “Não vai me iludir, está pensando que vai me iludir? Não vai me iludir não! Que eu vou pegar a pessoa lá dentro!”. Aí é o seguinte: aí eu chego perto da pessoa e aí falo assim: “Olha, eu apenas trabalho aqui... só que o seguinte, sou instrumento aqui nesse cinema, então eu fiz um favor de deixar você ir no banheiro e por que que você foi assistir esse filme se o seu filme não é este? O seu filme é no Palácio 2! Por favor, sem eu chamar o gerente, sem chamar a segurança, sem chamar ninguém... esse papo vai ficar entre nós dois ou entre nós duas. Por favor, porque se o gerente perceber ele vai me chamar a atenção”.

 

P/2 – Dona Maria, só retomando... um pouco ainda a questão do cinema lá de Botafogo... A senhora podia descrever como era o cinema? Conta rapidamente a história do cinema para a gente poder passar para o Palácio. Então a senhora conta assim o que chamava à atenção, o que a senhora achava de interessante nesse cinema? O que ele tinha de especial? Conta um pouco dessa história...

 

R – O que ele tinha de especial que dava muito público, aí foi... é... um público maravilhoso, que era um público respeitador, e essas coisa que você tem que tratar eles muito bem. E você que trabalha em cinema, você vive mais para o pessoal... dos espectadores do que mais do que para a gente e se forma uma coisa boa... Porque você gosta do que você está fazendo e aquilo ali cativa as pessoa, que você tem um público não só para um dia só, sempre tem ele para todo o dia que você contar. E você tá sempre procurando reconquistar mais alguém para vir ao cinema.

 

P/2 – E o espaço, como era? Como era a sala?

 

R – Lá o espaço ele era muito amplo, muito grande, muito bom.

 

P/1 – Qual a capacidade? A senhora lembra?

 

R – A capacidade era assim de uns 950 lugares. Cada um, cinema daqueles.

 

P/2 – E a senhora sabe por quê fechou?

 

R – O porquê que o cinema fechou é o seguinte: é que o seu Ribeiro quando foi para lá era arrendado. O cinema do seu Ribeiro arrendou. Então o seguinte, o seu Ribeiro fez obra lá dentro tudinho, aí a depois que ele terminou o contrato entregou para o seu Roberto. Aí o seu Roberto foi deixando para lá. Aí o cinema foi aos poucos se acabando.

 

P/2 – Então a senhora ficou até o final ou foi para o Palácio antes?

 

R – Não, aí veio um pessoal da Barra, aí eu fui transferida para a Barra, eu fui transferida para Barra. Aí fui trabalhar na Barra, aí depois entregou o cinema.

 

P/2 – Mas em que lugar da Barra a senhora trabalhou?

 

R – Eu trabalhei no Barra Shopping. Aí do Barra Shopping, o gerente que tinha trabalhado comigo... aí eu cheguei um dia para trabalhar aí ele foi e falou assim: “Maria, abre o cinema porque o gerente...” hoje - como é que se diz? - São três cinemas aqui na Barra. Aí eu abri o Barra 1. Aí eu fui para o Barra 2, aí depois eu fui para o Barra 3 e rápido! Aí o seguinte: aí eu disse assim: “Ô meu Deus, eu tenho que arrumar uma luz! Porque é tanto trabalho para mim que eu não sei nem onde está hoje a minha cabeça!”. Bem assim... Aí naquilo...

 

P/1 – Dona Maria, tinha muita diferença entre os frequentadores lá de Botafogo, né? Das pessoas, de como eles se vestiam para o pessoal da Barra? Você sentiu alguma diferença?

 

R – Não... Eu sentia!

 

P/1 – Como é que era?

 

R – O pessoal de Botafogo se vestia melhor...

 

P/1 – Era?

 

R – Era. Agora o cinema da Barra vinha mais o pessoal da Cidade de Deus, aquele pessoal todo... Tinha uma diferença. Agora só que a galera, como diz na gíria, tudo bem que não pode falar gíria...

 

P/2 – Claro que pode!

 

R – Aí é o seguinte, a galera da Barra era mais para frente... fazia mais bagunça... Não era tanto bagunça! Chegava assim: “Pôxa, é você hoje que tá aqui! Maravilhosa! Se um dia tu for embora vou sentir muito a tua falta!”. Aquela coisa toda... Eu gostava muito do pessoal da Barra. Mas eu trabalhava também muito! Aí é o seguinte: neste dia eu fui e disse assim: “Meu Deus será que me arranja uma luz?”

 

P/2 – A senhora saiu da Barra e depois foi para qual lugar?

 

R – Não, nesse dia que eu falo isso, eu digo assim, peguei aquele engarrafamento, meu pai, eu conversando comigo mesma! Aí eu digo, peguei aquele engarrafamento na Cândido Benício... aquilo ali horrível! Peço meu Pai e aqui na Barra, mas seja... bem assim... seja lá... que ele mandou eu pegar, arrumar os banheiro, botar papel, aquela coisa... depois eu vim para a portaria. E tinha lá uma bilheteira que ela era aquilo tipo assim... aquela mulher arretada, com o diz. Aí foi e falou assim: “Maria da Penha! Você mesma! Olha a fila como é que está!”. Eu disse: “Olga, não tem problema, pode mandar! Quanto você quiser que eu já estou aqui!”. Aí é o seguinte, falei “Vou queimar ela!”. Ela disse... falou as coisa que tinha que falar e disse: “Eu gosto de pessoa assim para frente! E ela é para frente”. Aí é o seguinte, aí eu fiz assim: “Você acha eu para frente?”. Aí ela disse: “Com certeza que eu acho você para frente!”. Aí eu fui e disse assim: “Então vamos aí daqui a pouco gente”. Eu botei aquele pessoal para dentro, aí o telefone tocou... Eu sei que eu escutei o telefone tocar. Aí meu gerente falou assim: “Maria, eu acabo de te perder...” Aí eu disse: “Acaba de me perder por que?”. Disse assim: “Tem um gerente que pediu, já falou com o Miguel (que na época o supervisor era o Miguel), falou com o Miguel que você vai para o centro da cidade trabalhar no Odeon, e você vai deixar a gente?”. Eu não pensei. Eu disse: “Olha, eu já botei a sessão para dentro, vou lá pegar a minha bolsa e retirar uniforme e vou embora! Vai ser agora!”. Aí fui lá, peguei o ônibus para cá para o centro da cidade, aí no centro da cidade eu fiquei no Odeon.

 

P/2 – E o Odeon ele é agora... Como é que ele era antes? Que agora ele fez uma reforma, né?

 

R – Fez.

 

P/2 – Como é que ele era antes? Que tipo de filme que passava? Como é que... mudou muito ele por dentro?

 

R – Mudou um pouco. Agora mudou porque ele agora é da Estação Botafogo.

 

P/2 – Mas ele assim por dentro ele mudou muito? Eles fizeram...

 

R – Mudou bastante...

 

P/2 – Mudou como?

 

R – Mudou a bombonière, retiraram a entrada, modificaram... Passaram mais para frente, para o lado da Cinelândia, lá para frente assim a entrada, para o lado da cabine da polícia... e que a entrada era mais de frente assim para a Mahatma Gandhi, tudo isso! Foi uma modificação. Só que depois que eu saí de lá eu não entrei mais não. Porque eu fiquei com uma saudade assim... aí eu passo às vezes e eu olho e ainda vejo o letreiro assim... Aí eu digo assim: “Ainda tem lembrança desse cineminha!”.

 

P/1 – A senhora lembra de algum filme lá que tenha passado algum filme que tenha enchido muito?

 

R – Sim... Aquele filme do, como é? Do... Van Damme.

 

P/1 – Qual filme do Van Damme?

 

R – É... Não, não era o Universal não... eu sei que lotava quando passava filme dele. Só garotada! Dava muita garotada na época do filme dele. E aquele outro, como é que se chama? É... o... Filme de terror também passava... Mas o filme de terror não dava muito não! E outro filme que passou lá... brasileiro... Navalha na Carne, filme com a Vera Fischer. Que foi muito bom!

 

P/1 – E a senhora ficou quanto tempo lá?

 

R – Eu fiquei no Odeon, assim uma faixa de uns quase doze anos. Aí foi tempo que ele nessa mudança que houve e a gente, por exemplo, na pressão que houve do sindicato, que hoje em dia a maioria sente uma coisa que é pessoa mais adulto trabalha nas empresa, umas modificações que existe - eu não devia nem falar, mas agora que citei, eu tenho que assumir o que falei... - Então o seguinte: aí veio assim um gerente e virou para mim assim: “Maria, eu preciso conversar com você”. Ai eu disse assim: “Pois não!”. “Gosto muito do teu trabalho, da tua maneira de se aproximar dos espectador, do teu jeito, é o seguinte: você não levava a mal não?”. Aí eu disse assim: “Sobre o quê?”. Ele disse assim: “Que eu quero te colocar na diretoria do sindicato, tu aceita?”. Aí eu fui e falei assim: “O senhor está perguntando se eu aceito? Para já!”. Aí ele foi e disse assim: “Só que tu foi... aí chegou o diretor do sindicato e viu tua maneira de trabalhar, o teu destaque e ele escolheu você! E o que é que você me diz? Que a empresa está num perfil, que o seguinte, mais valorizando lá fora de que realmente aqui no Rio, que eu espero que o nome de Jesus, que ele é poderoso, que tenha uma mudança ali naquela Cinelândia, que venha mais cinema para lá, que modifique aquilo ali, com certeza, não só olhe só para fora!”

 

P/1 – Quando a senhora começou a trabalhar lá tinha quantos cinemas funcionando? A senhora...

 

R – Existia o Pathé, existia o Metro Boavista, existia como é? O Odeon. E o Vitória e o Rex - que é cinema pornô, que ainda continua...O Rex continua! - Mas o Vitória acabaram com ele! Agora é estacionamento.

 

P/2 – Mas então... é... nessa hora que a senhora até... desejou que tivesse mudança na Cinelândia essa sua amiga... e tudo... Então que percebia que a Cinelândia naquela época o movimento estava fraco. Era isso?

 

R – Era.

 

P/2 – E... e... a senhora hoje acha que mudou, que não mudou?

 

R – É que existia a Mesbla, e tudo... Hoje em dia existe a Americana, mas você não leva à mal, não quero falar muitas coisa... é sobre isso... os produtos da Mesbla foi uma pena dela ter fechado! Essas coisa toda... Então o seguinte, os produto da Mesbla, muitos melhor do que o da Americana. Com certeza! E o seguinte: tinha o Metro Boavista ali e tinha a Mesbla, aí aquela coisa... E o cinema ali, por exemplo, quando o seu Ribeiro colocava um filme no Odeon, colocava outro no Palácio... e tinha o outro da...da, como é que se diz? Do Metro Boavista também aí tinha o Pathé do lado, e aquela coisa toda... e se tornava uma Cinelândia e agora não! A Cinelândia praticamente não tem cinema. Só tem os dois, o Palácio 1 e o Palácio 2 e então o Odeon. Mas o Odeon é já da Estação Botafogo... que ele arrendou para ele.

 

P/1 – É...

 

R – É como fez na Tijuca

 

P/1 – Como assim?

 

R – Na Praça Saenz Peña...

 

P/1 – Como assim?

 

R – Que acabaram os cinema ali! Lá na Praça Saenz Peña. Agora só existe o Shopping Tijuca e o Iguatemi.

 

P/1 – A senhora sabe alguma história de por quê que acabou os cinemas lá na Tijuca?

 

R – Não... Olha, eu não faço ideia... diz que o pessoal queria mais o cinema de Shopping, mas o que eu vejo no pessoal é que realmente gosta também do cinema de rua... que eles reclamam. Porque praticamente a Tijuca acabou-se!

 

P/2 – Mas por que você acha que as pessoas preferem... algumas preferem o Shopping e outras preferem... você sabe assim... as pessoas falam o porquê disso?

 

R – O porquê é que a tela é mais ampla. É um telão.

 

P/2 – Isto o cinema de rua?

 

R – O cinema de rua. E o cinema de shopping não! São as telas mínimas e é contado. Pode ter uns 350 lugares, 250 é essa faixa. Aí ele olha assim: “Já lotou meu cinema!”. Aí você está trabalhando, mas está preocupado com a lotação do cinema. E ali no Palácio não! Ali você não precisa se preocupar. Você pode mandar quanto você quiser. Você está mandando quanto você quiser, tá mandando, porque ali tem 764 lugares, fora mais uns que tem por lá.

 

P/1 – Só no Palácio?

 

R – No Palácio. No Palácio 1.

 

P/1 – É o cinema que você está trabalhando atualmente, né?

 

R – Isso! Atualmente... Aí você bota o pessoal para dentro sem susto! Porque às vezes as pessoas chegam perto de mim e falam assim: “Você sabe a lotação deste cinema?”. E eu digo: “Não se preocupa gente, que vai caber todo o mundo aqui, com certeza!”.

 

P/2 - E a senhora conhece a história do cinema, do Palácio? Alguém te contou quando ele foi fundado?

 

R- Não. Isto aí nunca contaram não! Só falaram que tinha uma... Um moço outro dia estava falando, um velhinho, que ele mora em Teresópolis, ele falou para mim que ele diz que tinha ali uma mesa de bilhar, em cima... Tinha uma sala... Inclusive ontem o senhor Francisco estava olhando lá para dentro esta sala. Não sei o que é que vão fazer. Porque de repente eles começam a fazer as coisas deles, mais na deles. E sei que ali tinha projeto para botar mais seis cinemas e até agora não surgiu. E já andou eles lá olhando... dona Maria Teresa com a equipe lá medindo as coisa. Veio outro dia lá uma moça tirando foto. Ela tirou foto de tudo lá. Não sei o quê que realmente vão fazer...

 

P/1 – Seis salas ali no Palácio, né?

 

R – É. Ali no Palácio. E ele tem base para isso. Porque ali o cinema é grande.

 

P/2 – Ah! Então a senhora conta pra gente detalhes do cinema? Desde a bilheteria, roleta, escada...

 

R – Aham... escada rolante...

 

P/2 – Pode contar cada parte do cinema, descrever exatamente como é.

 

R – Lá tem a escada rolante. Depois a gente fazia a saída por trás, mas agora ninguém faz por trás. Aí a gente inverte a escada. Aí por exemplo, quando entra a sessão. Aí...

 

P/1 – Esta escada é para qual cinema que ela vai?

 

R – O cinema 2. O Palácio 2.

 

P/1 – O Palácio 2 é menor?

 

R – É. É menor. O maior é o Palácio 1. Aí você vai, aí quando entra a sessão, aí você vai e desliga a escada, fica desligada. Porque quem vir comprar alguma coisa cá embaixo que eu achava assim na minha maneira de ser, por exemplo, se eu fosse um supervisor ou algum coisa, eu ia botar uma bomboniere lá em cima no Palácio 2, porque as pessoas que viessem para comprar já ficava ali naquela bomboniere e comprava as coisas. Por exemplo, como tem na passagem de metrô. Você não olha e não tem aquelas bomboniere? Então aquele espectador que vai passar ali... aquele pessoal que vai passar ali se agradasse de alguma coisa já compra ali. Eu gostaria que ele um dia tivesse essa visão para isso.

 

P/1 – Você viu várias reformas lá, né?

 

R – É.

 

P/1 – Qual é a reforma assim que você achou mais importante... o quê que mudou?

 

R – A limpeza. Para mim a reforma que eles fizeram para mim foi uma limpeza! Retiraram os lustres, botaram uns lustres mais novo... essas coisas.  E a bomboniere, que era uma bomboniere apertadinha, colocaram uma bomboniere mais com espaço, melhor da balconista atender. Ficou com mais espaço para elas passear lá dentro e atender o espectador.

 

P/1 – E as salas?

 

R – E com mais vista... E as salas teve a troca de cadeiras. As cadeiras ficaram melhor.

 

P/2 – E como eram antigamente as cadeiras?

 

R – As cadeiras, o seguinte... já se encontrava em mal estado, já tudo rasgada... aquelas coisas assim... Aí ele teve que fazer uma mudança na época. Aí eu fui, até trabalhei uma semana em Madureira para mudança de cadeira. E as cadeira ficaram melhor. Aí depois ele chegou e botou umas cobrinha no chão que não tinha. Por exemplo, o espectador ia, mas estava escuro o chão aí ele botou assim aquela cobrinha do lado das cadeiras assim... nos corredor para o espectador pisar. Então o seguinte... aquilo ali já deu uma vista no cinema. E eu gostei... e aí o seguinte... continua assim, o pessoal vem e aí olho assim as coisas, se perder alguma coisa assim aquelas luzinhas ajudam a encontrar.

 

P/1 – Vocês já encontram muitas coisas esquisitas lá dentro das salas?

 

R – Como assim?

 

P/1 – É que as pessoas esquecem guarda-chuva... vocês encontraram alguma coisa...

 

R – Não, isto aí é o seguinte: só se fosse na última sessão. Mas aí quem vai pegar, sabe quem? Quem vai fazer a limpeza. E aí as pessoas lembra e volta para apanhar.

 

P/1 – Aham...

 

R – Não são muitas vezes de deixar não. Ontem foi que o rapaz perdeu um anel que tinha comprado para a namorada ontem, no Dia dos Namorados, aí ele perdeu lá. Aí ele voltou lá, aí o rapaz foi lá com a lanterninha aí quando chegou lá, aí o espectador que tinha sentado: “Ah! Eu pensei que isto aqui era coisa de criança, eu joguei aí para trás ou para frente... joguei aí de qualquer maneira, e você depois, agora não pode incomodar, não tá?”. Aí o rapaz desceu com o outro rapaz aí eu fui e falei assim: “Encontrou?” Aí ele disse: “Não encontrei não! Eu vou dar uma volta e depois eu volto!”. Aí eu disse assim: “Mas volta sim! Volta sim, que eu tenho certeza que você vai encontrar”. Aí depois quando ele sa... Antes da sessão terminar, eu disse: “Sobe com ele e dá uma olhada. Fica lá, por que é o seguinte: aí as luzes vai acender e aí vai ficar melhor de enxergar”. Aí levaram a lanterna e quando a sessão terminou aí ele ficou lá procurando. Aí na procura que ele estava procurando aí ele conseguiu encontrar o anel. Aí ele veio feliz da vida e foi, falou assim: “Olha eu não sei nem como te agradecer!”. Aí eu disse: “Não agradeça para mim não! Agradeça para Deus! O importante é que você encontrou e vai dar o presente para a sua namorada. E bom feliz Dia dos Namorados para você!”

 

P/2 – E Dia dos Namorados, como é que é o movimento? Vai muito casal... namorado... no cinema?

 

R – Vai.

 

P/1 – As pessoas ainda vão no cinema namorar?

 

R – Vão! Com certeza. E ganharam flor... e aquelas flores bonita... linda... ontem. E foi uma fila bonita ontem!

 

P/1 – E mudou muito esse... a senhora deve ter pego vários Dias de Namorado, né?

 

R – Com certeza.

 

P/1 – Ao longo destes anos trabalhando em cinema. Hoje em dia é muito diferente do que quando a senhora entrou? Vão mais casais ou vão menos casais?

 

R – Vai. Vai muitos casais. De presente na mão e tudo feliz da vida... sorrindo. Aí fala para mim assim: “Feliz Dia dos Namorados para você! Você que está trabalhando um bom trabalho!”

 

P/2 – Agora voltando um pouco para o espaço do cinema: como é a roleta de cinema? Ainda é aquela de catraca?

 

R – É a de catraca. É. Não é a de pistola. A de pistola é no São Luiz, Largo do Machado.

 

P/2 – Sei. E a bomboniere? A senhora falou que tem... O que vende?

 

R – Na bomboniere de lá só pipoca e refrigerante e mate e água.

 

P/2 – E doce?

 

R – E doce... chocolate.

 

P/2 – E sempre assim se vendeu estas coisas ou aumentaram os produtos?

 

R – Não. Sempre... o que não tinha lá era água e mate. Mas agora depois que fizeram essa reforma que veio outra bomboniere nova aí botaram mate para vender, botaram uma geladeira aí tá lá, porque...

 

P/2 – E qual seus horários assim de maior frequência do cinema, os dias de semana que ele enche mais? Quais as sessões que ficam mais cheias?

 

R – A sessão... promoção.

 

P/2 – Como assim?

 

R – A promoção é na quarta-feira, que ele faz a seis reais e três a meia.

 

P/2 – Sei. Aí então enche mais, de tarde ou à noite, como é?

 

R – Nas sessões às vezes, de, por exemplo, de 6:40, de 6:20, é assim... porque é o horário da sessão.

 

P/2 – Sim. E domingo? Sábado e Domingo enche muito?

 

R – Domingo dependendo do filme. Por exemplo, se o... esse Carandiru, ele foi um filme bem movimentado.

 

P/2 – E qual é a época do ano que tem mais movimento?

 

R – A época do ano que dá mais movimento é, por exemplo, assim... por exemplo, no centro da cidade é mais o final de semana. Por exemplo, sexta-feira, o sábado também dá bastante. E no final do ano as pessoas viaja muito.

 

P/2 – Sei.

 

P/1 – É... Os frequentadores ali do Palácio eles são exatamente de onde? Eles vêm de que bairro?

 

R – Eles vêm ali do centro da cidade...aqueles pessoal, por exemplo, que trabalha no centro, aí às vezes não quer apanhar o horário do rush, aí vem para cá para o cinema.

 

P/1 – Tem de fazer uma horinha para não pegar o engarrafamento, eles vão no cinema.

 

R – Isso. Outros falam assim: “Ah! Eu estou tirando a minha hora de janta e vim para cá”. E às vezes conversa e às vezes está com pressa e às vezes chega lá e sai logo. E aí às vezes o celular toca, aí pede para ir lá na rua. Aí às vezes eu _______________________:[7] ”eu vou para rua, mas eu não vou voltar mais porque a minha hora já terminou”. De forma que é isso...

 

P/1 – E o... E esta questão do celular? Você já viu muita reclamação? Algum cliente já brigou por que alguém estava com celular?

 

R – Não... Por que eles, quando dá o sinal, aí eles saem de sala. Realmente não incomoda não. Porque lá na tela tem um aviso. Fala assim quando começa o filme: “Desligue seu celular. E algum problema de incêndio empurre as portas”. Já tem na tela. Aí fala assim: “Bom filme para você!”. Já tem o aviso. Aí eles desligam o celular.

 

P/1 – E como é que eram as grandes estreias antigamente e como é que são as grandes estreias hoje, assim dos grandes filmes? Por exemplo, assim este Matrix?

 

R – Assim... às vezes o seguinte, eles fazem... por exemplo, já passam, não passam... não fazem as estreias lá no Palácio. Já vem de outro cinema e já entra normal.

 

P/1 – Por exemplo...

 

P/2 – Quando o filme entra no circuito ele não entra direto no Palácio?

 

R – Não. Ele entra direto, não tem a pré-estreia, que foi a pergunta que ele fez.

 

P/2 – Não. Essa do circuito, é pré-estreia, é o lançamento. Mas quando entra em circuito normalmente, uma sexta-feira, eu acredito que seja sexta-feira...

 

R – Isso. Não, às vezes ele faz a estreia do filme, ele faz na quinta-feira, e na sexta-feira ele já entra direto.

 

P/2 – Ah! Entendi.

 

R - É assim... foi a pergunta que ele fez....

 

P/1 – Mas enche muito lá?

 

R – Enche.

 

P/1 – Eles têm algum tipo de promoção?

 

R – Não. Às vezes a pré-estreia mesmo é com convite. Não, às vezes não é vendido na bilheteria. Já vem com os convite.

 

P/2 – Assim, vem muita gente famosa?

 

R – Vem bastante.

 

P/2 – E não tem nenhuma história sobre isto para contar?

 

R – Não. Nesse lado aí é o seguinte: aquele pessoal do centro assim que vem. Aí eles são frequentadores. Sempre ali tem aqueles caras que são caçadores, que querem ficar e entrar na primeira sessão, não assiste o filme, fica para lá e para cá nas cadeiras e essas coisas toda.

 

P/2 – Dona Maria, eu pergunto para a senhora: filmes do tipo Guerra nas Estrelas que agora teve a nova versão, que são filmes que têm muitos fãs... como são os fãs destes filmes quando estes filmes estreiam?

 

R – Esse filme...

 

P/2 – A disputa por ingresso...

 

R – Isso. Eles são umas criaturas que são muito assim... se diverte muito. Aí ri... aquela bagunça...Faz bagunça, mas as bagunça que eles faz é uma bagunça normal para a faixa etária de idade deles.

 

P/2 – E quando eles estão na fila qual é a expectativa deles?

 

R – Você sente aquela emoção forte, que você sente e eles também. Esses jovem.

 

P/2 – E isto comove a senhora?

 

R – Não. Eu fico feliz de ver eles... Ele chega assim para mim, me abraça, me beija. Às vezes o gerente fica me olhando... aí tem porteiro que fala assim: “Você é uma loucura! Você tá mandando em tudo! No dia da tua folga você tem que ficar aqui, não sair para folgar, por que chega aqui todo mundo fica te procurando... os teu fã”. Aí é aquela loucura toda. E eu adoro, né? Eu gosto muito. Sou muito feliz por isso. Porque ele chega, me abraça: “Minha tia querida está aqui! Ai que bom, que maravilha! Me dá um beijo”. Inclusive veio aí a bilheteira, não é assim que nem eu não, ela chega... aí ela tem a cara de pau, assim meio estranha... Aí outro dia um professor, depois que eu descobri que ele era professor, aí ele chegou nervoso e aí foi comprar o ingresso na bilheteria, aí foi e falou assim: “O seguinte: que mulher mal-humorada. Essa bruxa!”. Assim, porque ela em vez de pegar o dinheiro dele em vez de passar assim no vidro e dar na mão dele. Por que eu acho que o dever da gente é tratar as pessoas bem. ______________________[8] ela jogou assim. Aí ele chegou e veio nervoso. Aí eu fiz assim: “Boa tarde, o que é que houve?” Aí ele disse assim: “Viu que voz maravilhosa? Me convenceu?”. Aí eu fui para ele e falei assim: “Mas não fique assim meu negrão, eu estou aqui, eu vou lhe tratar muito e muito bem!” Aí quando foi ontem ele apareceu lá. Aí quando foi ontem ele fez assim: “Não sabia que eu vim aqui pela tua causa?”. Aí eu disse: “Eu não acredito!”. E disse assim: “Foi pela tua causa!”. Aí foi, veio e me deu um beijo. Aí eu fui e dei um beijo nele também. Aí ele foi e disse assim: “Agora eu vou assistir o meu filme”. Foi para aí e daqui a pouco ele só ficou lá dentro só quarenta minutos no Matrix. Aí depois ele veio e disse assim: “Olha, minha linda, eu estou na minha hora, já vou”. Eu disse: “Vai com Deus e Feliz Dia dos Namorados para você!

 

P/2 – Ah! Dona Maria, a senhora falou do Matrix, por exemplo, a senhora... Agora puxando o filme e voltando para a distribuidora... qual seus maiores distribuidores do Palácio? É Fox?

 

R – Isso! São filmes da Fox e tem outra também que eu estou esquecida agora, que eu vou apanhar o filme...

 

P/2 – Warner?

 

R – Isso! É, vamos apanhar lá. Aí é aquele negócio todo. Aí eu mando apanhar o filme pela manhã.

 

P/1 – Eu me lembrei de uma coisa: a senhora estava falando da bilheteira... quantos funcionários tem no Palácio e quais são os cargos?

 

R – Os cargos das bilheteiras?

 

P/1 – Os cargos das pessoas. Tem gerente, bomboniere...

 

R – Encarregado... que chama praticamente chama encarregado... e faxineiro.

 

P/1 – E na roleta? Qual é o nome?

 

R – Ele lá se chama auxiliar... não é porteiro... é auxiliar de servente gerais.

 

P/1 – É...

 

P/2 – Dona Maria, assim... em relação ao pagamento: como é a forma de pagamento dos ingressos? Cheque, dinheiro?

 

R – Não, não tem cheque! É dinheiro à vista.

 

P/2 – Nem débito?

 

R – Não, não. Ele não tem nada disso não... cartão não... só dinheiro!

 

P/2 – Sei.

 

P/1 – Vocês vendem antecipado. Por exemplo, uma estreia...

 

R – Vende.

 

P/1 – Uma estreia dessas grandes.

 

R – Vende no dinheiro e a... por exemplo, a data fundamental, você quando recebe o ingresso prestar atenção na data e no horário que a pessoa vai assistir. Se haver alguma reclamação e aquele cliente te passar para o gerente aí ele vai olhar primeiro a data. Se você olhou a data, aí você, fundamental você olhar isso.

 

P/1 – Quando é que mudou o bilhete de entrada?

 

R – Da entrada aqui agora?

 

P/1 – É. Como é que ele era antes e como é que ele é agora?

 

R – Como ele era antes? Ele era... primeiro ele era na máquina. Aí tinha aquela máquina que batia assim e saía o ingresso. Aí depois mudou as máquinas, aí às vezes quando faltava luz aí ele dava talonário. Era na base do talão. Aí o gerente vinha e contava aqueles talões e tomava nota de quantos ingressos tinha naquele talão. Aí o seguinte: a mesma coisa você que estava na roleta pegava aquele talonário quando a pessoa passava e colocava na urna. Aí quando era de noite no expediente, aí você pegava às vezes, quando ele via que a urna estava cheia, lotada, aí ele pegava um saco e mandava a pessoa tirar. Aí a pessoa grampeava, pegava o saco cheio, para não dar muita pista para... Porque no cinema entra bons e maus. Aí o seguinte: o da frente pagou, passa o livro para eles. Aí mandava tirar aqueles ingressos, enfiava no saco, grampeava e levava para a gerência. Aí você já ficava com aquela urna vazia para receber mais talonário e enfiar ali dentro.

 

P/1 – E hoje em dia como é que é?

 

(troca de CD)

 

P/2 – A senhora podia falar assim rapidamente qual... como a relação patrão-empregado... quais as suas experiências como empregada... funcionária do cinema? O que é mais gratificante em ser... em trabalhar no cinema?

 

R – De gratificante que eu acho é você saber tratar a pessoa bem! Aí você, mesmo que aquela pessoa seja rígido, aí você vai quebrando ele aos pouco... Porque eu já peguei na minha vida gerente rígido, mas eu fingia que não estava escutando nada! Aí o que eu queria era o meu emprego! Eu quero o meu emprego! Então o seguinte: então eu não ia dar pelota para o que ele estava falando. Que se é uma coisa que não ia trazer bem principalmente no meio do meu público. O meu sincero voto é trazer meu público para dentro do cinema. Conquistar meu público e dar a minha atenção, que para mim é fundamental!

 

P/2 – E a senhora tem sua filha... e tudo isso... E a senhora gostaria que sua filha trabalhasse no ramo do comércio?

 

R – Não... aí a uma opção não é minha!

 

P/2 – Talvez até no ramo de cinema?

 

R – É. Não. No ramo de cinema ela nunca... que não... porque ela acha que a carga horária é muito puxada. Porque eu vejo... mesmo a amiga minha fala de serviço, fala mesmo que a carga horária da gente é muito puxada. E outra: é preciso que você se dedique muito! Para gostar da coisa.

 

P/1 – A senhora é casada atualmente?

 

R – Moro com um coroa! (risos). Isso eu não falei para você... agora... nós não fomos em detalhe.

 

P/2 – Então quer dizer que esse seu trabalho toma tempo e altera sua rotina? Sua rotina... É... o que seria normal de sábado e domingo de estar em casa descansando com a família... esse trabalho então impede que a senhora faça esse tipo de atividade?

 

R – Impede. Por exemplo, às vezes na minha filha, na casa dela, às vezes tem festa com a família dela, mas eu não posso ir porque eu tenho que ir trabalhar. E o seguinte, eu não esquento a cabeça, porque eu preciso do meu trabalho!

 

P/2 – E a sua filha frequenta cinemas?

 

R – Frequenta. 

 

P/2 – Seu neto...

 

R – Isso. De vez em quando ele vai... Mas agora ele está estudando, tanto ela como ele, aí dificulta um pouco.

 

P/2 – E assim... O que a senhora costuma fazer nas horas de lazer?

 

R – Nas horas de lazer, por exemplo, no dia da minha folga eu chego em casa, limpo a minha casa... que eu gosto muito das coisa arrumadinha, gosto muito da minha cama arrumada... chego em casa e arrumo... vou fazer uma limpeza na janela... essa coisa! Dá um replay...

 

P/2 – E na hora assim de fazer compras? Onde a senhora costuma fazer compras? Desde o supermercado à roupa, sapato, qual o bairro que lugar que a senhora gosta de comprar?

 

R – Eu gosto assim de comprar assim, por exemplo, eu venho no centro da cidade. Se eu preciso de uma roupa eu vou comprar no centro. Se eu não gostar eu vou no Shopping. Às vezes no Shopping, como é que se diz? Às vezes eu, não me agrada, aí eu venho no centro da cidade e compro.

 

P/2 – E a senhora é uma consumidora exigente, então?

 

R – Não. Eu não sou! Eu sou assim, se a pessoa, por exemplo, eu chego numa loja a pessoa realmente me dá a liberdade para eu escolher eu escolho com calma e me agrado daquilo que eu gosto.

 

P/2 – E agora, a senhora trabalhando em cinema assim a vida inteira... depois que a senhora começou a trabalhar no cinema, a senhora algum dia saiu da sua casa para ir ao cinema?

 

R – Ainda não.

 

P/2 – Nunca?!

 

R – Não.

 

P/2 – Em outro cinema, assim, diferente?

 

R – Não.

 

P/2 – Nunca teve essa...

 

R – Não, não porque existe um detalhe: os pessoal fala assim: “Porra, já trabalha a semana toda ainda vem para o cinema bisbilhotar?”(risos). É, e falam isso. “Realmente vem fazer o quê aqui no dia da folga? Será que não tem um lazer, uma casa para fazer, uma casa para varrer, um tanque para lavar roupa, um ferro para passar?”. Sempre falou isso...

 

P/1 – Dona Maria, o que a senhora acha de ter participado aqui do Projeto de Memórias do Comércio da Cidade do Rio de Janeiro falando da sua experiência como comerciária... o que a senhora achou?

 

R – Eu para te dar esta resposta, eu achei ótimo de você ter me escolhido!

 

P/2 – Mas por quê? O que a senhora sentiu?

 

R – Eu senti que... o seguinte, que eu estou sendo lembrada. Que eu nunca esperava que alguém fosse lembrar de mim e eu estar numa sala de estúdio.

 

P/2 – A senhora nunca imaginou que a senhora também era uma pessoa importante na história da cidade, é isso?

 

R – É. Isso que eu pensava! Mas alguém, mesmo onde eu trabalho falava assim: “Você acha que você, às vezes você pensa... às vezes você está pensando que às vezes você pensa que você não é importante, mas você é importante!”

 

P/2 – Sei. E se a senhora pudesse mudar alguma coisa na sua vida, em relação à profissão e tudo... a senhora mudaria?

 

R – Não. Isso aí, não é eu que de repente me determino. Deus me dá um dom! Que de repente eu possa estar lá e de repente ele me dá um dom e eu tenha que sair dali para outras coisa... Para me dedicar a outra coisa. Aí eu vou ter que ter uma maneira de pensar, uma maneira de ser para me habituar a outro trabalho.

 

P/2 – Dona Maria, muito obrigado por ter estado aqui com a gente, ajudando a gente com esse trabalho dando este depoimento.

 

R – Muito obrigado vocês!

 

P/1 – Muito obrigado, dona Maria, foi muito bom!

 

R – Não sei se terá agradado a minha história, mas... com certeza a minha história é esta! E que Deus nos ilumine.

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