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A luta pelo reconhecimento

História de: Valdelice Fernandes de Moraes
Autor:
Publicado em: 19/12/2014

Sinopse

Valdenice Fernandes de Moraes nasceu em Morada Nova (CE) no dia 13/10/54. A familia mudava muito por causa do trabalho do pai que era policial militar. Quando nasceu, a família se instalou na região. A mãe morreu quando ela era criança, dos 13 irmãos, só quatro filhas sobreviveram. Casou-se com 14 anos, não deu certo, separou-se, teve o primeiro filho, mas ele morreu com pouco meses. Voltou para a casa do pai e lá conheceu seu marido com quem teve seus filhos. Um deles morreu atropelado e o marido de tristeza se matou envenenando-se no túmulo do filho. Após as obras do Pecém, a comunidade começou a reinvindicar a identidade indígena Anacé, uma ancestralidade adormecida na memória dos antigos habitantes da região. Ela nos conta tudo isso com a emoção e o amor à sua terra. 

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História completa

Meu nome é Valdenice Fernandes de Moraes, eu nasci em Morada Nova (CE) no dia 13/10/54. O nome do meu pai é João José Fernandes e da minha mãe Delzuite Lopes de Souza. Meu pai era da Polícia e vivia destacado de cidade em cidade. Às vezes, ele passava era cinco meses num canto e a minha mãe ficava gestante e na cidade que chegava ela paria os filhos. Quando a minha mãe me teve em Morada Nova, meu pai veio pra Fortaleza, pro quartel. Ele deixou a família em Caucaia, Garrote. Eu cheguei com idade de quatro anos aqui. A nossa casa era de taipa. E já tinha os 13 irmãos. De quinze só ficaram quatro. Quatro filhas.

Nossa infância era muito boa. A gente ia pras moitinhas, brincava com boneca de pano, quem fazia era a minha mãe. Brincava de ciranda. Hoje em dia não tem mais. Tinha uma senhora de idade que ela ensinava o ABC em casa, mas cheguei a ir pra escola. A professora não tinha ganho, ela ensinava voluntário, porque gostava de educar mesmo, pro desenvolvimento das crianças, pra saber ler, escrever, ter mais conhecimento. Eu fiz até o terceiro ano. Eu parei, não queria estudar, eu queria era ajudar a criar os meus irmãos que foi o tempo quando a minha mãe morreu. Eu era pequena. Ficou tudo só pelas nossas mãos e do papai.

Ele chegou a se juntar com uma prima do meu esposo, pai dos meus filhos. Eram primos, ele e a minha madrasta, passaram 15 anos juntos depois se casaram. Ele já tinha família com ela, quatros filho também. No início foi muito bom, mas, depois, não foi bom, não. Porque ninguém se dava muito. Porque quando se fala de primeira e segunda família não tem mais aquela união. Nós já não tinha mais o direito como os novos, a segunda achava que tinha mais poder. Ele se aposentou cedo, após um acidente com ele, uma virada de um transporte quando ele tava sendo transferido de um lugar pra outro, aí ele ficou com uma fratura na bacia. Ele gostava muito era de pescar e caçar. Na época tinha camarão, tinha siri, tinha saúna, as carapebinha pequena, vários tipos de peixe diferente. Era no rio do Cauipe com a água que entrava da Barra. A Barra recebe água da praia.

Tinha os terços, tinha as novenas, tinha os rosários de Nossa Senhora da Saúde; tinha o rosário que a Santa protetora da vista, que é a santa Luzia. Nessa época tinha festa dessa padroeira, tinha leilão. Era uma festa. Tinha São José, que é o protetor do inverno, se o inverno tivesse demorando as pessoas roubavam o São José, escondiam numa casa. Era uma espécie de promessa. Meu pai plantava roça [de mandioca], feijão, milho. Era jerimum, era melancia, tudo isso ele plantava. Nós arrancava dez cargas de mandioca. A gente levava pra casa de farinha e arrumava quatro parenta e misturava tudo e a gente danava pra raspar.

Eu com 14 anos eu saí de casa, eu tive o meu primeiro casamento. Aí não deu certo. Eu conheci ele num forró. Meu pai não queria e eu bem teimosa, eu digo que “sim” e, aí, não deu certo. Tive o meu primeiro filho, mas quando ele tava com um mês ele morreu, não chegou nem a batizar. Não registrei, não teve registro.

Eu voltei pra casa do meu pai e lá foi melhor. Chegou o primo da minha madrasta, eu conheci ele, ele simpatizou por mim. Ele até perguntou ao meu pai, ele disse “eu simpatizei muito com a sua filha e eu queria muito viver com ela, com a continuação, com a convivência, a gente se casa”. Meu pai falou “eu preciso de um tempo, eu vou preparar ela primeiramente”. Ele disse “tá certo” [sim], eu de Caucaia vim pra cá, pra Matões. Quando eu cheguei à Matões, aí era só mata e areia.

Quando eu cheguei era muito difícil, aqui era mata, não tinha transporte, os transportes era cavalo. E eu digo... Quando a gente gosta, que tem amor, a gente vai longe, não quer saber que jeito é. E quando eu cheguei aqui, enfrentei a vida. Uma casinha de palha, só duas paredinhas de palha, tudo no aberto. Vim passar a morar com o meu sogro, porque ele não tinha esposa que morava com ele, só morava eles dois. Ele [o marido] arrumou mais palha, foi na mata, tirou madeira, fez um quarto só pra nós dois e aí eu passei a morar com ele e, Graças a Deus, até hoje eu vivo aqui.

Nós casamos no Siupé, São Gonçalo (CE). Nessa época que eu me casei eu tava de resguardo de um menino, do Júnior. Meu marido dizia assim “nossos filhos precisam estudar vai que precise de um casamento. E, com o tempo, Valda, quem sabe se pede o registro desse menino, eu pretendo muito casar com você”. Aí, casamos.

Eu fui e disse “olha, quando a gente passa a viver marido e mulher e construindo família, tem que ter um canto. Vamo sair daqui, deixe seu pai só e vamo ter o nosso canto”. Aí, ele foi e disse assim “mas eu não tenho condições de fazer uma casa.” “Pra que? Não precisa gastar dinheiro, nós tem coqueiro e tem palha. Nós tem as matas, nós tira pau no mato. Tem cipó no mato, a gente vai, eu vou mais você tirar também. E vamo fazer e vamo morar nós dois”. E nisso nós fizemos. Fomos na mata, tiramo pau; fomos nos coqueiros e tiramo palha, viramos a palha, tirou cipó, muito ramo de cipó pra amarrar. E fizemos a casinha.

Tudo aqui era mata grande. Era vereda, aqui não tinha estrada e a gente passava pelas veredas era dessa jeito, parece um túnel. A gente olhava, assim, só via era os passarinhos.

Pra ter os filhos, eu fui pra casa do meu pai. A minha madrasta disse que não era pra eu ficar aqui, porque ela já conhecia: “não, é muito difícil, se acontecer alguma coisa com você, na hora do seu parto, como é que vai ser? Nós vamos levar ela pra lá”. Quando eu tava já bem pertinho de ganhar, já muito pesadona, na época do inverno pesado, atravessando lagoa, porque daqui pra apanhar o carro era uma lagoa muito grande. Eu atravessei com água nos peitos pra sair na outra vereda lá, pra apanhar, longe que só. Mas, aí, eu fui pra casa do meu pai. Quando eu ganhei essa minha primeira filha, eu vim com 15 dias de resguardo, atravessando a areal, mas não trazia nada. A minha irmã veio me deixar, minha irmã mais velha, e ele [o marido] ainda levou um jumento, os caçuás pra trazer as coisas, porque não dava pra trazer. Veio no jumento e a menina veio no meio da carga. A carga bem forradinha e as coisas da menina no outro caçuá e ela veio cobertinha.

A gente ia no escuro, a gente tinha a vista boa, já sabia dos piques, das veredas e não fazia medo, não. Tinha lamparina, o querosene a gente comprava. Aí, o meu marido que fazia as lamparinas e eu fazia os pavios com algodão.

Nós plantava feijão, milho, plantava batata, plantava roça, plantava jerimum, plantava melancia, tudo. Tudo tinha. Nesse tempo, desses plantio grande que nós já fazia, já tava bem avançado, a gente vendia, porque ninguém podia consumir tudo e todo mundo plantava e todo mundo tinha. Levava pro Pecem, a gente trocava por peixe. Meu marido era agricultor. Eu tive sete filhos, só fiquei com três, os outros morreram. Eu tanto queria hoje em dia só tenho só dois. Que às vezes eu fico me lamentando “se eu tivesse meus sete filhos era tão bom”. Mas, Deus sabe o que faz. Deus sabe.

Meu filho Jonas morreu quando tinha 15 anos. Foi atropelado por um carro na rodovia. Meu marido ficou em depressão, tinha dias que ele tava mais alegre, tinha dias que ele tava mais triste, até que chegou o ponto dele mesmo se matar. Ele queria muito bem os filhos, principalmente esse, e ter morrido uma morte tão trágica, que ele disse que foi uma coisa que ele nunca na vida dele pensou. Ele se matou envenenado, lá na catatumba do meu filho. Ele mesmo se engavetou lá dentro, ele mesmo se matou lá.

Aqui os mais antigos eles sabiam que aqui era uma terra indígena. Eles tiveram medo, porque teve um derrame de sangue muito grande porque não aceitavam o que é índio, ser índio. Teve uma briga muito grande. Aí, eles [os anacés] foram embora, pro Matão, Bolso, Japuara, Santa Rosa, Tabuleiro Grande. O que veio fazer o povo se alevantar e se fortificar na luta foi através do porto do Pecém. Eles [o pessoal empreendimento do Porto do Pecém] vieram, assim, de uma vez, um dragãozão, pegando os que moravam aqui, no Butiri, Gregório, por aí todo, foram os primeiros povos a sair daqui, que eles chegavam e diziam assim, ó “essa terra aqui vai ser indenizada, vocês vão sair daqui porque vocês não podem ficar aqui, vem esse porto, esse CIPE entrando, aí, de goela adentro e vocês têm que sair, vocês vão ser...”, inocentemente, que aqui era uma parte de sitio muito grande, muito, muito, o povo era rico pra dizer assim, se orgulhar, porque tudo tinha.

Eu não sabia diretamente, não [que era Anacé]. Mas sabia o meu sogro sabia, mas ele não dizia o nome porque tinha medo. Foi chegando os missionários da Igreja católica, foi fazendo estudo, foi pesquisando, vindo, passava semana aqui nas casa, ouvindo os mais antigos, os mais velhos, procurando saber como era a vivência deles, tudo.

Depois veio os geólogos, veio ver, estudar, fazer escavação pra ver se encontrava alguma coisa indígena, que na realidade encontraram muita coisa. Eles encontraram foi urna, umas pá de urna de barro.

Depois da construção do Porto avançou muita coisa, que ninguém conhece, o perigo da estrada, acidente, prostituição, muitas drogas porque aqui não existia nem ninguém que falava. Muitas mortes aqui devido às caçambas. Ave Maria, aqui eu vivo assustada.

A gente vai ser realocado daqui pra uma reserva indígena lá no alto do Garrote, fica perto do cipó, aonde é o cemitério do Caranguejo, naquela região.

No inicio, eu dizia que não ia, não. Eu fiquei, assim, quase doida, eu vivia era só chorando e pensando, pensando “meu Deus, como é que eu vou sair daqui? Como é que eu vou deixar isso aqui pra ir embora pra um canto que eu não conheço? Eu não conheço ninguém, só os parentes que mora um pouquinho distante, que os parentes da Santa Rosa, Japuara, Tabuleiro Grande. Será que tem as plantas que eu tenho conhecimento? Aqui tem a janaguaba. O leite da janaguba ele é ótimo pra gastrite, pra inflamação. Tem a embiriba. Ela serve muito pra dor de cólica, pras mulher. A erva mijona. Ela serve pra quentura nas urina, junto com a vassourinha.

Depois do Porto e da rodovia o que mudou foi a parte de Educação. Os filhos se educaram mais, terminaram os estudos, desenvolveram mais, uns faz curso, uns faz faculdade, já tem um trabalho e antigamente não tinha. Por esse ponto aí é o crescimento. Isso é o desenvolvimento dos filhos e abandonaram a roça, que eles não querem. Meu filho Júnior trabalha de técnico em Enfermagem com a equipe indígena. Com o nosso povo, Graças a Deus, que ele conseguiu pra trabalhar com o nosso povo mesmo, Anacé. A minha filha, a Maria, ela tá com dois anos que ela conseguiu outra pessoa e foi morar no Sul. Ela tá em Minas.

Não é com todo mundo que a gente conversa. Pra quem conheceu do início sabe, mas pra hoje é muito tempo. Lembrar o que a gente passou até agora, mostrar aquela luta, coisas boas, coisas más que passou pelo meio de toda história e de toda vida. Porque passei muita coisa boa, mas também passei muita coisa difícil dentro desse tempo, desse longo tempo, porque quase 40 anos, falta pouco tempo pra mim completar os 40 anos que moro aqui. É muito tempo. Mas tô contente que ainda tô contando a história.

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