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História

"Eu não vi o século passar, não"

História de: Germano Araújo da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/06/2005

Sinopse

Mãe indígena. Pai africano. Nasce sob a Lei do Ventre Livre. Início de Vitória da Conquista. Pai e mãe morrem enquanto ainda é pequeno. Criado pela avó. Tio liquida com a herança. Mudança para a casa do padrinho. Traquinagens. Resgate dos negros em castigo. Sonho de roça. Fuga para Pernambuco. Puxador de gado como ferrão. Primeiro casamento com a sobrinha do patrão. Doze casamentos e 68 filhos. Vinda para São Paulo aos 91 anos. Construção do barraco. Doações na feira. Águia.

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História completa

Meu nome é Germano Araújo da Silva. Nasci em Vitória da Conquista, Bahia, no dia 22 de agosto de 1875, dentro do cativeiro, mas não fui cativo. Nasci já na Lei do Ventre Livre. Quer dizer que ali, já era independente, não fazia nada. Quando a Princesa Isabel deu liberdade aos negros, eu tinha treze anos.

 

O nascimento da minha mãe e da minha avó era aldeia de índio. Meu pai era de Portugal. Ele veio pequeno, novinho pra ser vendido no Brasil. Ele veio pra trabalho. Quando chegou no meio da estrada, meu pai era esperto, uma noite, os português tavam fazendo as contas quanto dava de dinheiro nos negro aqui no Brasil. Aí ele falou: “Poxa, a gente vai ser vendido”. Ele pegou as trouxinha dele e “ssh” “dendo” mato. Quando foi de madrugada, danou a procurar aqui e acolá. “Num achou o  nego. Acho que saiu por aí e a onça pegou”. Ele pegou o carreirinho e saiu numa fazenda, e ficou por lá, trabalhou um bando de tempo. E daí, veio andando a pé, trabalha num canto, em outro, chegou dentro do Brasil mesmo, em Vitória da Conquista, na aldeia dos índios. Aí ele ficou por ali e já existia cativeiro, mas ele tava sozinho. E ali ele casou com minha mãe. Mas ele era dos africanos de Portugal.

 

Ele morreu com 130 anos. Eu era pequeno.  Meu pai foi casado três vezes. Tenho irmãos que nem conheço. Meu pai era “reprodutor”.

 

Minha avó era índia. Pegava flecha, ia pro mato, velha “corajuda”. Enfrentava caça. Chegava com viado. Quando dava jeito, achava uma onça. Ela matava e depois mandava ir buscar. Não tinha medo. Mas, vivia de mão em mão dos brancos. Era parteira, analfabeta e morreu com 140 anos. Tinha até rendeiros e criação. Quando minha mãe morreu, ela ficou tomando conta da gente até morrer. Aí, meu tio ficou sendo tutor e acabou com tudo: fazenda, gado, égua, área que tinha animais cavalar. A gente era pequeno e herdeiro, ele comeu o que era nosso e o que era dele. Morreu na miséria. 

 

A minha infância era trabalhar em cultura, com roça, com gado, montar em burro e amansar a burrada brava, puxar gado pra fazendeiro. 

 

Fui criado por um padrinho. Quando ele me tomou, eu tava com idade de uns oito anos, mais ou menos. Ele me botou no cabeçote da sela, na frente - tava chovendo - me enrolou todinho com uma capa, só o narizinho de fora, o botão da capa fazia eu tomar fôlego. 

 

E depois, com dez anos, eu era muito traquina. Ia pra manga juntar as éguas – pegava água em um poço, e o poço criava muita tabúa - esse mato bravo que dá dentro d’água - e a represa era muito funda. O direito era só botar os animais pra beber ali naquele canto. Eu chegava perto e fazia as éguas quebrarem aquelas cerquinhas pra eu ver elas nadar. As éguas endoidavam, animal “brabo”. Morria potro afogado. Aí eu pensava que isso não era descoberto, mas as paredes tem ouvido. Nego tava “assuntando”. Quando o meu padrinho vinha pra casa, já tava sabendo. Aí, me levava pro couro. Era uma dúzia de bolo nessa mão, palmatória de braúna, e uma dúzia nessa. Resultado: apanhando consertei um pouquinho. 

 

Com doze anos, eu ia pra manga juntar vaca. Mas eu gosto de roça, não gosto de ficar mexendo com gado. E já veio aquele outro pensamento em plantação quando eu via aqueles feijões maduros, tudo verdinho.  A gente plantava pro meu padrinho. Eu falei: “Ah, vou fazer uma roça pra mim”. Era meu sonho. Tinha um cavalo velho, eu montava, juntava as vacas, ia lá na despensa, roubava os feijões crus, enchia os bolsos, a algibeira, os bolsos da calça, e saía feito um louco. Aí, quando eu via aquela terra bonita, toda limpinha, largava a vaca, levava o cavalo dentro do mato pra eles não dar fé, examinava, entrava na roça e ia semear feijão. 

 

A chuva bateu e esses feijões nasceram todinho. “Minha roça tá uma beleza!” Quando foi um belo dia, o filho mais velho dele falou: “Vou no arrancador. Se a cerca tiver ruim, vou fazer o retoque pra fazer plantação”. Aí, quando chegou longe, num boqueirão, viu aquele verdão. Quando voltou, falou pro pai: “O roncador encheu de feijão. Parece um mistério de Deus”. “Foi você, Germano?” Eu não podia mentir. Mentira não presta: “Oh, meu padrinho, fui eu”. Todo mundo foi ver essa roça. Aí o velho: “quando chegar em casa você vai descontar novos e velhos”. Quando falava descontar “novos e velhos” era pra apanhar muito. Aí os cunhado deles, que tava lá, falou: “Não, dessa vez ele não apanha. Se o nego tem vontade de trabalhar, é o sonho dele, é o destino dele”. Aí ele pensou: “É, tá certo”. Colheram oito sacos desse feijão. 

 

Depois disso, aconteceu uma besteira que eu nem sei, foi a filha dele, inventaram lá. Acho que eu não tinha feito aquilo. Mais, todo mundo me condenou e meu padrinho queria me bater, porque toda a traquinagem quem fazia era eu mesmo, quando apareceu o que o outro fez, achou que foi eu. Eu falei: “Vou apanhar injusto? Vou embora”. Aí eu fugi de noite. Andei duas léguas, fui pra casa do meu tio. E esse velho me rodou e eu não queria voltar. Minha vó falou: “Ele vai, mas se você bater nele, vai ter agora comigo”. 

 

Com treze anos, roubei muitos negros. Eu, mais outro cara, pegava aquele arco de barril e uns “farrachinhos” de ferro, amolava e ia pro mato com as flechas caçar, e lá a gente dava no túnel dos negros. Tava moleque amarrado no tronco, na cruz. A gente chegava de ponta de pé, a noite, o cara estava dormindo, roncando e o pobre coitado pendurado. A gente metia a corda no “farrachinho”, cortava, nego não via, a gente arrastava e levava pra aldeia. Eu fazia muita traquinagem, livramos muitos negros. E quando jogava na aldeia, o patrão falava: “Meus meninos achou uns negro lá no túnel e trouxe pra cá. Fala com Fulano que vem cá”. Aí, aquele que comprava os negros quando chegava: “É esse negro aí que você tava com ele amarrado, surrando, você ia matar ele?” “Não! Só tava dando um couro, só era um castigo”. “Você que é Fulano?” “Não quero ir não”.“Então fica aí. Entra lá, vai pra aldeia”. Nego voltava pra aldeia. Eles voltavam calados, iam embora. 

 

Com catorze anos, fugi pra Pernambuco. Depois que completei idade, não sei se foi com 21 anos ou 22, casei com uma sobrinha do meu patrão. Era uma brancona, loura, não sei como é que ela entusiasmou no nego. Nesse tempo eu já tava bem, tinha a minha roça, trabalhava por minha conta e ajudava o patrão. Tomava conta de tudo que era dele. Eu sempre era encarregado de puxar o gado pra Salvador. Nunca gostei de ser boi, sempre gostei de ser ferrão (risos). Eu mandava meus vaqueiros, pegava as boiada, levava lá pro pessoal, por minha conta, eu que escolhia, eu quem apanhava, eu que mandava. Só era mandado do patrão.

 

Era um preto lustroso, lindo. Tinha uma dentadura, quando eu sorria aquilo parecia que brilhava. E eu andava todo bacana, usava roupa de linho. Só não sabia ler. 

 

Eu fui casado 12 vezes. Com a primeira mulher, tive cinco filhos. Com a outra, são três. Com outra, quatro. E foi tocando. Com essa de agora, sou ajuntado tem trinta e tantos anos, nem conto quantos filhos são porque alguns morreram. Ao todo, dá mais de 68 filhos. Eu gostava de trabalhar e não podia ficar sem a família. 

 

E vim pra São Paulo pra trabalhar. Falavam que davam muito trabalho aqui. Ainda mais pra gente velha. Eu chegava e arranjava um trabalho pra zelador, pra vigia, ou pra qualquer coisa. Quando eu cheguei aqui, fui pedir trabalho na prefeitura. O prefeito falou: “Você tá muito velho, ninguém vai lhe dar trabalho”. Eu tava com 91 anos, mais ou menos.

 

Ninguém me dava trabalho. Eu morava num barraquinho de tábua alugado. Dentro do esgoto, quando a água vinha, carregava tudo o que a gente tinha. Um dia cheguei numa firma e pedi trabalho. “Eu vou lhe dar madeira procê fazer o barraco”. Ele me deu madeira, telha, prego, madeirite. Mas o terreno que eu achei, era comprado, mas peguei terra dos outros. Cheguei, invadi e fiz meu barraco. O terreno era muito grande, encosta um, encosta outro. Virou uma favela. 

 

Então, eu via aquelas pessoas pedindo na feira: “Vou pedir também”. Mas eu pedia tão sem graça, não tinha jeito. Chegava: “Senhor, dá uma esmola pra mim?”. Não sabia pedir dinheiro, então pedia na banca. “Toma, véio”. Quando enchia o saco de laranja, banana, corria pra de verdura. Arrumava batatinha, chuchu, couve, alface, coentro. Quando chegava nas bancas de carne, frango, peixe, pegava duas bacias. Botava tudo misturado no carrinho de mão. Chegava, dividia aquilo com os vizinhos. Aí, eu fiquei águia, sendo chefe dos esmoler. O meu conhecimento é tão grande que chego nas bancas não precisa nem pedir, ele já vai pegando e botando no saco. 

 

Mas eu não quero isso mais. Quero cumprir com o meu sonho. Ainda sou forte. Quero acabar de criar os meus netinhos na Bahia. Acabar meu resto de vida lá, sossegado, na minha roça, plantar meu pezinho de feijão, meu milho, minhas batatinhas, minhas caninhas, tirar minha garapa no engenhozinho, beber meu caldo de cana, criar minhas galinhas, meus porquinhos. Tô com uma carta pra botar na “Porta da Esperança” pra ver se compro um terreninho, uma chácara na Bahia. É isso que eu quero: Morrer descansado, no meu cantinho, na roça. É o sonho da minha velhice. 

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