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História

O trem da alegria

História de: Caetano Pontes Cordeiro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/05/2014

Sinopse

Em seu relato, Caetano Pontes Cordeiro relembra momentos de sua infância em família quando morava em um sítio, seu trabalho como coroinha, passador do jogo do bicho e como ele aprendeu o alfabeto Morse. Detalha seu tempo de trabalho na Rede, tempos em que quando o trem chegava no sertão “era uma festa”. Trabalhou como telegrafista, manobrista, vendedor de bilhetes, despachador de mercadorias e agente noturno, entre outros cargos até chegar a chefiar a estação de Afogados da Ingazeira em 1962.

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História completa

 

P/1 – Boa tarde, senhor Caetano, para início de conversa, eu gostaria que o senhor dissesse seu nome, local e data de nascimento.

 

R – Caetano Pontes Cordeiro, nascido em 26 de abril de 1929, São Caetano, Pernambuco.

 

P/1 – Qual é o nome dos seus pais?

 

R – Meu pai, Joaquim Cordeiro de Micena, e Quitéria Tereza de Pontes.

 

P/1 – Qual era a atividade deles?

 

R – São Caetano, Pernambuco.

 

P/1 – Eles nasceram em São Caetano?

 

R – Foi.

 

P/1 – Qual era a atividade deles? O que eles faziam?

 

R – Meu pai era agricultor e minha mãe doméstica.

 

P/1 – Com que tipo de agricultura o pai do senhor trabalhava, o que ele plantava?

 

R – Milho, feijão, mandioca.

 

P/1 – Ele plantava num sitiozinho próprio?

 

R – Exatamente.

 

P/1 – Então...

 

R – Era, ele pôs o nome de Lamarão

 

P/1 – Lamarão?

 

R – O sítio.

 

P/1 – E o que significa Lamarão?

 

R – Não sei, sei que era o nome do sítio (risos).

 

P/1 – Esse sítio era próximo de São Caetano?

 

R – Seis quilômetros.

 

P/1 – Seis quilômetros. Eles nasceram em São Caetano também, né?

 

R – Foi sim.

 

P/1 – O senhor chegou a conhecer os seus avôs?

 

R – Apenas um avô.

 

P/1 – Que era pai de pai ou pai de mãe?

 

R – Pai de minha mãe.

 

P/1 – Como é que era o nome dele?

 

R – Agora...

 

P/1 – Não tem problema se o senhor não se lembrar. O senhor sabia o que ele fazia na época?

 

R – Ah, tudo agricultura, porque lá no sítio não tinha outra coisa, era agricultura, né?

 

P/1 – Esse sítio era do seu pai? Ou era do seu avô?

 

R – O de meu avô era num canto e o de meu pai era no outro, né? Eram seis irmãos, tudo morando ali perto, uma questão de 500 metros. Tudo ali na redondeza.

 

P/1 – Ah, então era um sítio de vários irmãos próximos uns dos outros?

 

R – Exatamente, exatamente.

 

P/1 – Todos eles plantavam agricultura de subsistência?

 

R – Tudo, tudo, porque não tinha outra coisa lá, né?

 

P/1 – O senhor tem irmão, senhor Caetano?

 

R – Irmão?

 

P/1 – Irmãos.

 

R – Vivos?

 

P/1 – Em quantos irmãos vocês são? Vivos e mortos.

 

R – Eram seis irmãs e um irmão. Hoje tem apenas três irmãs vivas.

 

P/1 – E o senhor era o mais velho?

 

R – Sou abaixo de meu irmão e sou intermediário de minha irmã. A minha irmã no próximo dia 16 está completando 85 anos. Depois dela, tem outra e depois tem a outra ainda, que é a caçula.

 

P/1 – Então, o senhor tinha uma irmã mais velha, depois o seu irmão, depois o senhor, é isso?

 

R – Não, irmão mais velho era mais velho, irmão esse que faleceu já, agora vivo só tem três.

 

P/1 – Ah, está certo. O senhor e mais duas irmãs?

 

R – Exatamente.

 

P/1 – O senhor nasceu nesse sítio, senhor Caetano?

 

R – Foi sim.

 

P/1 – Como é que era esse sítio? Conta para a gente. Como era a casa?

 

R – Olha, há 81 anos, tudo era difícil. Contam até que me batizaram na cidade de São Caetano e que eu fui num balaio. Balaio é um cesto, entendeu? Não tinha transporte. Eu fui conduzido num balaio para me batizar, em São Caetano, na cidade, né?

 

P/1 – Esse balaio foi no lombo do burro?

 

R – Não, na cabeça deles (risos).

 

P/1 – Então, o senhor foi ser batizado em São Caetano e foram no burro?

 

R – Não, fomos a pé.

 

P/1 – A pé mesmo?

 

R - É. Seis quilômetros, naquele tempo, todo mundo andava a pé, né?

 

P/1 – Como é que era essa casa lá? Lá no sítio?

 

R – De taipa, uma casinha modesta, né?

 

P/1 – Não tinha luz?

 

R – Ah, na cidade, foi ter luz tem 70 anos, né...

 

P/1 – E a água também, como é que o senhor pegava?

 

R – Tinha barreiro.

 

P/1 – Era um poço?

 

R – É, lá perto de casa também tinha um tanque, era justamente onde juntava água, né?

 

P/1 – Como é que o senhor passou a infância nesse sítio? Quais eram as brincadeiras? O senhor tinha alguma obrigação para fazer enquanto criança? Como é que era?

 

R – Era estudar. A escola ficava próxima e a professora era a prima minha, né? Depois do estudo era brincar.

 

P/1 – Então, o senhor ia para a escola, que era uma escola rural, que tinha próxima e a professora era a sua prima? Como é que era o nome dela?

 

R – Albertina Teles de Pontes.

 

P/1 – E o senhor estudou nessa escola até que ano?

 

R – Até 1940, quando nós mudamos para a cidade.

 

P/1 – O senhor fez o primário e uma parte do ginásio lá?

 

R – Eu fiz a parte do primário lá e terminei na cidade de São Caetano.

 

P/1 – E o senhor ia para a escola de manhã ou à tarde?

 

R – De manhã.

 

P/1 – Quando o senhor voltava da escola, o que o senhor fazia? Como é que era o cotidiano dessa casa?

 

R – Era brincar, né? Dez, 11 anos, 12, era brincar.

 

P/1 – O senhor brincava com o quê?

 

R – Cavalo de pau (risos) e, às vezes, tinha que ajudar o velho a limpar mato. Eu não gostava muito não, mas limpava o mato com a enxada, né?

 

P/1 – Essa brincadeira de cavalo de pau como é que era?

 

R – Montava um pau aqui e saía correndo por aí com os outros, com os coleguinhas.

 

P/1 – E o senhor brincava com quem nessa região? Quem eram os seus amigos?

 

R – Os primos.

 

P/1 – Todos os primos?

 

R – Todos primos.

 

P/1 – Como é que era, na casa do senhor, todos almoçavam juntos, jantavam juntos?

 

R – Tudo junto, café de manhã, tudo junto.

 

P/1 – Tinha esse hábito?

 

R – É.

 

P/1 – Eram obrigados todos a almoçarem e jantarem juntos?

 

R – Dormia cedo porque não tinha luz, era no candeeiro, então, dormia cedo.

 

P/1 – Quais que eram as comidas feitas na sua casa? O senhor lembra de alguma que o senhor gostava mais ou alguma comida típica pernambucana que era feita nessa época?

 

R – Era feijão, arroz, xerém...

 

P/1 – O que é xerém?

 

R – É comida de milho. Macaxeira...

 

P/1 – Só vai milho no xerém?

 

R – Vai água, sal, né? (risos) Para poder cozinhar.

 

P/1 – É como se fosse um fubá ou não?

 

R – Exatamente.

 

P/1 – O que mais que tinha, senhor Caetano? Do que o senhor lembra das comidas que eram hábito na sua casa?

 

R – Era somente isso mesmo.

 

P/1 – Tinha algum hábito ou algum costume que os seus pais faziam com que vocês seguissem, que ele achava importante?

 

R – Apenas a gente ia ao fim de semana passar o sábado e o domingo na cidade, ia todo mundo, e, na segunda-feira de manhã, a gente voltava. Quando tinha uma festa, a gente vinha com um sapatinho no dedo, né? Porque a viagem era longa, a pé. A gente ia para a festa, mas tinha que voltar no outro dia, a pé.

 

P/1 – Quais festas eram essas que o senhor ia lá?

 

R – Festa do padroeiro, sete de agosto.

 

P/1 – Padroeiro, qual era?

 

R – São Caetano.

 

P/1 – São Caetano. Era uma festa religiosa?

 

R – Era.

 

P/1 – O que tinha nessa festa? Conta para gente um pouco. Como era essa festa?

 

R – Era carrossel movido à mão (risos), empurrão, né? Balanço...

 

P/1- Tinha missa?

 

R – Missa à meia noite, é.

 

P/1 – Ah, tinha uma missa que era rezada à meia noite?

 

R – Era, era.

 

P/1 – O senhor, quando ia para São Caetano, ficava na casa de quem?

 

R – De um tio. Ele cedia lá tipo um armazém e a gente ficava lá, passava sábado e domingo e, na segunda-feira, retornava ao sítio.

 

P/1 – E se alimentavam onde? Vocês tomavam café, almoço, jantar na casa desse tio?

 

R – Na casa mesmo, lá onde a gente estava dormindo.

 

P/1 – O seu pai resolveu sair do sítio e ir para a cidade por quê?

 

R – Para ver se melhorava a situação, porque sete pessoas num sítio, né? Tinha que mudar de lugar porque precisava estudar e trabalhar. Éramos pobres, graças a Deus, somos ainda pobres, mas ajudamos sempre os velhos para não ficarem sobrecarregados.

 

P/1 – Como é que era a cidade de São Caetano nessa época?

 

R – Muito atrasada, né?

 

P/1 – Ah, é? Era uma cidade pequena?

 

R – Pequena, é.

 

P/1 – As ruas eram asfaltadas?

 

R – Nada, depois de muito tempo, a rua principal era tanta pedra...

 

P/1 – Ela era uma cidade que ficava perto da linha do trem?

 

R – Ficava.

 

P/1 – Ela tinha algum comércio? Ela era uma cidade que tinha alguma atividade de comércio?

 

R – Tinha as pequenas lojinhas, tecido, mercearias, naquele tempo era bodega.

 

P/1 – Nessas bodegas vendiam de tudo? Como é que era?

 

R – Tudo, é.

 

P/1 – Vendia o que nessas bodegas?

 

R – Açúcar, arroz, feijão, carne de charque, quase só existia carne de charque.

 

P/1 – Material de limpeza também era vendido ali?

 

R – Tudo, é.

 

P/1 – Ferragem também se vendia?

 

R – Tudo era, né?

 

P/1 – E vocês foram morar onde nessa cidade?

 

R – Numa casinha que a gente comprou.

 

P/1 – O seu pai vendeu o sítio então?

 

R – Vendeu, quer dizer, ele foi arrendado, depois, a gente comprou a casinha, né?

 

P/1 – E o senhor foi estudar num colégio, é isso?

 

R – Lá na escola pública.

 

P/1 – Como é que era o nome dessa escola, senhor Caetano?

 

R – Escola Professor Agamenon Magalhães, Grupo Escolar Professor Agamenon Magalhães.

 

P/1 – Como é que era essa escola? Conta para a gente. Ela era grande, pequena? Tinham muitos alunos?

 

R – Tinham muitos alunos e era até grande, talvez, tivesse umas oito salas, parece. Eu terminei o primário e fui estudar particular, com uma professora lá. Agora, eu fui obrigado a trabalhar porque a gente na cidade tinha que trabalhar, né? Não tínhamos condições de sobreviver sem trabalhar, então, quando a gente chegou à cidade, eu fui ser coroinha, não sei se você sabe o que é coroinha, ajudante do padre, celebra a missa. Depois, fui passar bicho...

 

P/1 – O que é passar bicho?

 

R – Vender bicho, esses que é clandestino por aí (risos).

 

P/1 – Ah, o senhor foi vender o jogo do bicho?

 

R – Em 1945, o governo fechou o jogo. Aí, eu parti para praticar na estação ferroviária de São Caetano, passei oito, dez meses enquanto me adaptava, aprendia, o serviço, porque, fundamentalmente, era aprender o alfabeto Morse. Conhece o alfabeto Morse?

 

P/1 – Não, eu sei o que é. É aquele que faz a comunicação entre as estações?

 

R – Exatamente, ver e ouvir.

 

P/1 – O senhor foi começar a trabalhar na estação, foi treinar e começou com o código Morse?

 

R – Depois de oito meses é que a gente veio aprender o serviço para poder arranjar uma vaguinha para...

 

P/1 – Como é que a Rede Ferroviária fornecia o treinamento?

 

R – Na estação mesmo.

 

P/1 – O senhor pediu para ser treinado?

 

R – Na estação, por exemplo, de São Caetano, quando eu comecei, tinha todo o serviço que uma estação pode ter, né? Tinha que aprender tudo, telégrafo, despachante, bilheteria, o que aparecesse, manobra de trem que era muito movimentada a estação de São Caetano. Tinha que aprender tudo isso e eu, modéstia à parte, desempenhei essas funções.

 

P/1 – Quando o senhor aprendeu o código Morse, como é que era o aparelho? O senhor já começou a mexer no aparelho?

 

R – Não conhece o alfabeto não?

 

P/1 – Não, não sei como ele é.

 

R – É porque aqui não tem um aparelho Morse não, mas nos museus vocês podem...

 

P/1 – Ele era quadradinho?

 

R – Era um aparelhinho, mais ou menos desse, com uma espécie de um gatilho, sabe? A gente bate aqui e vai respondendo na estação seguinte. A mesma coisa para ouvir, entendeu? A gente tem que decorar de ouvir tudo isso. Vou dar um exemplo, a letra “S”, três pontos, “O”, três linhas. A gente tinha que aprender tudo isso. Existe o alfabeto Morse completo.

 

P/1 – O senhor aprendeu o código Morse e começou a trabalhar na Estação de São Caetano?

 

R – Na mesma estação.

 

P/1 – O senhor foi contratado logo em seguida?

 

R – Ah, não, fiquei tirando licença de férias do pessoal efetivo. Às vezes, ia para a cidade vizinha como Caruaru, substituir algumas pessoas lá, entendeu?

 

P/1 – A primeira substituição que o senhor fez quando começou na Rede, qual foi?

 

R – Lá em São Caetano mesmo, um colega adoeceu e eu fiquei no lugar dele...

 

P/1 – E o que ele fazia?

 

R – Telégrafo, né?

 

P/1 – O senhor se lembra do seu primeiro dia de trabalho? Como é que foi?

 

R – Não tenho ideia porque eu fui efetivado no dia primeiro de maio de 1948.

 

P/1 – Mas esse primeiro dia que o senhor trabalhou, o senhor lembra o que foi fazer para substituir esse rapaz que estava doente?

 

R – Não, eu não lembro não.

 

P/1 – O senhor começou a trabalhar substituindo, que tipo de funções o senhor foi exercendo para substituir essas pessoas? Foi no telégrafo, o que mais?

 

R – Como eu disse, para trabalhar na estação, a gente tinha que aprender todo o serviço. Então, o que aparecesse, era bilheteria, era telégrafo, era despachante, era manobra dos trens, tudo, a gente tinha que fazer e eu, modéstia à parte, aprendi, né?

 

P/1 – O senhor foi contratado em 1948?

 

R – Primeiro de maio de 1948, né?

 

P/1 – Naquela época, já era Rede Ferroviária Federal S/A (RFFSA) ou ainda era Great Western of Brazil Railway?

 

R – Era do inglês.

 

P/1 – Quem o chamou para ser efetivado no trabalho?

 

R – Eu comecei a praticar, entrou um chefe da estação e foi quem propôs que eu ficasse efetivo, né?

 

P/1 – Como é que era o nome desse chefe da estação?

 

R – Abelardo dos Passos Cabral.

 

P/1 – Quando o senhor foi efetivado, qual foi a função que o senhor foi fazer?

 

R – Bilheteria.

 

P/1 – Como é que era a bilheteria? Conta para a gente, o que era ser bilheteiro?

 

R – Bilheteria é o seguinte, tinha um armário, mais ou menos, dessa altura, um metro, ficava em cima de uma mesa. Naquele armário, a gente colocava os bilhetes, tinham uns cachezinhos. Então, lá era a primeira e segunda classe no caso. Bilhete de primeira era azul e branco, e o de segunda classe era azul, seriado. Toda estação tinha, por exemplo, ele estava em São Caetano, Caruaru, primeira e segunda classe e, assim por diante, todas as estações, a gente tinha que colocar os bilhetes.

 

P/1 – Era o senhor que vendia os bilhetes para os passageiros e recebia o dinheiro?

 

R – Exatamente. Quando terminava o expediente, o trem passava e não tinha mais trem, fazíamos um mapa diário, chamava-se T-50, esse era o diário. Tínhamos o T-60, que era um mapa mais ou menos de 80 por 60 centímetros e esse era semanal, todo sábado a gente tinha que fazer esse mapa.

 

P/1 – E esse mapa, o que tinha? Ele tinha quantos passageiros...

 

R – Todo resumo, todos os bilhetes das estações, todas as estações eram lançadas ali. Então, a gente somava, não existia máquina, somava tudinho para poder bater com...

 

P/1 – Com o dinheiro recebido?

 

R – Exatamente.

 

P/1 – Se o senhor tivesse vendido dez para Caruaru, dez para outra cidade, o senhor tinha que colocar lá para onde foi vendido?

 

R – No mapa tinha que fazer tudo aquilo, especificado.

 

P/1 – Nessa estação tinha muito transporte de passageiro, em São Caetano?

 

R – Tinha, só existia transporte no trem, somente o trem. A rodovia veio aparecer muito depois.

 

P/1 – Era para qual destino que as pessoas viajavam mais?

 

R – Recife, Caruaru, às vezes, iam para o Sertão.

 

P/1 – Como é que era essa estação de São Caetano? Ela tinha uma vila dos funcionários?

 

R – Tinha não, apenas tinha castelo do pessoal que trabalhava nos trens, o condutor, o maquinista e o guarda freio. Então, tinham os castelos.

 

P/1 – Que eram os dormitórios, os alojamentos?

 

R – Exatamente, exatamente. E só fazia dormir, porque a comida eles se viravam, né?

 

P/1 – O que tinha nesses alojamentos?

 

R – Somente armador de rede.

 

P/1 – Ah, eles dormiam em rede?

 

R – É, todos eles conduziam a sua redezinha, chegavam lá e armavam a rede.

 

P/1 – O que mais que tinha na estação? Tinha plataforma, que mais que tinha?

 

R – Aquela foto ali foi tirada na plataforma, o trem passava aqui e a gente ficou ali naquela plataforma.

 

P/1 – Tinha restaurante, hotel, próximo dessa estação?

 

R – Tinha, tinha.

 

P/1 – Tinha algum comércio próximo à estação?

 

R – Apenas pequenas bodegazinhas, sabe?

 

P/1 – Qual era a dificuldade de trabalhar como bilheteiro? Tinha alguma?

 

R – Não, porque todo mundo já sabia qual era o preço da passagem, entendeu?

 

P/1 – O senhor lembra quanto que era o preço da passagem nessa época?

 

R – Ah, é difícil a gente lembrar, né? Porque a moeda mudou tantas vezes de lá para cá que não tenho mais nem ideia.

 

P/1 – E qual era o horário do senhor? O senhor trabalhava oito horas, como é que era seu turno?

 

R – Às vezes, até 12 horas. Por exemplo, eu trabalhava como agente noturno, determinado tempo, das 19 horas até sete horas do outro dia, com manobra de trem. Nesse dia, não tinha bilhete para vender, era manobra de trem somente.

 

P/1 – E tinha muita manobra de trem nessa estação? Por quê?

 

R – Porque ela era estação entroncamento. Recebia os trens aqui de Recife e os que vinham do interior, então, ficavam todos ali para fazer recomposição.

 

P/1 – Ah, ela era uma estação que ela ligava a Linha Tronco Norte com a Linha Tronco Centro, era vicinal?

 

R – Não, tudo era Centro... A ligação da Linha Tronco Centro não era aqui, era em Cinco Pontas. Lá era somente do Centro mesmo, porque o trem terminava a viagem lá e fazia outra composição para sair com outro prefixo. Todo trem tinha um prefixo, é CC1, CC2, CC5, seis e assim por diante.

 

P/1 – O CC1 era o que vinha de Recife?

 

R – Exatamente. O CC2 era indo para Recife, do interior para a capital. Trem de passageiro era PC1 e PC2, PC1 subindo, saindo de Recife, e o PC2 era para Recife.

 

P/1 – Que tipo de carga era transportada nessa linha?

 

R – Era milho, feijão, mamona, algodão, café muito raro, mas aparecia.

 

P/1 – Como é que era a coisa do passageiro que vinha com a mala, como é que era? Tinha que pesar essa mala?

 

R – Tinha. A maleta pequena não, a maleta quando ia com o passageiro não, mas se tivesse uma, por exemplo, mudança tinha que despachar, aí era onde funcionava o despachante, né? Despachava tudo e embarcava num carro que era anexado a composição.

 

P/1 – O senhor fazia esses serviços de despacho nessa época também?

 

R - Tudo, tudo a gente... Quando eu trabalhei na estação de São Caetano, a que eu comecei, tive que aprender tudinho o que fazer.

 

P/1 – E o senhor fazia de tudo, não dependia da hora?

 

R – É, exatamente...

 

P/1 – Então, despacho de mudança era o senhor que fazia?

 

R – É.

 

P/1 – Tinha algum despacho de mercadoria também?

 

R – Tinha era justamente isso, né?

 

P/1 – Mas, por exemplo, de grãos, alguma coisa tinha lá? O que o senhor tinha que fazer?

 

R – Tinha.

 

P/1 – E como é que era o procedimento?

 

R – Embarcavam nos vagões, né?

 

P/1 – E como é que o embarque era feito nessa época?

 

R – Em sacos, né?

 

P/1 – A estação tinha pessoas que carregavam os trens? Tinham funcionários que faziam isso?

 

R – É. Tinha o maquinista que era quem conduzia o trem, então, no trem de passageiro, era somente a bagagem despachada, essa ia no mesmo trem de passageiro. Já os vagões, que eram trens de carga, eram vagões selados, fechava a ponta, selado para não haver violação, entendeu?

 

P/1 – Mas quem carregava os vagões? Eram os funcionários da própria estação?

 

R – Dependendo da quantidade de volume, né? Porque se era um vagão lotado era à parte e a pessoa que contratou o despacho é quem fazia o embarque.

 

P/1 – E ele tinha que trazer mercadoria e ainda se preocupar em embarcar?

 

R – Exatamente.

 

P/1 – Quem cobrava o transporte dessas mercadorias? Era feito na estação ou tinha um...

 

R – Pagava quando fizesse o despacho, pagava logo. Depois, surgiu o frete a pagar, ele seria pago no destino. Essa mercadoria tinha que ser não perecível para garantir o frete, né? Chegava lá com a mercadoria deteriorada e, se o cliente não recebesse, quem perdia? Então, a mercadoria de fácil deterioração, tinha que ser paga na hora.

 

P/1 – O senhor cuidava disso também?

 

R – Quando eu estava chefiando. Quando estava ajudando, o chefe era o outro, né? Então, o chefe fazia a arrecadação de tudo e enviava para a Tesouraria.

 

P/1 – E tinha uma balança lá na estação?

 

R – Tinha.

 

P/1 – Como é que era essa balança, era balança de chão?

 

R – Uma balança de ferro, bem pesada, talvez pesasse uns 500 quilos.

 

P/1 – E eram pesados os sacos ali e todas as mercadorias?

 

R – Não, os sacos eram normalmente de 60 quilos, naquele tempo. Agora, as outras mercadorias, pequena bagagem, eram pesadas na hora ali, dez, 15, 20, 30, 40 quilos. Pesava, fazia os cálculos de acordo com as tarifas, né?

 

P/1 – Quando a pessoa despachava, ela recebia algum documento?

 

R – Recebia.

 

P/1 – Era o que? Era o Conhecimento?

 

R - Conhecimento, é, eram três vias. A parte ficava com um, a 1ª via.

 

P/1 – O senhor trabalhou na Rede como bilheteiro até que ano?

 

R – Ah, eu trabalhei vários tempos, porque em todo lugar que eu trabalhava, trabalhava como bilheteiro. Eu trabalhei em São Caetano de 1948 até 1952, aí fui transferido para Arcoverde, fui trabalhar como bilheteiro. Lá era especificamente bilheteiro.

 

P/1 – Então, em São Caetano, o senhor fazia de todas as atividades, manobras, bilhete, despacho.

 

R – É, exatamente.

 

P/1 – Quando o senhor foi para Arcoverde o senhor só foi para fazer bilheteria?

 

R – Bilheteria, é.

 

P/1 – E por que...

 

R – É muito movimento, né? Então, cada funcionário tinha que ter a sua função. O telegrafista era um, o bilheteiro é outro, o despachante de carga era um, de bagagem era outro, cada qual na sua.

 

P/1 – A estação era maior?

 

R – Maior, é.

 

P/1 – Lá tinha muito transporte do quê?

 

R – Lá eram animais, algodão, mamona, milho e outras coisas mais, né?

 

P/1 – Tinha muito transporte de passageiro também?

 

R – Tinha muito.

 

P/1 – E para onde esses passageiros iam?

 

R – Para o sertão, era Serra Talhada, Sertânia, Afogados da Ingazeira e para Recife, que era a maioria... É, a maior parte era para Recife.

 

P/1 – Quem eram as pessoas que viajavam nesse trem?

 

R – Morador de lá, porque só tinha transporte do trem. Não tinha outro transporte, era o trem mesmo.

 

P/2 – O senhor, como bilheteiro, tinha uniforme diferenciado, como é que era? Como é que era esse uniforme?

 

R – Era de gravata, às vezes, dependendo da situação, boné, entendeu?

 

P/2 – Que cor que era o boné?

 

R – Azul.

 

P/1 – O uniforme era azul do bilheteiro?

 

R – Na estação, o do telegrafista era cáqui e o boné azul.

 

P/1 – E do bilheteiro, o uniforme era azul?

 

R – Tudo uma coisa só.

 

P/1 – O senhor trabalhou em Arcoverde e o senhor morava na estação?

 

R – Morava na estação.

 

P/1 – O senhor foi morar na estação?

 

R – Fui.

 

P/1 – Em São Caetano, o senhor não morava na estação?

 

R – Não, morava na casa onde a gente...

 

P/1 – Que era a casa dos seus pais?

 

R – Exatamente.

 

P/1 – Quando o senhor foi transferido para Arcoverde, o senhor foi sozinho?

 

R – Fui, eu era solteiro, nesse tempo, e eu me hospedava num hotel.

 

P/1 – O senhor morava no hotel, então?

 

R – Não, somente a alimentação. Dormia na estação.

 

P/1 – Onde era o lugar que o senhor dormia?

 

R – Era um quartinho que tinha, arrumava a rede, né?

 

P/1 – Ah, era de rede?

 

R – Rede. É.

 

P/1 – E tinha banheiro e tudo em ordem?

 

R – Tinha, tinha.

 

P/1 – Quanto tempo o senhor ficou em Arcoverde?

 

R – Pouco tempo.

 

P/1 – Por que, senhor Caetano?

 

R – Porque quando eu saí de São Caetano, saímos eu e um colega que fomos transferidos do serviço por uma perseguição política lá. Então, a gente foi transferido, eu e um colega.

 

P/1 – Ah, o senhor saiu de lá porque teve um problema?

 

R – Foi, político, né?

 

P/1 - Por quê? Conta para a gente, que problema foi esse?

 

R – Política, naquele existia Partido Social Democrata (PSD) e União Democrática Nacional (UDN). Eu como solteiro, frequentava o clube da UDN, e o PSD era oposição, era justamente o pessoal que era do governo. Com isso, eles acharam que a gente estava fazendo alguma coisa que não agradasse a eles, então, eu fui transferido para Arcoverde e o colega foi para Belo Jardim. De julho até novembro, eu fiquei em Arcoverde, aí o colega de Belo Jardim, que saiu comigo, desentendeu-se com o chefe, eu desci de Arcoverde para Belo Jardim.

 

P/1 – Ah, o senhor foi pra Belo Jardim?

 

R – Fui.

 

P/1 – E o senhor foi fazer o que lá?

 

R – O que aparecesse, né? Era bilheteria, despacho de mercadorias, tudo. Tinha um chefe. O chefe era quem...

 

P/1 – O chefe da estação, o senhor o ajudava?

 

R – Era.

 

P/1 – Essa estação era maior do que Arcoverde, ou era menor?

 

R – Era Menor.

 

P/1 – E tinha muito transporte de mercadoria?

 

R – Tinha.

 

P/1 – Que tipo de mercadoria que tinha?

 

R – A maioria era queijo, leite. Embarcava muito com trem de passageiros, tudo para Recife.

 

P/1 – Esses vagões não eram climatizados nem nada, como é que eram esses vagões?

 

R – Em tambores.

 

P/1 – E ia ao vagão de bagagem?

 

R - Da bagagem.

 

P/1 – Não corria o risco de estragar esse leite, esse queijo?

 

R – Não, porque nesse tempo era pouco, né? Era bem vedado, chegava em tempo, ficava deteriorado não.

 

P/1 – O senhor, em Belo Jardim, morou onde?

 

R – Belo Jardim, num quartinho que tinha lá perto da estação.

 

P/1 – Como era essa estação, tinha comércio, as pessoas vendiam algumas coisas lá?

 

R – Vendia. O pessoal vendia frutas, algumas bugigangas como se diz.

 

P/1 – Que frutas que vendiam naquela região?

 

R – Lá era laranja, banana, jaca.

 

P/1 – A cidade era menorzinha, como é que era?

 

R - De Arcoverde?

 

P/1 – Não, de Belo Jardim.

 

R – Era menor que Arcoverde.

 

P/1 – Quando o senhor não estava trabalhando, o que o senhor fazia nessa cidade?

 

R – Bom, a gente trabalhava o dia todinho, né? Quando era de noite, a gente tinha que descansar.

 

P/1 – Mas tinha folga?

 

R – Não, não existia folga para a gente.

 

P/1 – O senhor trabalhava direto? De segunda a segunda?

 

R – Exatamente, era.

 

P/1 – Quando o senhor sai de Belo Jardim, o senhor vai para onde?

 

R – Caruaru.

 

P/1 – Por que o senhor foi para Caruaru?

 

R – Porque tendo saído de São Caetano, a política mudou. Fui chegando para ver se voltava para São Caetano e, realmente, voltei, né? Passei uns tempos em Caruaru, aí voltei para São Caetano. Infelizmente, meu pai faleceu em 1954. Quando eu voltei, já foi sem ele.

 

P/1 – Quando o senhor voltou, ele já tinha falecido?

 

R – Foi.

 

P/1 – Quando o senhor ficou em Caruaru, o senhor foi fazer o que lá?

 

R – Bilheteria. Lá o movimento era maior, né?

 

P/1 – Tinha muito passageiro?

 

R – Tinha, porque lá inclusive era dividido, tinha a bilheteria de primeira classe e a de segunda. Os passageiros de primeira iam de um lado e os da segunda do outro.

 

P/1 – E o senhor tomava conta dos bilhetes...

 

R – Da segunda classe.

 

P/1 – Quem frequentava a primeira classe em Caruaru?

 

R – Aqueles comerciantes e o povo em geral que precisava viajar, só tinha o trem mesmo. Depois, foi que veio a rodovia, melhorando, subindo e o trem foi caindo, né?

 

P/1 – Em Caruaru, tinham essas festas, já era comum as festas religiosas?

 

R – Ah, tinha. Caruaru era uma cidade bem desenvolvida, né? Naquele tempo já era, e hoje, então, cresceu demais, né?

 

P/1– Aumentava mais o movimento em Caruaru na época das festividades?

 

R – Exatamente.

 

P/1 – Quem vinha para ver as festas?

 

R – Muita gente do interior, de Recife para lá, né? Tinha a Festa do Comércio, muito falada, muito comentada e tinha muitas atrações, sabe?

 

P/1 – Essa Festa do Comércio, o que era?

 

R – Era na Rua do Comércio mesmo, na rua da feira, aí ficou com esse nome, Festa do Comércio. Tinha duas bandas de músicas que abrilhantavam a festa.

 

P/1 – E o pessoal ficava dançando? Tocava o quê? Forró?

 

R – Tocava tudo que aparecesse (risos).

 

P/1 – E o senhor frequentava a festa também?

 

R – Ia dar umas voltinhas para lá, né?

 

P/1 – Em Caruaru, o senhor morava na estação também ou não?

 

R – Era. Inicialmente, eu morava numa pensão que ficava muito pertinho da estação porque eu tinha obrigação de levantar de madrugada, tinha que o vigia ir chamar, uns duzentos metros, mais ou menos. Eu acordava três horas da manhã, o vigia chamava e a gente tinha que ir para lá.

 

P/1 – Porque já começava a vender bilhete há essa hora?

 

R – Exatamente, saía o trem de São Caetano às três horas, passava em Caruaru as três e 40. Aí, o movimento era muito grande e a gente começava a vender bilhete cedo.

 

P/1 – O senhor começava a vender às três e meia,mais ou menos?

 

R – É. Então, o que acontecia? O trem passava as três e saía de lá às três e 48. A gente fazia o mapa para ver se estava tudo certo, porque, às vezes, podia haver um engano ali de um passageiro ter deixado o bilhete, porque na próxima estação se houvesse alguma reclamação, a gente tomava conhecimento logo para resolver, né? A gente só podia sair da estação depois que fechasse o mapa, o trem chegasse à próxima estação e se estivesse tudo “ok”, tudo bem. Depois de quatro horas, eu voltava para a pensão dormir, né? Às nove horas, eu tinha que voltar porque tinha um trem de passageiros indo para o sertão. Ele passava às dez e meia, mais ou menos. Mesmo procedimento, fazia o mapa, quando chegasse na estação São Caetano, aí, a gente voltava para a pensão, almoçava, dormia, quando era às duas horas, tinha outro trem vindo do interior para Recife, outro expediente, né?

 

P/1 – Aí tinha que fazer o mapa de novo?

 

R – Tudo de novo, né? O trem ia embora, a gente descansava um pouquinho por ali, quando era à noite, tinha o trem do subúrbio que saía de Recife para São Caetano. Esse chegava a São Caetano, passava em Caruaru às oito e 38, depois desse trem, a gente estava livre por enquanto, né?

 

P/1 – O senhor teve algum problema nessas estações que o senhor trabalhou São Caetano, Arcoverde, Caruaru? Teve algum problema em relação a algum passageiro que não pagou a passagem, que quis embarcar?

 

R – Não, porque se o passageiro embarcasse no trem, saía com o pessoal no trem, né? O nosso serviço era em vender o bilhete e o passageiro entrava, né? Se a gente pegasse um passageiro lá no trem, era com o pessoal do trem, o condutor era quem fazia a arrecadação e era quem resolvia, né? Pagava o bilhete com multa porque tinha que pagar, né?

 

P/1 – A multa era muito alta? Então ele voltava...?

 

R – Não. Era pouca coisa.

 

P/1 – O senhor ficou quanto tempo lá em Caruaru?

 

R – Eu cheguei lá em 1953, saí em 1955. Meu pai morreu em 1954, em 1955 eu fui para São Caetano.

 

P/1 – O senhor ficou sabendo que o seu pai morreu como?

 

R – No mesmo dia, na mesma hora, porque tínhamos telefone. Eu estava até dormindo já, estava na pensão dormindo, aí me chamaram, né?

 

P/1 – Tinha um telefone e o senhor ficou sabendo?

 

R – Foi.

 

P/1 – Ele faleceu do que, senhor Caetano?

 

R – Coração.

 

P/1 – Ele tinha quantos anos nessa época?

 

R – Ele tinha 57.

 

P/1 – Morreu novo...

 

R – Foi.

 

P/1 – O senhor foi lá para São Caetano para o enterro? O senhor teve uma licença como é que foi?

 

R – Tinha minhas irmãs e o meu irmão que moravam lá e foram eles que resolveram. Eu apenas fui passar o dia, porque, depois do enterro, voltei no dia para ir trabalhar, né?

 

P/1 – O senhor conseguiu voltar só em 1955, para São Caetano, é isso?

 

R – Foi.

 

P/1 – E o senhor foi fazer o que lá na estação de São Caetano de novo?

 

R – Fazia tudo que tinha para fazer. Era despacho, era manobra, era bilheteria, o que aparecesse. Em 1956, eu casei.

 

P/1 – Como era o nome da sua esposa?

 

R – O apelido dela era Nina, agora, o nome dela é Severina.

 

P/1 – E o senhor a conheceu onde?

 

R – Em São Caetano, numa festa.

 

P/1 – Ah, é? Que festa foi que o senhor a conheceu?

 

R – Festa do Cabugá. A divisa era uma ponte, né? Era o centro e tinha o bairro Cabugá que ficava perto da estação.

 

P/1 – E tinha um baile lá, uma festa?

 

R – Ah, tinha tudo.

 

P/1 – Aí o senhor foi e a conheceu?

 

R – Foi. Ela morava em Caruaru e foi para lá, a gente se conheceu e está junto até hoje.

 

P/1 – O senhor namorou com ela quanto tempo?

 

R – Foram três anos.

 

P/1 – Onde o senhor foi morar lá em São Caetano, quando o senhor voltou?

 

R – Fiquei morando em São Caetano.

 

P/1 – Mas em que lugar era uma casa, era na estação?

 

R – Numa casa.

 

P/1 – Em São Caetano, o senhor falou da manobra que era feita dos trens. Por que era necessário fazer a manobra? Era uma área de entroncamento?

 

R – Era uma estação de entroncamento, tinha muito transporte, aí tinha que fazer recomposição dos trens porque o trem, de acordo com a lotação, não pode exceder do peso, né? Tinha que dividir os vagões. Chegavam, por exemplo, 30 vagões, a gente via pelo peso, pelos vagões, cada vagão tinha um documento constando o peso, se o trem dali por diante não pudesse levar tudo a gente tinha que dividir, saía outro trem depois.

 

P/1 – Ah, tinha que acoplar outra locomotiva para levar os outros vagões?

 

R – É, exatamente.

 

P/1 – Isso era muito comum acontecer?

 

R – Muito. Porque, na estação, a gente passava a noite todinha trabalhando, fazendo manobra, chegava trem, saía trem e, às vezes, não dava nem um cochilo, era a noite todinha, 12 horas.

 

P/1 – E trabalhava no outro dia?

 

R – Não, sete horas largava e o outro colega era quem assumia.

 

P/1 – E era assim porque depois de São Caetano a via não comportava muito peso, era isso?

 

R – É, exatamente. Porque tinham uns trechos, por causa de rampas, descidas, não podia, é de acordo com a lotação.

 

P/1 – Então, depois de lá, era uma região que tinha muitas subidas e descidas, por isso que tinha que tomar certo cuidado?

 

R – É, exatamente.

 

P/1 – Era por uma questão de segurança?

 

R – Exatamente.

 

P/1 – O senhor ficou trabalhando, fazendo de tudo, em São Caetano, e o senhor casou e ficou com a sua esposa, quanto tempo o senhor ficou ainda?

 

R – A gente casou em 1956 e eu saí em 1962, fui designado para chefiar. Nesse tempo, em São Caetano, eu era ajudante. Aí, em 1962, eu fui designado para chefiar a estação de Afogados da Ingazeira.

 

P/1 – O senhor passou pelo processo da compra, da Great Western, inglesa, para poder virar RFFSA? Como foi esse processo para os funcionários? Como é que vocês ficaram sabendo disso? Teve uma melhoria de salário, uma melhoria de condição?

 

R – Realmente, teve uma melhoria. Agora, em termos de organização, os ingleses eram muito mais organizados. Passou para o governo, aí a parte do governo sempre há aquelas falhas, né?

 

P/1 - O que era mais organizado com os ingleses?

 

R – Era muito rígido o serviço, se a gente errasse qualquer coisa tinha que pagar o prejuízo que desse à empresa, né? E os outros não, depois ninguém era punido, entendeu?

 

P/1 – Aconteceu alguma vez uma punição com o senhor? O senhor teve que pagar alguma coisa na época dos ingleses ou não?

 

R – Não, não paguei nada não, mas colegas já pagaram, né?

 

P/1 – O que aconteceu? Dá um exemplo?

 

R – Um colega quebrou um aparelho telefônico, aí ele pagou (risos).

 

P/1 – Ah, ele quebrou o aparelho e teve que pagar?

 

R – Foi.

 

P/1 – Quando o governo assumiu, não acontecia mais isso?

 

R – Acontecia, mas era muito diferente.

 

P/1 – Houve uma melhora de salário quando o governo saiu?

 

R – Houve sim.

 

P/1 – E o senhor vai assumir a chefia da...

 

R – Da estação de Afogados da Ingazeira.

 

P/1 – Afogados Ingazeira. E essa estação como é que ela era?

 

R – Era menor do que a de São Caetano, mas com muito mais movimento. Porque lá eu fui chefiar e a minha responsabilidade era maior, né? Eu tinha que fazer os trens fazerem as manobras, fiscalizar os bilheteiros e conferir todo aquele serviço. Serviço burocrático era tudo comigo. Os ajudantes faziam os mapas e eu tinha que fazer o resumo geral.

 

P/1 – E lá tinha tanto trens de passageiros como de carga?

 

R – Tinha, tinha.

 

P/1 – Qual era a mercadoria mais transportada lá? Tinha muito açúcar?

 

R – Não, açúcar não, lá era milho.

 

P/1 – Muito milho?

 

R – Maioria era milho.

 

P/1 – E, senhor Caetano, no processo todo de trabalho numa estação, o senhor tem o serviço de telégrafo, que é o serviço de comunicação, tem o serviço de manobra que é feito nos pátios. Esses pátios eram grandes? Todas as estações tinham ou algumas não tinham?

 

R – Algumas maiores e outras menores, né?

 

P/1 – Mas toda estação tem um pátio de manobra?

 

R – Tem sim.

 

P/1 – Chama rotunda, é isso?

 

R – Porque lá é o seguinte, lá tinham as linhas, né? Lá em São Caetano, a gente tinha quatro linhas, quatro. Em Afogados da Ingazeira só tinham duas, tinha o virador, que o trem terminava lá e a locomotiva tinha que fazer girar para ir à outra posição.

 

P/1 – Então assim, a gente tem manobra, tem o bilhete para se vender, que é o embarque de passageiros, tem a coisa do despacho de mercadoria.

 

R – Exatamente.

 

P/1 – Que outro serviço também se faz nas estações?

 

R – Ah, somente isso mesmo.

 

P/1 – Mas e o pessoal de manutenção de via também fica na estação?

 

R – Fica, agora, é outro pessoal. A Via Permanente era o mestre de linha quem era responsável por eles.

 

P/1 – Nessas estações que o senhor nos contou que trabalhou até agora, tinha alguma estação que tinha manutenção de vagões ou das...

 

R – Tinha, tinha.

 

P/1 – Era de responsabilidade do senhor?

 

R – Não, não, apenas o encarregado do serviço dizia que o vagão não podia seguir, a gente tirava da composição e deixava a disposição dele, quando ele fazia o serviço, a gente retornava a composição.

 

P/1 – Então, a responsabilidade de tirar o vagão ou o carro de passageiro da composição era do senhor?

 

R – É, porque no caso era o registrador, então, o vagão não tinha condição de sair, aí a gente tinha que tirar da composição e ficava lá a disposição dele. Quando ele fazia o serviço e estava em condições de viajar, a gente retornava a composição em outro trem e ia embora.

 

P/1 – Em quais estações dessas que o senhor trabalhou, Arcoverde, Caruaru, São Caetano, que tinha oficina de manutenção?

 

R – Afogados, Arcoverde, São Caetano, Caruaru... Recife nem se fala, porque aí era geral, todo serviço, ali era muito serviço, né?

 

P/1 – Como era feito o abastecimento das locomotivas, isso era feito nas estações?

 

R – Depende, porque tinha lugar que abastecia somente o com água, assim várias estações tinham. Mas óleo, naquele tempo, era lenha, tinham os depósitos, em São Caetano e Arcoverde.

 

P/1 – Era responsabilidade do chefe de estação o abastecimento?

 

R – Não, era com o chefe do depósito.

 

P/1 – E as lenhas, essas coisas todas...

 

R – Era tudo com o outro pessoal.

 

P/1 – O senhor chegou a ver as máquinas movidas à lenha?

 

R – Ah, muito.

 

P/1 – E o que diferenciava essa locomotiva a diesel com a da lenha?

 

R – Que a diesel é muito mais moderna, né? A lenha é aquela que tinha aquelas fornalhas, não sabe? Tinha aquele funcionário que colocava toda a lenha ali e a diesel não. Na diesel, a gente podia trabalhar até de gravata que não tinha problema nenhum, já na máquina de lenha, óleo, não tinha condições.

 

P/1 – O senhor ficou em São Caetano quanto tempo, nessa segunda volta?

 

R – Bom, aí eu saí de Afogados, no caso...

 

P/1 – Tem razão, Afogados foi...

 

R – Fui para Pesqueira. Um colega fez uma permuta comigo, a gente fez uma permuta e eu fui para Pesqueira.

 

P/1 – Ele queria vir para Afogados, ele pediu e o senhor trocou com ele?

 

R – Exatamente.

 

P/1 – O senhor aceitou por quê? O senhor tinha interesse de ir para lá?

 

R – Tinha porque eu queria descer um pouco.

 

P/1 – Ah, o senhor queria vir mais para cá?

 

R – Porque inclusive, quando em Afogados da Ingazeira, eu fui à condição de voltar logo, passei um ano somente. Aí, a família ficou em São Caetano.

 

P/1 – Ah, sua família ficou em São Caetano?

 

R – Em São Caetano. Quando eu vim para Pesqueira, a família foi, né? Minha esposa era professora e ela conseguiu transferência e foi morar em Pesqueira.

 

P/1 – E o senhor foi morar onde em Pesqueira?

 

R – Na casa do chefe da estação.

 

P/1 – Como é que era essa casa?

 

R – Ah, uma casa de taipa muito antiga.

 

P/1 – Era de taipa ainda?

 

R – Era grande, telha vã, era um frio danado (risos).

 

P/1 – Fazia muito frio lá?

 

R – Fazia, muito.

 

P/1 – Porque é uma região alta?

 

R – É, é.

 

P/1 – Como é que era a paisagem dessa cidade, o entorno de Pesqueira? Tinha plantação do que lá?

 

R – Naquele tempo, tinham muitas fábricas lá, que foram fechando, hoje talvez tenha uma fábrica, mas tinham várias fábricas de doces.

 

P/1 – Fábrica de que tipo de doces, senhor Caetano?

 

R – Tinha a Fábrica Peixe (Indústria Alimentícia Carlos de Britto S/A) que fabricava doce de goiaba, banana, todo tipo de doce. Tinham umas três ou quatro fábricas... Hoje, penso que não existe mais nem uma ou duas.

 

P/1 – Pesqueira ficava muito longe do centro para essa questão de manutenção e socorro, quando tinha algum problema. A estação tinha alguma coisa de manutenção?

 

R – Tinha, no caso, o revistador, a manutenção dos vagões. Isso lá tinha.

 

P/1 – E essa região transportava muita mercadoria? Que tipo de mercadoria ela transportava, senhor Caetano?

 

R – Ah, era mamona, milho também... Mais era mamona.

 

P/1 – Dessas mudanças todas que o senhor fez, foi tudo dentro da Linha Tronco Centro, mas tinham diferenças de paisagens, de locais, de tipo de plantação, de altitude? Tinham diferenças, por exemplo, em relação a Caruaru, Pesqueira, São Caetano?

 

R – Pesqueira tinha mais plantio de tomate.

 

P/1 – Ah, tinha tomate?

 

R – Tinha muito tomate lá e ficava pertinho da estação, né? Da estação para a cidade mesmo ficava um pouco distante. Inclusive tinha subida, né? A gente, quando tinha feira, tinha que fazer lá...

 

P/1 – Ah, era no centro da cidade?

 

R – Era.

 

P/1 – E próximo de Caruaru? O que tinha em termos de plantação? Como é que era a paisagem que tinha lá?

 

R – Em Caruaru, no centro mesmo, era somente o comércio, né? Fora isso, tinha aquele Mestre Vitalino Pereira dos Santos, aquele de barro, sabe? E várias olarias lá, em Caruaru, mas tudo fora da cidade.

 

P/1 – Era bem próxima a linha do trem, entre os trechos das cidades é que tinham essas olarias?

 

R – É.

 

P/1 – O senhor ficou em Pesqueira, como chefe de estação, quanto tempo?

 

R – Seis anos, aí fui para Caruaru.

 

P/1 – Aí o senhor voltou para Caruaru?

 

R – Foi. Vagou a estação lá, me convidaram e eu fui para Caruaru.

 

P/1 – E lá o senhor morava na estação, tinha uma casa?

 

R – É, no primeiro andar, em cima da estação mesmo, né?

 

P/1 – Como é que era essa casa?

 

R – Era um apartamento grande, só não tinha elevador, mas tinha escada. Era a plataforma ali, a gente subia, pronto, já estava lá. Também tinha uma coisa, qualquer problema que desse embaixo, na estação, qualquer coisa, o chefe da estação tinha que tomar conhecimento, né?

 

P/1 – Ficava sabendo de tudo?

 

R – É, manobra de trem, tudo tinha que ir para mim.

 

P/1 – Nessas estações que o senhor trabalhou, todas até agora que o senhor nos contou, teve algum acidente grave que o senhor foi comunicado entre uma cidade e outra. E o que o senhor tinha que fazer se acontecesse um?

 

R – Não, graças a Deus, nunca teve comigo, mas antes quando eu cheguei em Pesqueira tinha havido um acidente grave, aí eu cheguei depois.

 

P/1 – Esse acidente o que foi? Foi com carga ou passageiro?

 

R – Carga.

 

P/1 – Como é que foi? O senhor sabe?

 

R – Lá tinha rampa, em Pesqueira, que é muito íngreme, sabe? Então, o trem cortou, aí aquele vagão saiu...

 

P/1 – Descarrilou?

 

R – Não sei se foram três ou quatro vagões, saíram ladeira abaixo. Aí vinha outro trem. Desse trem, por sinal, morreu o maquinista, né? Esbagaçado.

 

P/1 – Ah, porque ele bateu nos vagões descarrilados?

 

R – Foi, porque era rampa, mas desceu, pegou aquela ali. Desceu, não tem quem segura mais e vinha outro trem, né?

 

P/1 – Quando acontecia esse tipo de acidente, o chefe de estação também ajudava? Tinha que fazer alguma coisa?

 

R – Tinha, tinha que fazer tudo, né? Comunicar tudinho.

 

P/1 – Tinha que comunicar a manutenção? O socorro?

 

R – Exatamente, é.

 

P/1 – Tinha algum documento que tinha que ser preenchido? Algum formulário?

 

R – Ah, tinha, tinha, tinha tudo.

 

P/1 – Quando o senhor sai de Caruaru o que o senhor vai fazer? Para onde o senhor vai?

 

R – Em Caruaru, eu passei mais de cinco, seis anos, aí vim para Recife, na Estação Central. Convidaram-me e eu fui para a Central. Agora, passei pouco tempo chefiando a estação, um ano somente. Era uma estação que tinha muito serviço e muita responsabilidade, sabe? Enquanto no interior, a gente trabalhava com quatro, cinco homens, funcionários, lá na Estação Central, a gente trabalhava com mais de 80 sob a jurisdição da gente e fora os outros da repartição, que tinham muito mais, sabe? Eu não me adaptei muito bem, tinha que tolerar muitas coisas. Eu não me adaptei, entendeu? (risos).

 

P/1 – O senhor tinha que tolerar que tipo de coisa?

 

R – Coisa que a gente não pode nem dizer, né? Porque era coisa que ia me comprometer, aí não fazia não, entendeu?

 

P/1 – O senhor morava onde quando veio assumir a chefia da estação Central?

 

R – Morava na Rua São João que fica perto da estação, talvez aí uns 300 metros mais ou menos.

 

P/1 – Ah, tinha uma casa lá?

 

R – Tinha, é.

 

P/1 – Basicamente, qual era o movimento a estação Central? Era de trens de vagões...

 

R – De passageiros, passageiros. De carga, era em Cinco Pontas que era a estação ao lado. Era independente, somente passageiros.

 

P/1 – E quantas linhas de trem tinham aqui na Central?

 

R – Ah, eram várias, porque lá saía trem, chegava trem, tudo isso... Do Sul, do Norte, do Centro, tudo era lá.

 

P/1 – E chegava trem de quanto em quanto tempo mais ou menos?

 

R – Ah, durante o dia era subúrbio, aquele subúrbio que era de dez em dez minutos, três, assim por diante.

 

P/1 – O serviço que o senhor desenvolvia nas estações menores em relação ao da Estação Central só se modificava por causa do volume ou tinha alguma outra atividade que o senhor tinha que fazer que não era necessário fazer nas outras estações?

 

R – Eu tinha que administrar tudo, né? Tudo que fosse ali da estação tinha administrar. Então, tinha o bilheteiro de primeira classe sul, o segunda sul e assim por diante. A bilheteria de lá, em Recife, era primeira classe sul, segunda classe sul, primeira classe norte, e assim sucessivamente, centro também. Todas estas três linhas e mais o subúrbio que tinha o torniquete que esse aí não tinha bilhete impresso, era passando no torniquete.

 

P/1 – Esse torniquete o que era? Era...

 

R – Era fechado e só passando ali é que pagava, contava por ali.

 

P/1 – O despacho de mercadoria também era de sua responsabilidade ou de bagagem?

 

R – Não era minha, porque tinha o pessoal que fazia o despacho, agora...

 

P/1 – O senhor era o chefe?

 

R – Era o chefe, e chefe, você sabe como é, né?

 

P/1 – Tinha um despacho muito grande de bagagens nessa estação?

 

R – Tinha, porque despachava para todo canto. Norte, sul, centro, tudo despachava, né?

 

P/1 – Por exemplo, algumas encomendas pequenas iam para Cinco Pontas ou ficavam na Central?

 

R – Bagagem ficava em Recife, bagagem. Cinco Pontas era exclusivamente carga.

 

P/1 – Mas carga de volume grande?

 

R – Volume grande ou pequeno, o que for. Porque o preço era mais barato de carga, né? Então, às vezes, a pessoa preferia pagar menos, né? Bagagem era mais cara porque era mais rápido, né? Na estação Central.

 

P/1 – O senhor não se adaptou e o que o senhor fez? O senhor pediu para sair? O que o senhor fez?

 

R – Fui destituído.

 

P/1 – O que fizeram com o senhor? Mandaram o senhor para onde?

 

R – Colocaram-me no movimento de trens.

 

P/1 – Em Recife?

 

R – Em Recife. Fiquei embaixo e fui para o primeiro andar (risos).

 

P/1 – Como é que foi essa mudança para o senhor?

 

R – Não foi muito boa, mas eu me adaptei, né?

 

P/1 – Mas o que falaram para o senhor? O senhor foi conversar com quem pra saber que o senhor não era mais o chefe de estação e que o senhor ia tomar conta do movimento do trem?

 

R – Não, eu comecei a fazer as coisas e acharam que eu estava errado. Tudo o que eu fazia estava errado, né? (risos). Quando há perseguição, ninguém faz o serviço certo, né? Aí, eu fui para o Movimento, controlar trens pelo telefone.

 

P/1 – Como é que é isso? Conta para a gente como é que se controla o trem?

 

R – Todos os trens são controlados pelo Movimento. Tem as bancas que controlam, é um servidor, o centro é outra, subúrbio é outra, tudo ali naquela mesa. Um trem está atrasado, vem outro, aí precisa saber qual é a preferência, entendeu? E assim, o encarregado manda, é quem determina.

 

P/1 – Se um trem está atrasado para poder chegar à estação, para que não haja acidente, o senhor é quem controlava isso, o senhor que avisava?

 

R – Exatamente, é.

 

P/1 – Então, a pessoa que movimenta o trem no trilho trabalhava com o senhor?

 

R – Já é outra coisa.

 

P/1 – O movimento era da linha?

 

R – É, é outro pessoal.

 

P/1 – O caso do senhor era para saber se estava chegando o trem na estação?

 

R – O movimento no caso, né? A gente tinha que controlar o trem, porque aquele trem de passageiro, por exemplo, podia atrasar, mas adiantar nada. Não podia adiantar.

 

P/1 – Não podia? Por que ele não podia adiantar? Explica para a gente.

 

R – Não podia porque um passageiro podia perder o trem, não é? Podia atrasar, o trem de passageiro podia atrasar, não tinha problema. Agora, adiantar, nada.

 

P/1 – E se o trem estava adiantado, o senhor avisava, se comunicava com ele para ele poder diminuir?

 

R – Não, não é diminuir a passagem, é ver a estação que podia demorar o trem, né? Não era o maquinista diminuir a velocidade, né?

 

P/1 – Ah, ele tinha que ficar parado na estação?

 

R – É. Aguardar até a hora que fosse permitido, né?

 

P/1 – Ah, porque ele tinha o horário de partida e horário de chegada?

 

R – Exatamente, exatamente.

 

P/1 – Se ele chegasse um pouco antes na estação, ele tinha que esperar até a hora dele poder passar?

 

R – Exatamente.

 

P/1 – O senhor ficou quanto tempo controlando os trens de passageiro aqui na Central?

 

R – 1976... Aí, eu adoeci em 1979, eu deixei a estação em 1979, tive um problema de coluna, dor ciática. Passei uma temporada de licença, sabe? Sofri muito, mas, graças a Deus, estou por aqui (risos).

 

P/1 – O senhor ficou quanto tempo de licença, senhor Caetano?

 

R – Eu passei uns dois meses.

 

P/1 – Deixa-me voltar um pouquinho, só para entender no tempo, mas se o senhor não se lembrar, não tem problema. Em 1962, o senhor foi pra Caruaru?

 

R – Em 1962, não. 1962 foi Afogados da Ingazeira.

 

P/1 – Ingazeira. Aí o senhor ficou lá...

 

R – Até Pesqueira, Pesqueira-Caruaru, Caruaru-Recife.

 

P/1 – Em Afogados da Ingazeira o senhor ficou quanto tempo para ir para Caruaru? Até 1965?

 

R – Não, em Afogados eu passei um ano. Em Pesqueira, eu passei cinco anos e meio mais ou menos.

 

P/1 – O senhor ficou até 1967, 1968?

 

R – 1969. Aí, vim para Caruaru, passei seis anos em Caruaru e vim para Recife.

 

P/1 – O senhor em Recife como chefe de estação e depois o senhor ficou mais quanto tempo como...

 

R – Em 1976, eu fiquei na Central, no fim de 1976, eu fui para o Movimento.

 

P/1 – E o senhor ficou até quando?

 

R – Trabalhei por lá, fiquei por lá uns... Passei uma temporada doente, aí fui deslocado para outra função.

 

P/1 – O senhor foi para onde?

 

R – Fui para a Regional.

 

P/1 – Vamos voltar um pouquinho, só quero entender uma coisa, na época da revolução de 1964, o senhor estava em qual estação?

 

R – Pesqueira.

 

P/1 – E o senhor percebeu alguma coisa, o senhor recebeu alguma ordem, porque o senhor era chefe da estação, de que não poderia trafegar trem, alguma coisa assim?

 

R – Teve, lá ficou um trem.

 

P/1 – Ficou um trem?

 

R – Parado, né?

 

P/1 – Como é que foi isso?

 

R – Parado lá e aguardando a resolução, né?

 

P/1 – Porque, no dia anterior, o senhor não ficou sabendo de nada? Quando o senhor chegou pra trabalhar...

 

R – Só aquele movimento, né? Aquele movimento no rádio. Não tinha televisão, era rádio.

 

P/1 – E o rádio falava o quê?

 

R – Comentando e aquela confusão que havia revolução e não sei o que e parava tudo. Parou mesmo, lá ficou um trem, na estação.

 

P/1 – Essa ordem veio da onde, que o trem tinha que ficar parado?

 

R – Lá do Movimento de Trens.

 

P/1 – Eles falaram para não movimentar o trem?

 

R – Com interferência de outras pessoas, era o movimento quem determinava, né?

 

P/1 – Ele só saiu depois de quanto tempo?

 

R – No outro dia.

 

P/2 – Era trem de carga ou de passageiro?

 

R – Carga.

 

P/1 – Agora, vamos voltar ao que o senhor estava me falando, o senhor me disse que ficou um tempo de licença, quando o senhor voltou o senhor, foi para onde?

 

R – Fui para a Regional.

 

P/1 – Na Regional, o senhor fazia o quê?

 

R – Lá no escritório tinha uma repartição que era de trens, burocrático, eu fiquei por lá pouco tempo também, porque houve a mudança de chefia e saiu o superintendente. Como eu não tinha sido transferido ainda, apenas estava emprestado, voltei para o Movimento de Trens.

 

P/1 – Aí, o senhor voltou pro Movimento de Trem?

 

R – Foi. Aí fiquei até me aposentar.

 

P/1 – Aqui na Estação Central?

 

R – No Movimento de Trens.

 

P/1 – Qual era a maior dificuldade que o senhor tinha no Movimento de Trem? Tinha alguma coisa que era mais difícil de fazer? Como é que era?

 

R – Às vezes, o serviço era meio complicado.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque envolvia umas coisas, sabe? Deixava a gente numa situação meio... Depois, quando eu estava na banca, eu fui determinado para fazer escala do pessoal, melhorou um pouco, né? Quem fazia a escala do pessoal era eu.

 

P/1 – Então, teve uma época que o senhor estava movimentando o trem, dando o controle de tráfego nos trens na estação e o senhor foi fazer escala do pessoal?

 

R – Do pessoal do trem, dos colegas.

 

P/1 – O senhor determinava quem conduzia tal trem, qual era o horário?

 

R – Os horários, né? Porque tinha lá os horários das sete às 12, de 12 às 18, 18 às 24 e 24 às seis. Aquelas turmas eram quatro servidores e mais um encarregado, são cinco pessoas. Quem fazia aquela escala era eu.

 

P/1 – Era rodízio, como é que era?

 

R – Rotativo.

 

P/1 – Mas era rotativo diário ou semanal?

 

R – Diário, quem pegasse sete horas, no mesmo dia estava voltando meia noite, largava de sete, folgava, no outro dia vinha às 18h, era rotativo.

 

P/1 – E o senhor trabalhava de que horário a que horário nesse período?

 

R – Trabalhava das 8 às 12 e das 14 às 17.

 

P/1 – E o senhor morava onde nessa época?

 

R – Eu morava num apartamento lá, na distância de talvez uns dois quilômetros, tinha que ir de ônibus, né?

 

P/1 - Mas que bairro que era aqui em Recife, o senhor lembra?

 

R – Era centro, Avenida João de Barros.

 

P/1 – A primeira vez que o senhor chegou a Recife, que foi mais ou menos final de 1970?

 

R – Foi em 1975.

 

P/1 – Qual foi a impressão que o senhor teve de Recife? O que o senhor achou de Recife?

 

R – Bom, Recife eu já conhecia há muito tempo, né? Sempre vinha a Recife. Estes treinamentos que a gente fez, tomava conhecimento de tudo, né?

 

P/1 – Qual a impressão que o senhor tinha de Recife? Como é que era Recife naquela época?

 

R – Antes, eu pensava que não ia me adaptar. Primeiro, né? Mas, graças a Deus, eu e minha família gostamos bastante e ficamos... Num instantezinho acostuma. Nós acostumamos.

 

P/1 – Era uma cidade que tinha muitos prédios, tinha muitos carros? Como é que era? As pessoas se movimentavam muito a pé?

 

R – Era a pé. O movimento hoje triplicou talvez, ou mais. Naquele tempo, o transporte era até razoável, a gente pegava o ônibus, mas não era cheio, né?

 

P/1 – E o pessoal para ir para o subúrbio só usava os trens?

 

R – Os trens, é. Quer dizer, o subúrbio de quem morasse ali na linha do trem, né? Esse negócio, de fora da linha, precisa de ônibus, no meu caso, morando no apartamento na Boa Vista, tinha que ser de ônibus.

 

P/1 – E, senhor Caetano, todas essas viagens que o senhor fazia, mesmo para treinamento a Recife ou mesmo de mudança de uma cidade para outra para assumir funções em outras estações, viajava como?

 

R – No trem.

 

P/1 – Como é que era viajar de trem? Conta para a gente?

 

R – Vocês não conhecem o trem, não? (risos)

 

P/1 – Conheço. Mas qual é a paisagem, como é que era?

 

R – Eu sei que quando a gente morava em Afogados da Ingazeira que andava de trem, a poeira era muito grande, sabe? (risos) A gente chegava numa situação crítica, não tinha cabelo que se ajeitasse. Era muita poeira, o trecho não era empedrado.

 

P/1 – O senhor chegou a viajar com locomotiva a vapor?

 

R – Cheguei.

 

P/1 – E como é que era a fornalha?

 

R – Era um barulho danado ali, viu?

 

P/1 – É?

 

R – É, um barulho, quentura, entendeu?

 

P/1 – E a faísca, saía muita faísca?

 

R – Não, não.

 

P/1 – O senhor tem alguma história de alguns acidentes que o senhor vivenciou, que o senhor ficou sabendo de trens de passageiros, ou mesmo de carga, que o senhor possa contar para a gente? Como é que aconteceu o acidente? Como é que foi feito o socorro? O senhor sabe nos dizer?

 

R – Bem, esse acidente que houve em Pesqueira, por exemplo, eu soube apenas porque não era na minha gestão. Eu sei que o maquinista morreu na hora. A polícia tomou conhecimento, houve inquérito, e, graças a Deus, comigo nunca houve acidente não.

 

P/1 – O senhor falou que fez muitos cursos pela Rede, que tipo de cursos o senhor fez?

 

R – Treinamentos para haver uma mudança de tarifas, a gente tinha que modificá-las; aquela instrução de trabalho, a gente tinha que reger por ali; essa questão de trens, a gente não podia fugir daquele regulamento, entendeu?

 

P/1 – E o senhor recebia um treinamento daquele regulamento?

 

R – É.

 

P/1 – Tinha um livro que eles davam, para que o senhor seguisse...

 

R – Aquela apostila que eu mostrei ali. Tinham os professores que explicavam tudo, depois davam apostila, né?

 

P/1 – Tinha uma fiscalização, por exemplo, como é que era feito o controle do seu trabalho? Como é que eles sabiam se o seu trabalho estava sendo bem feito? Como é que era feito isso?

 

R – Tínhamos o fiscal, né?

 

P/1 – Ele viajava as estações e...

 

R – É.

 

P/1 – Ele fiscalizava de quanto em quanto tempo?

 

R – Mês em mês, de surpresa, não avisava ninguém e chegava o fiscal.

 

P/1 – Como é que era feita a limpeza nas estações?

 

R – Os serventes.

 

P/1 – Tinha uma equipe de limpeza também?

 

R – Não, os serventes faziam de tudo. O que aparecesse ele fazia, era embarque de mercadoria, era limpeza, enfim, todo serviço era...

 

P/1 – Por exemplo, limpeza de trens também, de vagões era feito por eles?

 

R – Bom, limpeza de vagões somente na Central, ou no terminal das viagens, né? No caso, Central, Salgueiro, hoje; Maceió. Somente nas estações e terminais.

 

P/2 – E para o senhor, qual que era a importância de ser agente de estação, que em muitas das cidades era uma figura superimportante, super-respeitada? O que o senhor sentia? Era muita responsabilidade?

 

R – É, não tenha dúvida que, de acordo com a estação, a gente tinha muita responsabilidade, né? Numa estação menor, a responsabilidade é menor, quanto mais gente, mais responsabilidade que a gente tem.

 

P/1 – Nessas cidades em que o senhor morou e foi chefe de estação, as pessoas tratavam o senhor de uma forma mais respeitosa em função do cargo?

 

R – Trabalhava, sempre fui respeitado.

 

P/1 – Mesmo pela população local?

 

R – Muito, é. Porque, inclusive, eu tratava bem. A pessoa que trata bem é bem tratada, né?

 

P/1 – O senhor pegou a fase da suspensão de trens de passageiro, não pegou?

 

R – Peguei.

 

P/1 – Em que ano foi isso? O senhor lembra?

 

R – Deve ter sido... Eu já estava em Recife. Aliás, foi Recife, em 1970...

 

P/1 – Não tem problema se o senhor não lembrar. Qual foi o impacto do trabalho para o senhor? Diminuiu muito o trabalho?

 

R – Não, a mesma coisa, porque o trabalho era o mesmo. Se não tinha o trem de um, aparecia do outro, né?

 

P/1 – Mas, por exemplo, aqui na Estação Central, que era muito movimento de trens de passageiros, quando se extinguiu...

 

R – Eu já não estava mais lá, estava no Movimento, né?

 

P/1 – É, mas então, no Movimento de Trem, não tinha diminuído o movimento de trem?

 

R – Porque é o seguinte, o movimento de trens não fica só exclusivo da Central, são todas as...

 

P/1 – Ah, o senhor montava de todas as estações?

 

R – Toda estação que tinha comunicação, né?

 

P/1 – Da Linha Tronco Centro, Norte, Sul...

 

R – Tudo, tudo, toda estação o movimento fazia a terminação toda.

 

P/1 – Como é que esse controle? O senhor se comunicava direto com as estações?

 

R – Exatamente.

 

P/1 – Via telégrafo? Via telefone?

 

R – Telefone.

 

P/1 – Como é que era essa comunicação, as estações avisavam o senhor que o trem estava chegando, é isso?

 

R – Quando havia qualquer problema eles avisam tão logo, né? A máquina quebrou, um vagão descarrilou, entendeu?

 

P/1 - O que o senhor tinha que fazer quando acontecia isso?

 

R – Providenciar a pessoa que estava responsável por ali, né? No caso da manutenção do vagão, era com o pessoal da revisão.

 

P/1 – E o senhor comunicava o pessoal de segurança, de manutenção?

 

R – De segurança, se houvesse alguma alteração do pessoal, né?

 

P/1 – O senhor se comunicava o tempo todo com várias estações das diversas linhas, da Linha Tronco Norte, Sul e Centro?

 

R – Exatamente.

 

P/1 – Se acontecesse, por exemplo, um descarrilamento de um trem, o que o senhor tinha que fazer nessa função?

 

R – De imediato, eles tinham que comunicar se o trem descarrilou, os trens, muitas vezes, não tinha telefone, aí mandavam a estação mais próxima avisar, né? Cada qual tinha que se responsabilizar porque se era um descarrilamento era com o pessoal da via, da manutenção, não é?

 

P/1 – Tinha que mandar alguém da manutenção para lá?

 

R – Exatamente. Porque a linha era uma só, não podia passar mais nada. Todo trem que fosse passar por ali, tinha que parar para poder aguardar o restabelecimento da linha.

 

P/1 – E se tivesse que transferir para outra linha, o que o senhor fazia?

 

R – Não, só tinha uma linha.

 

P/1 – Aí, o senhor tinha que pedir para que não seguisse mais trem?

 

R – Era tudo parado, tudo parado, para tudo.

 

P/1 – E, por exemplo, se esse trem que descarrilou ficasse muito tempo lá e precisasse passar a noite para resolver, tinha que mandar alguma segurança para lá também, isso era função do senhor?

 

R – Não, até que naquele tempo precisava de muita segurança não.

 

P/1 – Era mais a manutenção que o senhor comunicava?

 

R - Exatamente, porque também não demorava muito tempo, não.

 

P/1 – Como essa comunicação era feita, por exemplo, se o trem descarrilava no meio do caminho ele tinha telefone para por na linha de transmissão do telégrafo?

 

R – Depois de uns tempos que colocaram telefone nas locomotivas, aí era imediato. Mas, quando não tinha telefone, saía a pessoa a pé, um dos tripulantes, para a estação mais próxima, entendeu? Agora, depois de muito tempo, foi que colocaram o telefone. Aí, pronto, quando acontecia alguma coisa, todo mundo tomava conhecimento.

 

P/1 – E o senhor falou que casou em...

 

R – Em 1956.

 

P/1 – Em 1956. O senhor teve o primeiro filho que ano?

 

R – 1957.

 

P/1 – Que foi a menina?

 

R – A menina, é.

 

P/1 – Como é que ela se chama?

 

R – Maria do Socorro.

 

P/1 – Depois, o senhor teve um menino. Ele nasceu em que ano?

 

R – Em 1962.

 

P/1 – Como é o nome dele?

 

R – Cleto.

 

P/1 – A menina e o rapaz, como é que eles foram estudando nas escolas? Eles foram mudando e tinham facilidade para estudo, como é que era?

 

R – Tinham, tinham sim.

 

P/1 – Eles iam estudando nas cidades conforme o senhor ia mudando?

 

R – É. Em Caruaru, a menina estudava no colégio estadual. A gente veio para Recife, o menino tinha pouca idade aí começou a estudar no Ginásio Pernambucano.

 

P/1 – Tudo em Recife?

 

R – Tudo em Recife. Ele fez Economia na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e a menina fez Relações Públicas na escola, aí na Avenida Rosa e Silva.

 

P/1 – A esposa do senhor o acompanhava bem nas mudanças, ela não reclamava?

 

R – Não, não, não. Não reclamava nada, né?

 

P/1 – Quem liberava as casas nas estações para os funcionários morarem? Quem é que determinava? Era o chefe da estação ou era outra área?

 

R – Outra área, a do Patrimônio, Departamento de Patrimônio.

 

P/1 – O senhor podia indicar alguém para morar numa casa?

 

R – Não, não. Quando eu chegava à estação, tinha a casa do chefe da estação, essa aí, se alguém tivesse morando, tinha que desocupar, o chefe da estação que a habitava.

 

P/1 – Quem mais morava na vila ou na estação?

 

R – O pessoal da Via Permanente. O mestre de linha, seus subordinados moravam tudo na vila.

 

P/1 – Ah, o mestre de linha, o feitor, todos eles moravam na vila?

 

R – É, mas isso acontecia muito nas estações pequenas, porque por aqui não tinha não. Só no sertão mesmo que tinha vila.

 

P/1 – Mais nas estações do interior que tinha a vila de ferroviários?

 

R – Era.

 

P/1 – E os filhos do senhor acompanhavam o seu trabalho?

 

R – Acompanhavam sim.

 

P/1 – Eles faziam muitas perguntas a respeito do seu trabalho?

 

R – O menino era meio curioso. Certa vez, chegou o fiscal lá e quando o fiscal saiu, ele perguntou se estava tudo em ordem (risos).

 

P/1 – Ah, ele perguntou para o fiscal?

 

R – Para mim.

 

P/1 – Ele queria saber o que estava acontecendo?

 

R – Mais ou menos, né?

 

P/1 – Como o senhor morou muito tempo em estações, quais eram as brincadeiras deles? Eles brincavam na estação, brincavam na linha de trem?

 

R – Eles sempre tinham onde estudar e brincar com os colegas, né? Quando chegava em casa, por exemplo, a gente tinha aqueles vizinhos que brincavam com eles.

 

P/1 – O senhor saía de férias?

 

R – Todo ano, todo ano, a gente saía de férias.

 

P/1 – Para onde o senhor ia?

 

R – Às vezes, passeava, depois ficava em casa.

 

P/1 – Para onde o senhor foi passear algumas vezes? O senhor lembra?

 

R – Certa vez eu fui a Palmeira dos Índios, eu passei lá um dia ou dois, em Alagoas, né? Fui a Campina Grande, fui a Sousa, Paraíba.

 

P/1 – E o senhor foi de trem para Sousa?

 

R – De trem, foi.

 

P/1 – Como é que foi essa viagem de trem? O senhor levou a família junto?

 

R – Não, não, fui só.

 

P/1 – O senhor foi sozinho?

 

R – É, porque a gente pensava ir a Fortaleza, sabe? Mas quando a gente chegou lá em Sousa, que é justamente onde pega o outro trem, a turma começou a fazer medo lá, que os trens eram muito perigosos, corriam demais e tinha muita rampa. Eu junto com o chefe da estação a gente: “Vamos voltar?”. “Vamos”. Aí, a gente voltou, né?

 

P/1 – O que o senhor achou de Sousa, o senhor já tinha ido?

 

R – Não, foi a primeira e única vez, somente. Mas também cheguei lá de noite e voltei de madrugada, não vi nada.

 

P/1 – Quando é que o senhor se aposentou?

 

R – Quando? Dia 1º de novembro de 1983, trabalhei até o dia 31 de outubro.

 

P/1 – E por que o senhor se aposentou?

 

R – Tempo de serviço, né?

 

P/1 – O senhor tinha quanto tempo?

 

R – 36 anos, né?

 

P/1 – Era obrigado se aposentar ou o senhor quis se aposentar?

 

R – Ofereceram vantagem, porque veio a opção em 1975 que garantiu o direito da gente. Então, quando chegou o tempo que garantiram que o salário era a mesma coisa, eu saí.

 

P/1 – O senhor se aposentou com o mesmo salário? O senhor não teve redução de salário na aposentadoria?

 

R – Não.

 

P/1 – O que o senhor começou a fazer depois que o senhor se aposentou? O senhor começou a ter alguma atividade?

 

R – Deixava o tempo correr.

 

P/1 – O senhor estava morando onde?

 

R – Lá na Boa Vista, lá na Avenida João de Barros.

 

P/1 – E agora o senhor mora aonde?

 

R – Eu moro em Piedade, Jaboatão dos Guararapes.

 

P/1 – E por que o senhor mudou para lá?

 

R – Porque minha filha e minha esposa com as economias delas compraram um apartamento, por uma questão de saúde, que minha esposa estava com problema de saúde, o médico disse que era melhor se mudar. Elas fizeram um esforçozinho, com apenas uma pequena ajuda minha, a gente está morando lá. Por sinal, quando eu estava falando com você e o avião passou, foi? (risos) Lá é rota de aviões, né?

 

P/1 – O senhor mora perto da praia?

 

R – Pertinho, a beira mar.

 

P/1 – O senhor tem alguma atividade...

 

R – Caminhar e as obrigações de pagar as contas, fazer as compras de consumo.

 

P/1 – O senhor caminha quantos quilômetros por dia?

 

R – Varia, de seis a oito, dez, dependendo.

 

P/1 – E o senhor caminha na praia?

 

R – Beira mar, porque pela praia só presta quando está seca, então, pelo calçadão. Avistando assim...

 

P/2 – O senhor tem netos?

 

R – Dois, um casal.

 

P/1 – Como é que eles se chamam?

 

R – Caetano Neto e Maria Luisa.

 

P/1 – Eles são filhos?

 

R – Desse rapaz aí.

 

P/1 – Do seu filho?

 

R – É.

 

P/2 – O senhor sabe qual que é a brincadeira predileta deles?

 

R – A brincadeira deles é pegar, porque quando quer uma brincadeira não quer mais deixar, entendeu? (risos). Eles frequentam a escolinha já e a brincadeira na escola é o que tiver por lá, né?

 

P/2 – Porque eu fiquei sabendo que o netinho adora o trenzinho que ele tem, parece que ele tem um trenzinho.

 

R – Tem um trenzinho que é a diversão dele em casa, né?

 

P/1 – Ele pergunta para o senhor se o senhor trabalhou na Rede, como é que era?

 

R – Não, ele vai completar quatros anos ainda, ele começou a falar muito tarde sabe? Depois de dois anos que ele começou a falar, agora que está se soltando, entendeu? Mas ele é muito carinhoso. E a menina também é muito inteligente, sabe? Já trabalha com computador.

 

P/1 – O que significou para o senhor trabalhar na ferrovia?

 

R – Foi muito importante, muito mesmo. Gostei muito, entendeu? Ainda hoje eu sinto falta dos trens, entendeu? Sonho com os trens ainda. Sonho que estou trabalhando... Aquelas responsabilidades que a gente tinha a gente na mente...

 

P/1 – O senhor tem alguma lembrança engraçada em relação ao seu trabalho que seja relacionado a estação, ou mesmo alguma coisa triste que o senhor gostaria de contar?

 

R – É, realmente, não tenho lembrança assim.

 

P/1 – Qual é a importância de um trabalho que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) está fazendo para registrar e resgatar a memória da Rede Ferroviária?

 

R – Muito importante, né?

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque a gente relembra tudo do passado. Quando a gente vai ao Museu do Trem e vê todos aqueles objetos ali, o telégrafo, a sineta, recorda tudo isso, né?

 

P/1 – Eu queria voltar um pouquinho para uma pergunta que eu lembrei agora. Como os trens eram recebidos na estação?

 

R – Dependendo do lugar porque quando eu trabalhei no sertão era uma festa. Tinha um colégio perto, sabe? Era justamente na hora que os alunos terminavam a aula, todos iam para a estação. Era aquela festa, às 17 horas mais ou menos, a estação era cheia de estudantes.

 

P/1 – E o chefe de estação tinha que ficar na plataforma esperando o trem?

 

R – É, exatamente.

 

P/1 – Tinha algum sinal, apito, alguma coisa?

 

R – Na saída, tinha a sineta e tal.

 

P/1 – O senhor quem batia a sineta?

 

R – É.

 

P/1 – Quando ele chegava, ele vinha buzinando, ou não?

 

R – Não, não, caladinho...

 

P/2 – Qual que era o sinal que tinha que fazer na saída?

 

R – Só bater sineta, batia sineta. Quando ele partia, por exemplo, de uma estação para outra que saía de uma estação para chegar naquela, a gente avisava, duas pancadas, três, quatro, dependendo do conceito, sabe? Agora na saída da estação mesmo, era só uma pancada.

 

P/1 – E o senhor entregava também a...

 

R – A licença, só podia sair com a licença.

 

P/1 – Senhor Caetano, o que o senhor achou de ter participado dessa entrevista?

 

R – Muito importante.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Muito importante, porque há muito tempo que a gente não tomava conhecimento das coisas.

 

P/1 – A gente queria agradecer em nome do IPHAN e em nome do Museu da Pessoa sua participação.

 

R – Eu sou quem agradeço essa oportunidade que eu tive. Foi muito importante para mim.

 

P/1 – Se o senhor quisesse dizer alguma coisa para os seus companheiros de trabalho, que trabalharam com o senhor, o que o senhor gostaria de dizer pra eles?

 

R – Que, se tiverem oportunidade, apareçam (risos).

 

P/1 – Muito obrigado Seu Caetano.

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